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Quando
nasci, na Itália, o regime fascista estava no seu apogeu imperial,
com muito orgulho da enorme maioria dos italianos, mesmo que agora alguns
teimem em dizer que não era verdade. Era verdade verdadeira, negá-lo
é idiotice, como idiotice foi o fascismo, regime de quase opereta,
com péssimos atores, risíveis, se não tivessem levado
o país à tragédia. |
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Veio
a "campanha racial", a fuga, vieram as explosões. O arco-íris
demorou pra chegar, mas chegou, ritmo de boogie-woogie, as notas de "I'll
walk alone", "Stormy weather" e "Tipperary". Para trás, ficaram
os ossos de muitos inocentes que havíamos amado, fragmentos das
nossas memórias, a infância perdida. |
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Crescemos
e aprendemos: quatro linhas aqui, dois números aí, alguns
versos. Contar as sílabas. De cor, meninos!
Daedalus interea, Creten
longumque perosus...
Est modus in rebus: sunt certi
denique fines
quos ultra citraque nequit consistere
rectum...
Chato mas gostoso, afinal. |
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Trabalho.
Comércio, como manda a tradição dos mercadores de
um grande porto do Mediterrâneo, cheiro de stock-fish e de azeitonas
nos armazéns dos cais do porto. Nada de literário.Versos,
só para enganar a raiva, a decepção indeterminada,
surda. |
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Até
que um dia alguém disse que valia a pena publicá-los. De
um homem de 36 anos (o tempo é impiedoso) nasceu um livrinho: Terra
e sale. Tempo roubado ao sono. Veio em seguida In cerca di assonanze,
alguns concursos de poemas e de contos, umas medalhas sem importância.
Chegaram os ladrões e levaram tudo, até as medalhas sem importância. |
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De
remi femmo ala al folle volo. Brasil!!!
A Amazônia descoberta por acaso,
o português conquistado às duras penas, o palrar do caboclo
na ponta do trapiche ao cair da noite, entre nuvens de maruins, as estrelas
entre os dedos, o maquinista bêbado no porão do barco, Anajás
e Charapucu... Como ficar calado? |
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Poemas.
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experimentos e uma suíte, Linhas, Cinzel a esmo.
Ungaretti, a tradução
de L'Allegria, o encontro com os poemas "brasileiros" de Cendrars,
depois com todos os outros. Outras traduções, outras noites
de autógrafos.
Europa: a volta, o recomeço.
Nice está longe, o tempo encurrala suas vítimas devagar.
Agora há algumas linhas perdidas, inúteis, talvez, que se
arrastam em alguns disquetes de computador, prestes a ser reformatados.
É só. |
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