Nasceu
em Riachão do Jacuípe em 14 de Junho de 1957. Poeta, ficcionista e
dramaturgo. Na internet duas de suas obras estão no site:
www.ieditora.com.br. Inserido com verbete na página 438 volume I
da Enciclopédia de Literatura Brasileira de Afrânio Coutinho
e J. Galante de Sousa, Editora Global, São Paulo, 2001.
Obras do autor
– Poèmes. tradução de Pedro Vianna, Paris: 1977.
– Pelas lupas do Jaguaracambé e outros poemas. Salvador: Empresa
Gráfica da Bahia, 1986.
– No país dos kiriris. Salvador: Editora do Brasil na Bahia, 1995.
– Os cânticos. Salvador: Gráfica da Assembléia Legislativa da Bahia,
1996.
– Esconso e outras histórias. Salvador: Fundação Cultural do Estado
da Bahia, Coleção Selo da Bahia, 1996.
– O diabo em desordem. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo,
Coleção Apoio, 2001.
– Boca do tempo. Salvador: Editora Maracujá de Vez, 2002.
– A chegada da comitiva de FHC ao inferno. Cordel. 2003.
– A peleja da mulher cacaueira contra o pão que o diabo amassou.
Cordel. 2003.
Em revistas
– Sitientibus, n.º 17, julho e dezembro de 1997, Universidade
Estadual de Feira de Santana, Bahia, “O diabo era coxo”, p. 271 a
274.
– Néon, Salvador, n.º 21, setembro de 2000, “Waldick Soriano; Quem
gosta de mim sou eu”, p. 56 e 57.
– Néon, Salvador, n.º 28, julho de 2001, “A paisagem poética em
Edvaldo Assis”, p. 37 e 38.
– Executivo, dezembro de 1999, Campo Grande, MS, “Francisco”, p. 11.
– Revista da Bahia, nº 27, novembro de 1998, “Revelações do Grotão”,
p. 55 a 59.
Em jornais
– “Sob o olhar do cordeiro”, A Tarde, Salvador, Bahia,
Suplemento Cultural, p. 10; 9/1/1991.
– “O anacoreta Tamatião Fumega”, A Tarde, Suplemento
Cultural, p. 12; 8/1/1994.
– “Amarescente”, A Tarde, Suplemento Cultural, p. 3;
22/09/1994.
– “Um mercador de emoções”, A Tarde, Suplemento Cultural, p.
5; 29/7/1995.
– "José de Oliveira Falcon, um bardo na luta social”, A Tarde,
Suplemento Cultural, p. 12; 16/03/1996.
– “O último dos coronéis”, A Tarde, Caderno 2, p. 5;
9/10/1998.
– “Breve olhar de anseios”, A Tarde, Suplemento Cultural, p.
11; 28/11/1998.
– “O canário de Hildérico”, A Tarde, Caderno 2, p. 3;
4/11/1999.
– “O diabo em desordem”, A Tarde, Suplemento Cultural, p. 3;
20/2/1999.
– “Meus cumprimentos, capitão”, Suplemento Literário de Minas
Gerais, n.º 65; p. 23 e 24; março de 2000.
– “A luz nas tormentas”, Jornal União, João Pessoa, Paraíba,
Correio das Artes, p. 13; 2/1/2000.
– “Solilóquio de um desesperado”, Jornal União, Correio das
Artes, p. 5; 3/9/1999.
– “Cantilena de Sorongo”, A Tarde, Suplemento Cultural, p. 5;
28/8/1999.
– “Canto nordestinado”, A Tarde, Suplemento Cultural, p. 11;
14/10/2000.
– “Na trilha do blues”, A Tarde, Caderno 2, p. 3; 13/3/2000.
– “Tocós”, A Tarde, Suplemento Cultural, pg. 5; 23/11/1991.
– “No viés do franzido”, A Tarde, Suplemento Cultural, p. 6;
12/2/2000.
– “Marinheiro de primeira viagem”, A Tarde, Caderno 2, p. 3;
17/2/2000.
Prêmio
– 1º lugar no Concurso de Contos promovido pelo X Festival de
Inverno de Vitória da Conquista, Bahia, em 1999.
Teatro
Escreveu as peças, ainda inéditas:
–
No Batuque de Massalino
–
Gare du Nord
–
Cabra Cega.
Peças encenadas:
–
Pan, Escola de Teatro da UFBA, 1973
–
Sob o olhar do cordeiro, Sala 5, Escola de Teatro, 1993
–
Onde se escondeu Rasgaluna que não quis ver o luar?, Sala 5,
Escola de Teatro, 1994
–
Tamatião Fumega, o anacoreta, Teatro Expresso Bahiano, 1995
–
La Nonna di Palermo, Teatro Santo Antônio, 1996
Pensão Paraíso, Teatro Casa do Comércio, 1995
–
Os dragões da China, Teatro Martim Gonçalves, 1997.
Roteiros
– O iniciado, em Super 8, com direção de Artur Moreira, 1973
– O glorioso São Roque do Jacuípe, em vídeo, com direção de
Luis Wenderhausen, 1998.
Fez Assistência de Direção do curta-metragem, em 16 mm, Riachão
do Jacuípe, com direção de Ilya Flarerty, São Paulo, 1975.
Depoimentos sobre Miguel Carneiro
Caro Miguel,
Parabéns pela bela colheita de poemas eróticos, fiéis à tradição de
Bocage, Gregório, Aretino e Bernardo Guimarães. Que extraordinária
inspiração! Não costumo ter inveja de ninguém, mas se tivesse que
ter seria de um poeta cuja fonte de inspiração produz poesia desse
tipo.
Continue assim!
Um abraço do
Márcio Catunda Ferreira Gomes
Embaixador do Brasil na República Dominicana
***
Meu estimado Poeta Miguel Carneiro,
que belo seu livro. Não conheço a linguagem poética desenvolvida em
outros livros teus, mas este não foge à força motriz em que
acredito: o lirismo, telúrico, diria. Riachão te banha como uma
cachoeira jorrando sobre o Ori e anuncia teu silêncio vozificado nas
Baladas do cangaceiro sem mãe e outras baladas; energia que os olhos
captam.
"Para quem
pensa
que o cangaço se acabou
vive parado na história."
O lirismo exposto dos versos dessas Baladas sai dos olhos e
esquarteja o silêncio de onde se guarda o "Eu": Dentro de mim / bate
apenas o vento / de uma nova rebelião.
Sutil leveza das lembranças riscadas por Santas, Bábaras, Putas,
céus e chuva de fogo: um grito sorrindo o menino indefeso que logo
segue a liberdade entre as rédeas da mão para crivar em si a
bandeira de sua nação.
A coragem do teu olho, poeta, não mora longe, nem no canto escuro de
uma casa; pertence aonde estais sem se preocupar com a cara do cão,
mas em cantar caatingas de Riachão.
Belo livro que me fez viajar por um mundo, quiçá, das terras de
Massacará,
forte abraço,
João de Moraes Filho
***
Sobre a poesia de Miguel Antônio Carneiro
Miguel Antônio Carneiro. Este é um poeta do cantar de um mundo
fragmentário, mundo que o tempo retorceu e retorce em seus meandros.
Por isso mesmo, sua tendência formal acompanha o tipo de temática
que emerge por meio do poema.
Em Miguel, pode-se falar do traço que o famoso estilista Leo Spitzer
denomina como “enumeração caótica”: uma forma de enumeração que
parece não ter nexo, mas que mantém uma conexão profunda no espírito
do poeta e na sua organização das palavras que representam a sua
reorganização do mundo. E isto Miguel realiza em sua poesia – uma
reorganização do mundo segundo sua perspectiva singular. Desde o
início da seleção, com o poema “Breviário do Povo”, ele nos conduz
para o remoto ano de 1890 a nos guiar por meio dos itens que enumera
para um mundo repleto de signos e de cifras que ecoam em nossa
percepção, compondo um quadro expressivo da região de sua origem.
Se Miguel se refere à data do início da lavoura cacaueira no estado
da Bahia e aos coronéis da cana (1890), se ao nascimento de Carlos
Gardel (1890), se à época em que foi construído o cruzador Tamandaré
(1890), se à fundação do município de Conceição do Coité (1890), com
território desmembrado de Riachão do Jacuípe – terra natal do poeta,
se à data do nascimento do seu avô, que se encontra gravada no
portal da Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Riachão do Jacuípe
(informação do próprio poeta) não é tão relevante como a história
que faz emergir com o inventário de palavras, fatos e expressões que
ressoam como um cantochão – e, literalmente, assim se encerra o
poema “Breviário do Povo” – povoando de mistério as lacunas que são
deixadas entre uns e outros eventos e objetos. Neste poema,
mesclam-se história e histórias, tipos populares, substância
química, sensações olfativas, visuais e auditivas, alistadas
conforme se vê, em parte, abaixo:
1890
Espinhaço do Cavalo
Conde da Ponte que Pariu
Sigilos
Alforrias
Castidades
Phosphori acidum
Bomsucesso
[...]
Cura d’Ars
Rufino Piru
Papaco Coveiro
Ora pro nobis Sancta Dei
Genitrix
Ora pro nobis Sancta Dei
Genitrix
Pra pro nobus Sancta Dei
Genitrix.
A evocação de fatos históricos permeia-se à poesia de Miguel, mas o
que o poeta busca é um nexo que a história oficial oculta. Em sua
poesia, a busca da história se dá nas lacunas e no esquecimento, nas
histórias dos indivíduos em suas relações com sua terra, com sua
memória, com sua infância e juventude. Assim se lêem “A Coluna
Prestes”, “Coberta de Lã”, “Quatro Fadas do meu Burgo”, “Breviário”,
“Lábaro, Libambo e Letal”, que, além desse traço comum, possuem suas
características diferenciadas.
Em “A Coluna Prestes” – poema que se apresenta como um recorte ou um
relato curto – o poeta se dirige a uma segunda pessoa, o que é
freqüente em sua poética, sua mãe neste caso, anunciando o final de
sua permanência no seio da família pela escolha política. Os
elementos destacados como bagagem carregam um teor de ternura
tocante:
Minha mãe, os
Revoltosos estão chegando
bem pertinho de Pé da
Serra
[...].
Arrume minha malota
bote meu galopim da minha
Primeira Comunhão,
minha camisa Volta ao
Mundo,
minha gaiola com meu
azulão.
[...].
Assim também decorre o poema “Coberta de Lã”, onde os “paninhos de
me encobrir” assumem importância equivalente a “lave meu futuro”.
Neste pequeno poema, o poeta parte da sincronia da vivenciação de
eventos particulares, de caráter lírico, para o épico, quando evoca
o “capitão” e o “rio de 1890” e finaliza o poema como se estivesse a
tanger gado, evocando sítios de seu espaço natal.
Aliás, a reminiscência de sua infância se dá num território mágico,
povoado de figuras, de mulheres, inclusive, sobre as quais também se
abate a garra do tempo e dos descaminhos (“Conversa Antiga”). Em
“Quatro Fadas do meu Burgo”, as figuras pitorescas de Gordulina,
Maria dos Poços, Maria de Guigó e Zefa Moringa são evocadas com o
sabor que a distância temporal propicia, em estrofes curtas e
regularmente dispostas, eivadas de humor. A tendência ao caricatural
e ao grotesco aqui encontra exemplos, bem como no poema “Ofício”,
onde, não obstante, é fincado o coração em sangue do poeta:
Em “Os Dragões da China” apresentam-se dois momentos na vivência do
poeta: pleno, o primeiro; de perdas, o segundo. Em dez versos se
conta uma história grave e de efeitos irreversíveis, com o uso de
flagrantes provavelmente colhidos da realidade efetiva como “o anão
tinha um olho de vidro”, “Angélica relia Alberto Caieiro” e assim
por diante.
O sentimento de isolamento, de solidão, e, mesmo, de rejeição se
evidencia em poemas como “Testamento”, como em outros. Na lírica
amorosa, o poema “Canção Tatuada no Peito” revela a intensidade do
poeta diante do amor, sempre itinerando por entre os caminhos de uma
cidade que se faz cada vez mais vazia, uma mega-cidade mecanizada e
ausente, que mais se contrasta à delicadeza do poeta que é Miguel
Carneiro.
Meu anjo
eu não queria lhe contar:
o verso está mutilado,
falta uma rima no ar.
Sabe-se, a elegia é uma forma poética definida como canção ou poema,
que expressa tristeza ou lamentação, usualmente por alguém que
morreu. Essa espécie poética surge na Grécia, na produção textual
denominada elegus, uma canção de lamento acompanhada por flauta. A
partir do século XVI é que as elegias tomam um significado mais
abrangente. No longo poema “Elegia de março”, o gênero assume seu
sentido original. É um longo poema de lamentação. A memória e a
tortura do passado perdido avultam junto com a calamidade política
de 1964 – da qual inevitavelmente nos lembramos, por ser março – e
com toda uma gama de experiências de perda vividas pelo poeta,
inclusive pela morte.
[...]
O jovem elo e pacato traz
no rosto a marca da dilaceração.
Já não faz mais o dever
de casa,
já não recita sua lição
para o amanhã.
Em vão, numa
auto-estrada,
seu corpo esguio jaz, à
espera do rabecão.
É março, é março, é
março,
caminhando para o abril
de um dia
sem guia.
[...]
Então se percebe a ameaça do poder deteriorante do tempo. Esse
poema, longo e grandiloqüente, coroa a seleção aqui apresentada, com
suas belas imagens, seu poder de criar um espaço convincentemente
melancólico, sem sentimentalismos fáceis e purgações de superfície –
pois, aqui, estamos diante de um poeta:
[...]
É março, é março, é
março, é março,
Desfaço o laço dos meus
sapatos
encharcados de lama e
pesadelo.
Ausculto o tempo em minha
memória,
atado,
vejo-me numa longa rua.
É tarde
e nessa madrugada
Os galos esporeiam meus
sonhos.