Janelas que passam  
  Exposição de fotos de Juan Pratginestós  
     
     
 

O nome da mostra dá pistas do tema: Janelas que passam é a invasão de um mundo que viaja solitário, triste, introspectivo,quase sempre calado, indo e vindo, numa rotina urbana incessante e barulhenta.

O fotógrafo flagra usuários do transporte coletivo em sua dimensão cotidiana. São pessoas que dormem durante a longa viagem; que observam, absortas, o ritmo da cidade; que enfrentam a longa espera pela chegada do ônibus com expressão de cansaço ou simplesmente de solidão. “Os ônibus têm sempre aquele mundo de gente, mas na verdade estão todos fechados em si mesmos, numa espécie de solidão coletiva”, explica Juan. E acrescenta: “A viagem de ônibus não é agradável, demora, é uma perda de tempo. Os ônibus estão sempre cheios, muito apertados e são invariavelmente barulhentos. Então, decidi registrar estes exercícios de introspecção que as pessoas fazem”.

Mas as imagens de Juan Pratginestós fazem bem mais do que um simples registro. Com luzes refletidas em janelas fragmentadas, letreiros que invadem a cena, elas comentam a tragédia do cotidiano. Apresentam ao espectador pedaços da vida de pessoas anônimas, flagradas em instantes de intimidade consigo mesmas, embora no meio da multidão. O ritmo urbano está expresso com a sensibilidade de quem busca o humano no meio do metal frio. Como escreve o curador Evandro Salles: “O Outro, ele está sempre além, inatingível, inabordável, alheio. Do Outro, temos apenas pedaços”.

As 25 fotografias foram selecionadas de um total de cerca de quatro mil imagens, clicadas em diversos momentos, em horários diferentes, o que oferece a cada foto uma luz especial, uma dimensão artística singular, única. O coletivo pode estar em movimento ou parado. Espelhar reflexos da urbanidade ou simplesmente oferecer fragmentos de corpos. O foco é sempre surpreendente: ele busca o homem no meio da profusão de luzes.

O ensaio Janelas que passam é apenas um dentre os vários que o fotógrafo desenvolve ao longo de seu trabalho. “Eu gosto de trabalhar assim: fazendo muitos ensaios simultaneamente”, informa Juan. Além das imagens desta série, Pratginestós desenvolve outros exercícios fotográficos, intitulados A Classe Média se diverte e O colecionador de coleções. Explica o fotógrafo: “São exercícios no qual a gente escolhe um tema e tenta esgotar tudo sobre ele. É um processo de criação muito lento e muito abrangente, porque se tentar exaurir o assunto, explorar tudo o que ele pode oferecer. Existem momentos em que a gente fica só pensando naquele trabalho, é quase uma obsessão.”

 
     
     

 

Juan Pratginestós
Nascido em Barcelona, Espanha. 1951, Pratginestós está radicado em Brasília desde 1962.
Atuou como fotógrafo do Hospital Sarah Kubitschek, fez documentação fotográfica como apoio a projetos de saúde, atuou como professor de fotografia do Cresça, Centro de Realização Criadora – Escola de Artes, foi assessor da Fundação Cultural do DF, desenvolveu projetos para a CNBB e PNUD – Programa das Nações Unidas para o Controle Internacional de Drogas.
De 1987 a 1990, trabalhou como correspondente da prestigiosa Agência F4. Desde 1990 realiza trabalhos de documentação fotográfica sobre o meio ambiente, atendendo organizações como o WWF (Fundo Mundial para a Natureza), Ibama ou o Ministério do Meio Ambiente. Foi editor de fotografia da UNB Revista, ligada à Universidade de Brasília. Faz parte do Neaz, Núcleo de Estudos da Amazônia, da Universidade de Brasília.
Juan Pratginestós já participou de coletivas como a I Trienal Fotografia do MASP (1980), I e II Mostras de Fotojornalismo de Brasília (1982 e 1984) e Brasil, Cenário e Personagens (1986). Realizou individuais em Brasília – Tempo Suspenso (1984) e Teatro Outside/Inside (1988), ambas na Galeria Oswaldo Goeldi (1988) – e no exterior – Naterer – Um Naturalista Austríaco na Amazônia, com fotografias de peças do Museum Für Völkerkunder de Viena, Brasília e Manaus (1996). É um dos mais consagrados e atuantes fotógrafos da cidade.