PÍCCOLA GALLERIA

 

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Santos de Sebastião Santeiro, de Pindaíba (Patos de Minas - MG)

Oratórios e santos de Hugo Martins (Paracatu - MG)

pintados por Alcione Cruvinel

 


 

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Presépio

Peças de Sebatião Santeiro, pintura de Alcione Cruvinel

altura média das peças, 35cm

 

 

Oratórios 

Percival Tirapelli

artista plástico e pesquisador em artes, professor 
livre-docente pela UNESP (Universidade Estadual 
Paulista) e autor de As Mais Belas Igrejas do Brasil

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A súplica, se possível, é um ato de sussurro. 

Na intimidade da alma, repleta de dobras que a cada dia nos surpreendem, conseguimos, por vezes, distinguir nossos desejos. Trancafiá-los, se possível, é um ato cotidiano. Mas, com quem dividi-los? Melhor, quando possível, reparti-los com a mudez dos ouvidos santificados. 

Esta confissão íntima, em algum abismo exposto aos nossos olhos, tem uma forma na qual aprisionamos  nossos discretos interlocutores: os santos trancafiados nos oratórios.

A intimidade com os santos é um luso dom. Com feições humanas, habitam nossos lares, ganham brincos, e terços pendem de suas mãos das quais recebemos as graças.

Para abrigá-los em suas casas, os brasileiros inventaram as mais variadas moradas - quando estes celestes visitantes se resignam a morar sobre aparadores, baús de alcovas, cômodas da casa das tias e avós. Nas antigas fazendas, ganhavam lugares fixos em paredes e até capelas particulares ou móveis de proporções avantajadas com linhas estilísticas barrocas ou com graciosas curvas rococós. Naquele tempo, quando o lume oscilante fazia sombras de santos se arrastarem sobre paredes caiadas, rezava-se com fé. Os oratórios eram um pedaço do céu aprisionado ente cores, biquinhos de bilro, filós pendentes e anjos de asas quebradas prestes a serem levados para os pés de algum cruzeiro.
Lá se foram os tempos dos benzimentos com os raminhos tirados dos copos d’água com arruda e guiné. Os oratórios, se possível, ainda guardam ramos retorcidos por algum raio paralisado por ação fulminante das santas almas que ali ficam em prontidão. Mesmo vazio, o que às vezes é possível, está cheio de fé. Mesmo expostos, embora não totalmente, pois são íntimos, encerram em si o mistério sobre de quem será esta morada sacralizada. Enquanto se aguarda, a imaginação da artista Alcione prepara com cores e formas o trono do novo dono. Os azuis que lembram a maciez das nuvens, obrigatório para o conforto celeste. Os vermelhos cortados por tonalidades róseas indicam a aurora, a luz divina, dádiva dos céus. Ocres e amarronzados caem bem com os votos de pobreza e desprendimento da alma. Flores, muitas flores, das mais simples, daquelas plantadas a dois passos da porta, são as mais preciosas, pintadas uma a uma. Quando em grupo, formam festões, pendem das cores de fundo, se expõem nas portinholas e se ocultam nas laterais.

Resgatando esta memória da alma, Alcione, devota em sua crença mineira da proteção dos santos, materializa essa tradição luso-brasileira de bem tratar os santos, ministros de Deus, em nossos lares. Seus oratórios buscam formas na imaginação popular e nos reflexos das linhas estilísticas coloniais. As cores, ora vibrantes ora suavizadas por matizes pastéis,  integram-se com os elementos decorativos, pintados ou recortados. 

Objetos que encerram seres agraciados, seus oratórios expõem-se como formas a serem admiradas e preenchidas com  imaginação e mística. E as sombras que se desfazem e tentam povoar as dobras de nossas almas podem finalmente encontrar morada nesses oratórios com as formas e as cores de antigamente. 

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