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A súplica, se possível,
é um ato de sussurro.
Na intimidade da alma, repleta
de dobras que a cada dia nos surpreendem, conseguimos, por vezes, distinguir
nossos desejos. Trancafiá-los, se possível, é um ato
cotidiano. Mas, com quem dividi-los? Melhor, quando possível, reparti-los
com a mudez dos ouvidos santificados.
Esta confissão íntima,
em algum abismo exposto aos nossos olhos, tem uma forma na qual aprisionamos
nossos discretos interlocutores: os santos trancafiados nos oratórios.
A intimidade com os santos
é um luso dom. Com feições humanas, habitam nossos
lares, ganham brincos, e terços pendem de suas mãos das quais
recebemos as graças.
Para abrigá-los em
suas casas, os brasileiros inventaram as mais variadas moradas - quando
estes celestes visitantes se resignam a morar sobre aparadores, baús
de alcovas, cômodas da casa das tias e avós. Nas antigas fazendas,
ganhavam lugares fixos em paredes e até capelas particulares ou
móveis de proporções avantajadas com linhas estilísticas
barrocas ou com graciosas curvas rococós. Naquele tempo, quando
o lume oscilante fazia sombras de santos se arrastarem sobre paredes caiadas,
rezava-se com fé. Os oratórios eram um pedaço do céu
aprisionado ente cores, biquinhos de bilro, filós pendentes e anjos
de asas quebradas prestes a serem levados para os pés de algum cruzeiro.
Lá se foram os tempos
dos benzimentos com os raminhos tirados dos copos d’água com arruda
e guiné. Os oratórios, se possível, ainda guardam
ramos retorcidos por algum raio paralisado por ação fulminante
das santas almas que ali ficam em prontidão. Mesmo vazio, o que
às vezes é possível, está cheio de fé.
Mesmo expostos, embora não totalmente, pois são íntimos,
encerram em si o mistério sobre de quem será esta morada
sacralizada. Enquanto se aguarda, a imaginação da artista
Alcione prepara com cores e formas o trono do novo dono. Os azuis que lembram
a maciez das nuvens, obrigatório para o conforto celeste. Os vermelhos
cortados por tonalidades róseas indicam a aurora, a luz divina,
dádiva dos céus. Ocres e amarronzados caem bem com os votos
de pobreza e desprendimento da alma. Flores, muitas flores, das mais simples,
daquelas plantadas a dois passos da porta, são as mais preciosas,
pintadas uma a uma. Quando em grupo, formam festões, pendem das
cores de fundo, se expõem nas portinholas e se ocultam nas laterais.
Resgatando esta memória
da alma, Alcione, devota em sua crença mineira da proteção
dos santos, materializa essa tradição luso-brasileira de
bem tratar os santos, ministros de Deus, em nossos lares. Seus oratórios
buscam formas na imaginação popular e nos reflexos das linhas
estilísticas coloniais. As cores, ora vibrantes ora suavizadas por
matizes pastéis, integram-se com os elementos decorativos,
pintados ou recortados.
Objetos que encerram seres
agraciados, seus oratórios expõem-se como formas a serem
admiradas e preenchidas com imaginação e mística.
E as sombras que se desfazem e tentam povoar as dobras de nossas almas
podem finalmente encontrar morada nesses oratórios com as formas
e as cores de antigamente.