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PÍCCOLA GALLERIA |
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ROTEIRO DE UM ITINERÁRIO
A retrospectiva da obra do artista Douglas Marques de Sá — trabalhando há 25 anos — implica não só uma visão sistemática de seu próprio percurso, como também mostra um dos caminhos propostos na construção do fato artístico brasileiro. Marques de Sá, através desta amostragem, remete o espectador a uma aprendizagem: a esteira de seus passos, suas direções, suas marcas, sua proposta específica. Da emoção à concepção da imagem virtual, da imagem à formulação pictórica, os trabalhos apresentados se colocam no lugar do encontro, a partir do qual se estabelece a relação artista-obra-espectador. Neste território, as imagens articulam estruturas de conhecimento e de relação que demonstram seus esquemas de funcionamento, impondo um percurso e uma leitura. Expressando-se dentro do que se compreende por “figurativo”, Marques de Sá codifica e organiza um sistema pictórico, baseado na observação e estudo do mundo e dos objetos que o cercam. Das Paisagens às Naturezas-Mortas, institui uma organização espacial, instaura códigos cromáticos, experimenta novos suportes e trabalha com diferentes materiais. Sua prática o faz elaborar uma linguagem. Para se libertar do rigor obtido nestas etapas, assume a pintura gestual. E, pelo gesto, mergulha no inconsciente, encontrando sua própria identidade e instituindo a autonomia de sua pintura. PAISAGENS No princípio eram as paisagens: realidades visuais onde as imagens se revelam na relação com o espaço. A noção de espaço é ligada à vida que aí se desenrola, movimento de coisas e de seres entre pontos fixos. Do ponto à linha — a trama, a incidência, o modelado, a intersecção — o aprendizado do olho, organizando soluções para o problema pictórico. As paisagens de Marques de Sá são marcadas por dois momentos distintos: o primeiro, São Paulo, e sua preocupação em exaltar os deveres da percepção e da comunicação, revelando o mundo suburbano, o ambiente das periferias onde se instalam fábricas, o avesso da grande cidade. O olho aí se habitua às cores frias, aos ocres e aos cinzas, reflexos de um mundo poluído pelos excrementos industriais. É a semelhança que surge, na cor e no desenho, no momento em que se desvendam as diferenças, pela representação da realidade percebida. O segundo momento, o Rio de Janeiro, implica uma transformação de sua percepção. O encontro com a luminosidade faz com que o trabalho do artista se incorpore à cor local. Representação do mundo exterior, não se trata aí de transpor uma realidade, mas de recriá-la. Por redução e eliminação, construindo o espaço pela cor, cada elemento adquire vida própria. O tratamento do espaço se torna uma operação intelectual. O mundo percebido se transforma em um mundo construído, com a consciência da mutação do objeto no processo artístico. A finalidade da representação é posta em questão para que sejam evidenciados os termos que a constituem. Em viagens pelo Brasil, Marques de Sá busca um encontro com seu povo e sua cultura, de onde emergirão elementos que serão incorporados a seu pensamento plástico. Se, durante um período, suas paisagens são marcadas pelo silêncio, pela ausência, a partir daí serão povoadas de personagens, de expressões e de atividades diversas, fixando as contradições que transparecem numa visão dialética do mundo. NATUREZAS-MORTAS Fazendo uso da madeira (que lhe permite incisões e relevos), articula a superfície através da distribuição de objetos reduzidos conceitualmente, ligados por um tecido artesanal. Esta articulação possibilita infinitas combinações formais e cromáticas. Se a solução do problema pictórico adquire uma plenitude, a proposta das Naturezas-Mortas não tem como finalidade a reprodução realista da ordem das coisas. Trata-se, como já me referi em estudo anterior sobre o artista, de uma “paisagem simbólica”, onde “as formas são motivadas: cada uma delas contém motivos — da vida, da imaginação, da temporalidade. Cada forma informa o espectador sobre suas possíveis significações. Cada forma se constrói como negação, como evanescência e, portanto, como símbolo.” Sobre a mesa posta, forrada de rendas artesanais, com suas tramas barrocas, percebemos murmúrios da cultura brasileira. O GESTO O rigor objetivo com o qual o artista estabeleceu uma linguagem (nas Paisagens e nas Naturezas-Mortas) é agora submetido ao exorcismo pelo gesto. O gesto cria a forma, liberta o corpo, redescobre o lúdico, traça seu espaço no espaço. O objetivo do gesto é o de se exteriorizar, de.existir, de ser. Exorcizar o racionalismo é não mais criar para o “outro”, é desfazer-se do compromisso, é criar para si para encontrar sua própria identidade. Através do gesto, o encontro com a sua verdade, a emergência de suas próprias marcas, o despojamento além da consciência. Localizando nesta fase resíduos da percepção em relação a um referente — a natureza — percebe-se que não se trata aí de compor, mas de dar vida a sensações acumuladas na memória. Na pintura gestual, é a manifestação simbólica do pensamento que está em questão, transformando a ausência de significação em presença do inconsciente. O gesto é motivado pela necessidade subjetiva de uma solução imediata a estímulos externos, e se torna uma solução simbólica em relação a uma solução real. O gesto é, portanto, um ato simbólico. A PINTURA A cor é uma realidade concreta que fixa a imagem do mundo através da consciência que o seu criador assume. A cor é o elemento essencial da comunicação, por sua ação direta na sensibilidade: encanta ou fascina, choca ou irrita, joga o espectador no sonho ou na reflexão. A pintura de Marques de Sá, na fase atual, é estabelecida pela cor, que determina os limites, a forma, a fluidez. As imagens emergem do fundo da cor. São lembranças, sensações, recortes de pensamento, associações. As imagens se compõem ou se decompõem, movimentando-se em atmosferas irreais. Não ilustram ideologias, não transcrevem conceitos: colocam em evidência o sujeito pintor. Este, se exprime em um campo autônomo, o campo da pintura. DOUGLAS MARQUES DE SÁ — São José dos Campos, SP, 1929 Formado em Pintura na Escola Nacional de Belas Artes (RJ) — Bacharel em Jornalismo na Faculdade Nacional de Filosofia (RJ); Estudos no MAM, SP e no Museu de Arte, SP. Individuais de pintura nas Galerias Barcinsky, Petite G., Copacabana Palace e Contemporânea, RJ; Astréia, Sistina, KLM, Pro-Arte e Ambiente, SP; Museu de Arte Moderna, BH. Coletivas no Brasil e Estrangeiro, destacando-se V, VI, Vil e X Bienais de SP. Viveu na Europa e Estados Unidos, 1967-68. Ex-Professor da Escola Nacional de Belas Artes (RJ) e da Faculdade de Belas Artes (SP). Universidade de Brasília: Professor desde 1972; Coordenador do Atelier de Desenho; Chefe do Departamento de Desenho. 1951 - 1.° Prêmio no VI Salão do C.A. Belas Artes de S. Paulo. 1952 - 1.° Prêmio no VII Salão do C. A. Belas Artes de S. Paulo. 1953 - Prêmio 'Prefeitura Municipal de S. Paulo” no VIII Salão do C.A. Belas Artes de S. Paulo. 1954 - 2.° Prêmio no Salão Estudantil da Escola Nacional de Belas Artes. 1955 - 1.° Prêmio no Salão do D. C. E. da Universidade do Brasil. 1955
- 2.° Prêmio no Salão do “Cristo de Cor” (Revista Forma e Teatro 1956 - Medalha de Prata no “Concurso de Premiação da Escola Nacional de Belas Artes” 1956 — Isenção de Júri (Medalha de Prata) no VII Salão Municipal do Distrito Federal (RJ). 1958 — 1.° Prêmio e Aquisição no Salão “Maternidade e Infância” da L.B.A. 1959 — Isenção de Júri (Medalha de Prata) no VIII Salão Nacional de Arte Moderna. 1959 — Prêmio Aquisição no VIII Salão Nacional de Arte Moderna. 1962 — Prêmio Aquisição — Arte Decorativa — no XXII Salão Paulista de Belas Artes (pseud. E. Villar). 1963 — Medalha de Bronze no XII Salão Paulista de Arte Moderna. 1966 — Grande Prêmio Viagem ao Estrangeiro no XV Salão Nacional de Arte Moderna. 1973 — Prêmio Aquisição no Salão Global da Primavera. 1975 — Melhor Cenário do Ano pelo Jornal de Brasília. |