PÍCCOLA GALLERIA

 
  

  
Exposição “Texturas e Fragmentos de Roma”
fotografias de Graça Seligman
 

Em 1993, quando me preparava para deixar Roma, onde vivi por quase três ano, experimentei um profundo sentimento de perda. O desejo de voltar ao Brasil para retomar a vida no meu país era tão forte que superava a tristeza de deixar a bela cidade. A Roma secular, luminosa, ocre, de grandes belezas e detalhes, senhora incontestável de tantas épocas e civilizações.

Na iminência do retorno, dias cheios de compromissos, fui tomada pelo desejo frenético de fotografar, de fixar detalhes, de “roubar” todas as imagens que Roma me oferecia: os fragmentos, os detalhes, tramas, madeiras, pedras, tudo.

Roma era, e é, também minha.

Por isso desejava levá-la comigo,  em quantidade e qualidade, sobretudo em sua imagem menos, tão expressiva fruto de sua grandiosidade.

Minimalista sim, mas para mm fonte de fortes emoções estéticas que consigo exprimir somente através da fotografia. Fotografia que evoca vibrações interiores que não quero perder nunca.

Precisei fazer outras viagens para concluir o meu trabalho sobre Roma e, em cada viagem, o prazer do reencontro, o vagar pelas ruas, a luz mutável das estações dessa cidade que para mim sempre se mostrou luminosa.

Não achei necessário identificar as fotos, exatamente porque não me interessava documentar aspectos específicos de Roma, representativos de épocas históricas ou de correntes artísticas ou culturais. Querida somente contemplar e admirar a beleza de suas cores, da luz , das tramas e dos fragmentos dessa “cidade museu do mundo”.
 

Graça Seligman

 
 
  
de Domenico De Masi sobre 
“Texturas e Fragmentos de Roma"
 

No imaginário coletivo, Roma é grande. Grande pelo seu antigo império pagão, grande pelo seu atual império cristão, grande por suas cúpulas e seus anfiteatros.
Como todas as metrópoles antigas, Roma é multifacetada e seu nome evoca um todo único, um sistema coerente de  edifícios, igrejas, ruas e habitantes que, reciprocamente, conferem sua pórpia identidade, a ponto de formar uma amálgama indivisível, aceita ou recusada em bloco.
Mas os sistemas vivos  e homogêneos como Roma são também sistemas “holográficos”. Para dar maior compreensão a este termo não usual, é necessário lembrar sua origem. Em 1948 , Dennis Gabor conseguiu gravar o conjunto de uma imagem em uma única chapa fotográfica. Chamou “holograma” a este fenômeno e a chapa que o incorporava.
Por sua vez, o neurologista Karl Pribram descobriu que o cérebro funciona exatamente como um holograma, uma vez que cada parte encerra a memória do todo.  O psicólogo Karl Lashlev forneceu a prova experimental deste princípio: as cobaias utilizadas nas suas pesquisas continuavam a encontrar o caminho nos mesmos labirintos em que tinham sido treinadas, embora tivessem amputadas grande parte de seus cérebros. Em outras palavras, uma parte dos neurônios continha o todo.
Cada cidade é um holograma. Basta a imagem da Torre Eiffel para conter toda Paris; basta a imagem do Coliseu para conter toda Roma; basta a imagem do Cristo Redentor para conter todo o Rio de Janeiro; basta a imagem do Empire State Building para conter toda New York. Tratam-se, entretanto de imagens banalizadas. Aliás, mais do que imagens, tratam-se, isto sim, de marcas,  de logotipos, de insígnias, enfim, de clichês turísticos.
Poderíamos, então, fazer uma brincadeira, uma corrida ao minimalismo, buscando imagens cada vez menos comuns, cada vez mais periféricas, mas que contenham a idéia global dessas cidades. Por exemplo, para conter toda Paris, poderíamos propor, simplesmente, a imagem de uma banca de livros nas margens do Sena; para conter as favelas do Rio de Janeiro bastariam os olhos inteligentíssimos de um menino de rua; e para  a atmosfera e a cultura urbana de New York, bastaria a imagem de um mendigo que dorme na calçada da 5 Avenida.

E para Roma ? Até onde estender o minimalismo?
Até que ponto de marginalidade a imagem de um pequeno detalhe arquitetônico, urbanístico ou humano representaria Roma inteira ?

A esta brincadeira, a este gracioso desafio entre o infinitamente grande e o infinitamente pequeno, se prestou Graça com sua câmara fotográfica. Existem – deve ter-se perguntado – sinais mínimo, fugazes alusões visíveis, pequenas sugestões estéticas que, como um holograma, reunam em si e nos ofereçam, em um piscar de olhos, o clima, a atmosfera, a cultura e as superposições históricas de  Roma inteira?

Aí está a gênese da pesquisa de campo feita por Graça. No seu perambular pelas ruas sombreadas, no seu vagar entre os momentos eternos e pelas praças ensolaradas furtou os pequenos segredos daquele ar, do clima e da cultura, onde quer que estivessem escondidos : na fresta de uma parede, na rugosidade de uma pedra ou na madeira  ressecada de um velho portão.
Talvez fosse necessário ser brasileira para vencer este desafio, para completar, com sucesso, uma pesquisa tão precisa e minuciosa. Se Graça fosse européia, teria olhado Roma com os lhos muito “de dentro”  e não teria sido capaz de explorar as imagens oblíquas, fugidias, para muitos secundárias.
Se fosse americana ou australiana, Graça teria se aproximados dos detalhes de Roma com  olhar muito “de fora”  sem perceber a ligação entre o grande e o pequeno, entre o prestigioso e o humilde. Ser brasileiro significa possuir o dom inato da sensualidade, da hospitalidade, do relacionamento imediato e profundo com o outro, com o estranho, com o diferente. Ser brasileiro significa ter em sua ancestralidade uma origem latina e um olhar sofisticadamente planetário. Significa possuir o equilíbrio da história e o desequilíbrio da atualidade, significa ser antigo e pós-moderno ao mesmo tempo. Significa ser sensual como Roma, receptivo como Roma, explícito e interativo como Roma. Ser brasileiro significa ter o olhar indispensável para ver em Roma coisas que outros não são capazes de ver. E, depois de tê-las visto, ser capaz  de fixá-las numa foto e de mostrá-las a todos. Ninguém, nem mesmo eu que vivo em Roma há 40 anos, conseguirá por ela passear sem se dar conta de aspectos antes despercebidos, depois de ter visto as fotografias de Graça.

Moro no centro da cidade e não preciso de carro para chegar aos lugares que me interessam. Vou caminhando, mudando de itinerário ao meu bel – prazer, no labirinto de ruelas que compõem este Pelourinho latino. No meu andar cotidiano, depois que vi as fotos de Graça, cada vez mais me surpreendo parado, a contemplar um portão, uma maçaneta de bronze, uma pedra nunca antes notada e que, até então,  não tinha falado à minha sensibilidade.

Dewey acreditava que educar significava acrescentar mais sentido às coisas. Graça enriqueceu de novos significados, surpreendentes e profundos, milhares de pequenos elementos. Elementos que compõem o mosaico multicolorido e sublime que acompanham os que vagueiam  pelas ruas e praças desta cidade perene.

Há dois mil anos, Virgílio escrevia em Eneida :

“ Tu, romano, lembra-te disso : outros povos virão, e serão superiores a ti na arte da escultura de estátuas, que parecerão vivas; outros serão capazes de calcular a trajetória dos astros com mais precisão do que tu. Mas o teu povo, melhor do que todos, será capaz de impor sua civilização pacificamente, de perdoar os humildes e de submeter os arrogantes”.

Esta missão, fielmente cumprida ao longo de dois mil anos, é condensada em cada vulto e em cada pedra de Roma, nos ínfimos detalhes de um conjunto que os antropólogos costumam chamar de cultura materiale. E Graça não só colheu para si, mas nos fez ver através dos seus olhos privilegiados- olhar que nos conduz pela via artística da exploração – a mais profunda e completa maneira de compreender o mistério das coisas.
Meses atrás, Graça estava em Roma e, como forma de reconhecimento por esta sua pesquisa estética, que muito honra aos romanos, procurei presenteá-la  a meu modo : conduzi Graça por sobre os andaimes de madeira da restauração do Moisés de Michelangelo e das outras estátuas do Sepulcro de Giulio II. Recordo-me dos olhos de Graça,  de seu estupor adulto e infantil ao mesmo tempo, quando se viu a poucos centímetros de pedras tão célebres e estonteantes. Pedras talvez demasiadamente grandes e famosas , muito diferentes das pequenas e humildes coisas que Graça arma fotografar.

Minha intenção, com aquele presente, era provocar um desequilíbrio emotivo, uma emoção contraditória capaz de aflorar  as profundas diversidades  escondidas nesta Roma tão amiga e tão distante.

Hoje, ao contrário, olhando suas imagens tão simples e tão profundas, ofereço a Graça um presente menor e mais coerente com as arte: a frase conclusiva de um  romance belíssimo, escrito por um grande poeta italiano – Aldo Palazzeschi – que se intitula exatamente Roma.
Como em uma foto de Graça, aqui , também, tudo é sintetizado em poucas palavras de extrema simplicidade : “Roma, Roma, Roma, Roma:  jovem e decrépita, pobre e bilionária, recatada e desvairada, limitada e infinita”.
 

Domenico De Masi
Roma, julho de 1999