PÍCCOLA GALLERIA


 

 

 
Arrancando Animal de Planta

(matéria para o Jornal Radcal, n.8, da Fundação Athos Bulcão.
Uma publicação para estudantes do segundo grau)

 
 
 
 Angélica Torres
 

Seu Pedro Oliveira é um escultor sertanejo, fruto de talento, vocação e intuição, aliados  à uma profunda cumplicidade com a natureza. Transforma em obra de arte todo pau seco em que enxerga o espectro de um bicho, uma ave, uma planta, obedecendo a forma que a madeira enseja. Maranhanse, 79 anos, radicado na Cidade Ocidental (DF) há 20 anos, seu Pedro, lavrador da natureza, fala ao RADCAL sobre sua arte e sobre ecologia.

Como o senhor define a sua arte?

Minha arte é da natureza do cerrado. Pego as toras de pau e faço o que penso em fazer.

 Como assim? Como vem a inspiração?

Recebi de Deus. Nunca estudei arte. Depois de 57 anos é que veio a inspiração. Estava aposentado por invalidez. AÍ veio a idéia de trabalhar com o cerrado. Quando eu olho a árvore seca no cerrado, já vejo a forma do bicho que quero fazer. É sempre assim. Vejo forma de onça, jacaré e tantos outros bichos, ave que avoa, coruja, gavião. Faço do pé de babaçu, de buriti, cacho de banana. Faço índio, também, Lampião e Maria Bonita também já fiz.

Tem idéia de quantas peças já criou até hoje

Já trabalho há 22 anos, e tem peça minha em todos os países. Não posso nem contar. Uso machado, facão, faca, martelo e formão, mas uso mais a cabeça do que o ferro.

 De onde vem a sua ligação  com a natureza?

Fui nascido e criado dentro do mundo animal, no Maranhão. Conheço todos os bichos de minha terra. Quando aposentei, veio a idéia de fazer os animais que conhecia. Hoje faço outros que nunca vi, como o dinossauro. E não olho para revista para tirar idéia do animal.

Que material usa? O senhor derruba árvores?

Só uso madeira seca, que já morreu. Não estrago a boa. Dizem que é crime estragar a natureza. E tenho pena de cortar árvore nova para fazer trabalho de arte. Mas aqui perto tinha mata que deixei de cortar a madeira verde porque é proibido. AÍ, há pouco tempo, trator veio e derrubou tudo. Tanta madeira bonita que deixei de trabalhar e agora está tudo coberto de terra...!

 O senhor concorda com a proibição?

(a princípio, relutante) Não concordo, não. Porque, às vezes, é proibido para uns e para outros não. Todo mundo devia respeitar. Mas eu dou graças a Deus, porque sempre acho a madeira seca. Quando acaba aqui perto, vou buscar longe. Pego até pedaço de pau no meio da rua, e dá um trabalho do jeito que eu quero fazer.