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PALAVRA DA CRÍTICA
Ijalmar Nogueira |
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O artista, por isso, trabalha com códigos particulares, cujo alcance será tão amplo e vigoroso quanto mais ele consiga colocar-se como igual ou único, numa ambivalência que lhe assegure subtrair e partilhar, receber e transmitir valores, experiências, sentimentos e aspirações. Se contemplativo e distanciado nessa sintonia, seu trabalho terá rasa repercussão. Se participativo e envolvente, ele transporá limites no tempo, fincando marcas e se fixando na memória, sobretudo se sua referência for o homem, no reconhecimento iniludível de ser este o centro do processo em que se expõe e do qual é parte. Para estes artistas, o homem é uma equação unidimensional e imponderável, um caso permanente de busca e rejeição, de solução inacabada de harmonia, já que dela faz parte tudo que ele provoca, intui e altera. Para eles, o homem é o fim e o meio, a única referência cabível para a criação em arte. Fora dele, qualquer reflexão lhes parecerá obscura e inútil, já que o observar inclui, necessariamente, a geografia e a realidade em que o processo transcorre. Assim é para Luiz Cruvinel, artista que descende do interior goiano, terra de quietude planetária e isolamento cósmico, onde gravitam a sabedoria de Cora Coralina, o ímpeto demolidor de Siron Franco e o anarquismo poético de Antônio Poteiro. Mas Cruvinel morou em Brasília, a cidade monumento, iluminada e glorificada como realização máxima do trabalho e inteligência dos brasileiros e onde ele veio testemunhar, como estudante de arquitetura, as ebulições políticas que se seguiram aos anos 60. Abandona a arquitetura depois de testá-la como construtor e depois dedica-se à pintura com a qual estabelece um discurso de referência claramente centralizada na figura humana, ela mesma retendo a ligação entre o mundo semi-rural e conservador de Goiás e as aparências e ilusões modernistas de Brasília. Até chegar às formulações com que trabalha atualmente, Cruvinel esgotou o impulso à experimentação e soluções de vanguarda, provavelmente depois de vencer as naturais resistências à aceitação do próprio universo e realidade. Importa-lhe, hoje, que sua pintura aborde os aspectos que mais fortemente se consolidaram dentro dele a partir de uma vivência que não pode nem interessa recusar. Por outro lado, de nada adiantaria expressá-los através de alegorias. A arte, afinal, fornece respostas, ainda que revestidas dos antagonismos de sempre: exaltação e repúdio, reconhecimento e desprezo, diletantismo e engajamento. A essencialidade, esta resvala por insondáveis inquietações e se dissocia, cada vez mais, das motivações íntimas do artista para instalar-se no âmbito da interação. Cruvinel prefere, portanto, por deliberada e decidida reflexão, pintar sobre o que está dentro dele. E essa carga não corresponde a uma conjuntura arrumadinha, a um equilíbrio de valores eqüitativos. Ao contrário, são justamente os desníveis que ditam a descompostura e submetem a ordem de valores, são os desvãos que comprometem e subvertem a harmonia. Eis porque a pintura de Cruvinel anula a luminosidade tão característica de Brasília através de cores de incômoda neutralidade, para com elas enunciar seu assunto: o homem descaracterizado e passivo, sem identidade nem perspectivas, que “aceita” respirar numa atmosfera cinzenta e opressora. Este homem, de um modo ou de outro, tanto somos nós, vulneráveis ao consumo, ao status, silenciosos à sonegação dos direitos, como também o burocrata, o político, o militar, o tecnocrata, todos eles com seus símbolos sacralizados na indumentária que os reduz enquanto seres humanos e potencializa sua capacidade de deixar-se manipular. Na metrópole ou no interior, como demonstra Cruvinel, esse homem é o mesmo. Sua desconcertante problemática idem.
(texto para o livro Artes Plásticas em Brasília) |
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