PALAVRA DA CRÍTICA

Walmir Ayalla
Romano Galeffi
João Evangelista de Andrade Filho
 

   
       
     

Walmir Ayalla


Cruvinel
 


Cruvinel pertence à nova geração de artistas goianos. Mais especialmente, vincula-se à trilha daqueles neofigurativos que movem um elenco de aparições – sombras da realidade humana – a partir de uma visão onírica e jocosa. Neste caminho e na região goiana, temos o pioneirismo de Siron Franco, ao qual Cruvinel adere pesquisando muito de seu que permite hoje confirmar uma presença pessoal. Às suas assombrações aderem texturas que sensibilizam a matéria plástica. Diríamos que a matéria se impregna do sentimento mágico das figuras.

Neste transe, o sonho deformando o real em sua proposição imediata, confere-lhe uma expressão que passa a ser pura linguagem poética. A mitologia pessoal do artista cataloga elementos da história fantástica dos heróis sertanejos dos anjos tortos e figuras grotescas, pertencentes à saga subterrânea dos mutantes. Tristan Tzara, em ensaio de 1934, no qual situa os critérios da poesia surrealista, poderá ser transcrito aqui no que diz respeito à pintura de Cruvinel e seus afins: "o gosto pelos fantasmas, as feitiçarias, o ocultismo, a magia, o vício, o sonho, loucuras, paixões, folclore autêntico ou inventado, mitologia (ou seja, mistificações), utopias sociais e de outra espécie, viagens reais e imaginárias, gêneros de ocasião, maravilhas, aventuras e costumes dos povos selvagens, e em geral seu gosto por tudo que saísse dos rígidos limites em que se havia colocado a beleza para que se identificasse com o espírito”.

Somando a uma absurda visão do mundo um traço de humor crítico, Cruvinel não dissimula a obsessiva relação espacial na qual se debatem seres terríveis. Esta sensação de aprisionamento, de agonia, em outro plano, nos é transmitida sem rodeios, num vocabulário cruel que sugere prelúdios de exorcismo, reflexões cínicas, retratos bárbaros, tudo filtrado num clima de doentio misticismo.

Sente-se ainda uma luta com a habilidade, um alerta da sensibilidade massacrada e participante no choque com a realidade desastrosa que insiste em se mascarar de otimismo, embora assentada na palma de um vulcão revivescente. Este o permanente compromisso do artista, que nada tem a ver com os valores decorativos do mercado superficial, nem com os lances prováveis da balança do investimento material. O investimento aqui diz respeito aos bens do espírito, coloca diante do consumidor – em plano estritamente visual – a matéria amarga da reflexão. Autoriza a identificação do homem com seu lobo interior, e arranca disso um substrato de rara beleza, não convencional mas resistente.

(texto sobre exposição na Galeria Macunaíma – Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, 1978)
 

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Romano Galeffi
UFBA – membro do “Comitê Internacional pour les Études d’Esthetique”


... E este mesmo clima, é, de fato, contextuado de alvores crepusculares, quase revivescências medievais de um romantismo redivivo em que o sonho roça o pesadelo.

... A pintura de Cruvinel parece alimentar-se de uma linfa misteriosa, como reevocadora de um passado remoto de difícil individuação. São características desta espécie de recrudescência as atmosferas sombrias de cujas trevas emergem e tomam luz suas imagens plásticas, quase a testemunhar a presença de um chamado místico a meio caminho entre o “divino” e o “demoníaco”, imagens que – como acabamos de acenar – parecem desvencilhar-se com dificuldade da penumbra de uma atmosfera antelucana.

... Há nas pinturas de Cruvinel algo voluntariamente inacabado, indefinido, algo crepuscular que poderia significar mais que uma escolha definitiva, o pressentimento de um novo rumo a tomar, concomitantemente com uma mais cristalina e radiosa concepção da existência.

(texto sobre a exposição na Galeria Panorama no jornal A Tribuna, Salvador-BA)
 

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João Evangelista de Andrade Filho


L. C. Cruvinel
 


Conhecíamos, de tempos do ginásio, a diferença entre cultura e civilização. Contudo, só há pouco surpreendemos tais noções contrapostas, explicando a incapacidade que têm os artistas da América Latina de retomar, como linguagem e não apenas como sinais de rumo, os dados que as vanguardas fomentaram nos centros hegemônicos1.

Ao invés de seguir representando o papel de receptor que sempre nos coube – até por imposição de uma antropologia política que se apressou em dividir os povos entre criadores e portadores de cultura –, é hora de perguntarmos: não há modo de transpor a fatalidade e, demonstrando a inconsistência dessa barreira ideológica, provar que somos capazes de compor nosso próprio texto?

Recordamos todo o impacto do muralismo mexicano, ou o êxito oficial de Portinari. Não se trata, porém, de criarmos folclore a fim de alimentar o paternal consumidor dos países centrais. Carmem Miranda já desempenhou sua missão e Sérgio Mendes se encarregaria do resto. Tudo bem.

Tampouco se trata de exportarmos, reelaborados pela melhor sensibilidade o perfeito engenho, seja o traço de Le Corbusier, seja cezannismo eternamente disposto à ruminação. Desta última antropofagia de gabinete é possível (por que não?) que tenhamos no Brasil o mais depurado alquimista.

Nem se trata, ainda, de tomar o que resta da arte popular e em cima dela, por artimanhas de laboratório, destilar uma tradução erudita que do peixe perdeu a substância sem ter alcançado tornar-se carne. Apesar da habilidade e graça, tal experiência, que entre nós se chama “armorial”, soa sempre falsa no seu discurso ambivalente.

Se de nada disso se trata, muito menos enfim pode tratar-se de alimentarmos a sede de modernização artística. Porque tal sede é simulacro de modismo e desde que assolou o Brasil, endemicamente após a Bienal de 1951, não há disfarce que possa encobrir sua causa: o complexo de inferioridade natural. A vanguarda programada dos cenáculos brasileiros produziu um acúmulo de entulho. Sem ter servido para documentar um autentico afã de contemporaneidade, envelheceu de tal sorte, enquanto resultado adquirido, que, diante dele, os produtos futuristas de Giacomo Balla, por exemplo, guarda o frescor matutino da adolescência. Sobrou-nos pressa e faltou-nos paciência para a remoção da maquilagem. Talvez porque a pintura nos lisonjeasse a vaidade ou, quem sabe, porque já confundíamos rosto e disfarce, alheios à realidade.

A realidade artística, no entanto, existe, na medida em que existe uma realidade histórica latino-americana. A reportagem de Eduardo Galeano, o romance de Manuel Puig, a voz de Mercedes Sosa, os depoimentos da operária boliviana Domitila de Chungara, tudo isso desvenda a nossa verdade. Às vezes de modo direto, sem os esoterismos da transfiguração simbólica; outras vezes de modo mais difuso e sutil, mas não menos penetrante. E o desenho de Cuevas, este, resolve os abismos da condição de ser latino-americano.

No Brasil, a genealogia da verdade remonta a Oswaldo Goeldi e se entronca em Marcelo Grassmann, cuja obra inteiriça não tem da crítica sacramentada a valoração que merece. Por sorte nossa, essa verdade veio florescer nos galhos ressequidos do interior, longe dos centros metropolitanos tradicionais. João Câmara no Nordeste, Humberto Espíndola em Mato Grosso, Douglas Marques de Sá, Siron Franco e Luiz Carlos Cruvinel no Planalto Central são florações absolutamente típicas.

Há diferenças e semelhanças entre os pintores citados. A um ou dois dentre eles quem sabe não fosse descabido o apelativo “caboclo”, pelo resíduo interiorano que é parte de sua pintura. Mas é evidente que a circunstância aludida está longe de exaurir o sentido de uma produção que, a nosso ver, tem importância maior: a de reconquistar, para nós, um tempo e um espaço próprios na perspectiva da “lonjura” que, embora subjacente, sobrevive ao encolhimento tecnológico das distâncias e demoras.

Sem anedotismo, sem tradicionalismo, sem armorialismo, sem novaiorquismo, numa linguagem requintada, o nosso tempo e o nosso espaço recomparecem: tempo e espaço da nação oprimida. Então percebemos como é fútil dizer que a pintura não tem mais razão de existir e que o renascimento (incluído nele o modernismo) já lhe esgotara todas as potencialidades. Como se os mundos que a pintura inventa fossem tirados do nada, e como se a história, que alimenta a criação, fosse um tecido inerte.

Pertencendo à pequena burguesia, de origem semi-rural, nascido numa pequena cidade de Goiás, Luiz Carlos Cruvinel torna-se aluno da Universidade de Brasília e passa a integrar a geração estudantil dos anos 60. Como representante dessa fração de classe, sofre a mutilação que lhe impôs o regime político brasileiro. Torna-se arquiteto construtor e depois abandona a profissão para dedicar-se à pintura.

Que nos revela, para usarmos uma noção de Nicos Hadjinicolaou, a sua “ideologia de imagem”?

A combinação específica de elementos formais e temáticos, em suas telas, exprime uma empatia fundamental com o homem triplamente oprimido: oprimido pelo mundo econômico, oprimido pela sociedade tecnológico-consumista e oprimido pelo poder. Assim, o modo pelo qual os homens vivem suas relações com as condições de existência vem sugerido, no sistema de signos que emprega, não pela aceitação cômoda mas como questionamento. Ácida crítica de uma série de comportamentos que “põem” o homem numa sociedade que o sufoca. Optando pela brecha da consciência e não pela função de mediador iluminado, ao lado de Siron, Espíndola ou Marques Sá, Cruvinel evitou toda sorte de modismos e, antes de tudo, a armadilha da “nova figuração” internacional. Se alguma referência devesse ser lembrada, os nomes de Cuevas e Francis Bacon surgiram, não como apoio, mas como identificação de alguns interesses. Muito de longe, quem sabe, Francisco Corzas.

A figura humana é o centro da preocupação de Cruvinel, porque o homem esvaziado pelo dever é a vítima e o algoz das violências que a estrutura do capital e do poder secreta como resina venenosa.

Ambientada num cenário que se reduziu às alusões essenciais, disposta num espaço que foi abreviado até o ponto do sufocamento, e comprimida entre padrões curvilíneos que delimitam grandes superfícies monocromas, a figura está isolada, conformada e agredida ao mesmo tempo. Por sua vez, ao criar um jogo ambíguo de fundo-objeto, moldando eventualmente a sombra das cabeças, ou acompanhando os poucos objetos extraídos do ritual tecnológico e os símbolos de status (telefones, poltronas, cartolas e gravatas, estas muitas vezes duplicadas ou triplicadas para reforçar o acúmulo consumista e emblemático ao mesmo tempo), as extensas superfícies de cor (sobretudo brancas) integram o conjunto com exagero de valor plástico, tornando inelutável o clima de incomunicabilidade. Contemplamos um exemplo pictórico, didaticamente cristalino, da fetichização e da inversão marxianas. Fragmenta-se o homem nos seus predicados; desdobram-lhe a efígie das sombras imprevistas: já não lhe resta outro desempenho senão o de espectador. Os olhos são vedados sistematicamente por faixas negras ou por espécies de carapaças brancas, inquietantes como cérebros plastificados. Ainda assim, eles continuam a nos espreitar lá de dentro, fixando uma liturgia estúpida que regula seu destino de consumidor de visões. Olham sem ver. Por isto mesmo, entretanto, fulminam mais do que as bocas, que são desveladas e intensamente vermelhas, como a dizer palavras de sangue que jamais serão ouvidas.

Cruvinel retrata o oprimido através do retrato do opressor. Nessa visão denunciadora em que se verifica (verum facere) a importância do homem em tornar-se sujeito, por mais senhor que se julgue (algumas personagens dão a impressão de ser coroadas), acentua-se o império automático da maquinaria: o automóvel, o telefone, a câmara fotográfica, símbolo permanente em seus quadros. Carrega-se a sordidez, por antítese e ironia, mediante uma forma límpida, extremada no bom gosto, e tecnicamente asséptica em sua textura muito fina. Cada coisa no seu lugar, o tom casando com o tom, o enquadramento irretocável, ainda que não matemático. Através do pintor ressurge o arquiteto.

Já se tem usado o inconsciente coletivo para comentar a pintura de doentes mentais e de artistas naifs, embora jamais um historiador sério se tivesse lembrado de explicar uma obra figurativa “erudita” pela indagação dos arquétipos. Isto se justifica pelo receio ao psicologismo, o que é salutar numa história de arte tradicionalmente esquecida das lutas de classe. No entanto, se o inconsciente é a condensação do historicamente promédio, “sendo mais comum a todas as pessoas do que os conteúdos da consciência individual”, não vejo por que não examinar, também sob esse aspecto, a obra de artistas como Espíndola, Marques de Sá, Siron ou Cruvinel, que possuem em comum, por exemplo, a capacidade de verter o sórdido pelo limpo ou de animalizar, cada um a seu modo, as personagens humanas. Era preciso encontrar um modo, ainda não disponível, de conciliar Jung com Marx...

Seja como for, no caso de Cruvinel, a mistura instigante do cartesianismo da forma com o impacto do conteúdo tem já suficiente interesse. Isso ressalta na expressão dos signos simbólicos de conotação social: o verde-oliva alude ao fardamento do exército, o que não exige maiores elucidações num país em que o estamento militar detém o poder decisório. A construção monumental lembra o futuro “metafísico” de uma nação que pode em breve ser potência mundial, mas não está ao abrigo de submergir no desastre econômico, consentida vítima das multinacionais rapinadoras e de dívidas insuperáveis. A duplicação (germinação?) das cabeças, vistas de frente e de perfil, nada tem a ver com o cubismo, interessado este em restituir os aspectos fundamentais do objeto através de uma análise ou de uma síntese essencialistas. Na pintura de Cruvinel, a imagem deslocada funciona como registro do alter ego, presença de contradições; das opressões entre boa e má consciência, dos álibis e de todas as dualidades que formam o universo agônico do homem. Os cortes não correspondem de modo algum à técnica dos anúncios comerciais, mas lembram dolorosamente a castração política de sua geração. E há tantas coisas mais: o envelope sem selo, destinatário ou remetente; a lente teleobjetiva, o jogo que não se joga mas está no título dos quadros; o vermelho profético e os negros laqueados...

Quem quiser que veja o que quiser ou puder, de acordo com a sua própria formalização interior, que é direito de cada intérprete. E daí a riqueza dessa proposta tão especial que é a obra criativa. Quanto a nós, o que vemos é o registro não de um destino mas de uma prisão, a prisão dos nossos povos. Nos lençóis brancos de sua inconsciência, brota, entre ranhuras, o sangue dos dominados; expõe-se-lhe o ocre escuro da tez, causticada menos pelo sol dos trópicos ou por improvável miscigenação do que por sua condição de alienados, de inferiorizados, de coisificados, de bestificados. Explode, diabólico, o azul, este sim, azul de um céu que poderia ser promessa de redenção.

1TRABA, Marta. Duas décadas vulneráveis nas artes plásticas latino-americanas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

(texto do catálogo da exposição na Galeria A, da Fundação Cultural do DF, junho, 1981)
 

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