eu que nunca

 

eu que nunca
fui a Porto Alegre
lá conheci 
numa mesa verde
uma mulher
a quem me liguei 
em fundos d'alma
qual insano
parnasiano
é que ela jogava
tão en sério
como se lançasse
a vida 
num duque de copas

soube através
de suas pintas
dos suspiros do seu suor
do gesto do corpo
- próprios de uma anja
de ancas - 
que sofria nas vísceras
porque a pensavam
e a tratavam
como apenas uma
que blefa 
nos lances irrequietos 
da vida

então escrevi-lhe
numa língua
que sacava vagamente
(como se entendem
as imensas bocas 
banguelas
das pedras da rio-bahia)
único meio 
ao meu alcance
de dizer o que 
não poderiam 
três palavras brasileiras

mas seus olhos
como os que percorrem
as páginas dos íntimos
diários
percebiam tudo 
e um pouco mais
e assim folheavam 
o nosso encontro
como quem abre
portas
a precipícios.

 

     

  

 

a boca, essa

 

a boca, essa
conduto da sua fala
do seu canto
da ingestão do precioso
alimento
por onde você arfa
beija, suga
mexe e faz mexer

a boca, essa
por onde você puxa
o puro ar e o fumo diverso
sorve a água e os álcoois
come a sua e a comida dos deuses
percebe as ervas, os azeites e o alho
cocegueia os filhos e a amante

a boca, essa
com que você xinga 
também!
Através dela, em vômitos
devolve o que lhe fere
as vísceras e a alma.
Nada mais restando,
a dignidade de Spártacus
feito preso
é restituída pelo denso
e preciso cuspe na cara!
do desprezível general romano.

A boca, essa
dos sussurros
dos acalantos
das doces palavras
das cantigas e sambas de roda
das boas estórias dos nossos
amigos & amigas
irmão & irmãs
pais & mães
dos nossos avós, bisavós...
que são as nossas histórias.

A boca, essa
que as mulheres sensíveis
enfeitam
com ainda mais cores
te dará um céu, meu bem
e uma língua também!
A mesma boa língua
dos voluteios noturnos
está na boca, essa.

A boca está em todas as bocas!

 

  

 

Zeca é baiano e mais não conta.

zzecca@hotmail.com