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Ajoelha-se em mim mais um poente,
encurva-se o horizonte -
... d'além ressoam todos os meus sonhos.
*
Dói a dor de um poema
palavras sopradas
nuvens sem portas
dói um poema em mim
e cala.
Se soubesses
(poemador)
palavras ainda choram...
*
Dolorimento
de sol
punhalada
de lua
quem sangra de dor
é o vento
Silêncio é quem chora a noite
alquebrado de destino
acabrunhado de amor.
Lanceada de ternura,
reviro o pranto da lua
na frágua
do sol-se-pôr.
*
E eu grito sempre que penso
um brado no meu descanso -
o poeta no remanso
dispensa a rima vadia
o canto intenso
que eu lanço
é sombra de poesia.
*
Na ampulheta,
o passo aprisionado do silêncio.
Em clepsidra,
a idade dos meus olhos.
Sem sol,
as horas sem teu nome,
e as sombras
que se alongam
e se alongam
e tocam a tua sombra no horizonte.
*
Tua silhueta sem luar
e teus cabelos que não vi
guardam delírios azuis
e neles será o jazigo
das palavras.
*
Vives em mim como o mar
que habita o vazio da concha. * O meu pesar é essa máscara
que tanto à alma está unida
e tão feita de luares
que não sinto poder saber um dia
que face delicada tem o sonho
e qual a cara real da minha vida... * De que me importam
os anos em cortejo,
números desfiados,
nova era
se as palavras
jazem sem leitura?
Que me importa o riso
e a dança da chuva
se o destino sangra
no meu canto?
Que me importa
a revisão dos mundos,
se o meu mundo
foi cortado ao meio? * Malgastando orvalhos,
estas mãos tão secas
soltam a saudade -
e ela se vai,
malentendida...
Disperdi o meu passado
em lágrimas da noite,
ora dissolvo as palavras
em mais nada.
Dissaborida vida
em debandada
de prantos,
dissente o céu poente
do meu verso
disperso. * O canto de alma
torna-me poeta.
Não há número contado
quando o metro meço
no verso a mão em par.
Escando o tremor do corpo
as sílabas dos lábios
o sibilar da ausência
(plena e tua n'alma
desnuda em tempo)
e rimo-te em quando
No apagar da rima
o feminino do silêncio
inda resiste
no infinito
verbo
de te amar. * O beija-flor na gaveta entre relógios antigos.
Sangra o vôo o céu de lado a lado.
A vida, uma palavra nos teus lábios,
e tua face: tempo que reflete
o meu espelho de asas no olhar. * Com mãos brancas
tomo o poema ainda fogo
e pinto o perfume azul
da flor de outrora
na louça de meus versos.
Com lábios aqueço o lume
quase névoa de teu rumo.
Esqueço apenas de velar
a alma acesa dos olhos escritos. * Desatam de meus olhos, a linha d'água,
o horizonte,
os riscos, sulcos, rugas desta fronte,
a mágoa de um tempo sem passado,
o traço, o toque, o riso de um amado...
e um rio sem foz,
e um rio sem fonte. * Somos novos; nunca havíamos
existido na face da noite.
Intemporal, um anjo d'água
chama-nos o nome.
E, no outubro de sua tristeza,
escorremos líquidos... * Mas eu prefiro o crescente pálido mal refeito
de uma lua cabocla,
e nesta margem,
... apenas o som cavo do luar. |