sacrilégios da temática

 

 

Deve ser o beijo que não houve
Deve ser a gota que não caiu
Para a redenção celeste do pecado.

Deve ser o amor que se esqueceu de parar
Deve ser o lápis que não encontro
Em cima da mesa, destes tantos papéis.
Deve ser a luz que permanece acessa 
Deve ser qualquer lugar onde não estive
E que olvido ainda me aguarda.
Deve ser o desfeche desta farsa
Deve ser um disparate maligno 
Que na garganta incendeia.
Deve ser só mais um gole de cachaça 
Deve ser o tédio que soprou atônito
Desvencilhando seu mal e seu cansaço.

Deve ser o ônibus que perdi 
Deve ser esta chuva que não passa
Deixando úmido o casal apressado .
Deve ser um suspiro encenado na hora errada
Deve ser o encontro que não aconteceu
Naquele hora naquele dia e naquele local.
Deve ser apenas um pequeno desentendimento
Deve ser um lapso de memória 
Donde flora um descaso impiedoso.
Deve ser o último passageiro que embarca
Deve ser a gaveta entulhada de apetrechos
Calcinhas meias e uma porção de besteiras.
Deve ser o tombo que levei no fim da tarde
Deve ser o mal que encerra sob as nuvens 
Nesta noite de luto que se finda.
Deve ser o gole de cerveja que não fez bem
Deve ser as tantas esperas defronte à janela
Um ronco barulhento, um nome a chamar.
Deve ser o amor que nos deixou
Nas noites frias ele sempre se vai...

Deve ser o assoalho mal encerado
Deve ser uma outra briga banal
Por razões insólitas e embriagueses.
Deve ser você que não vi passar 

Deve ser o amor que pela janela fugiu
Deve ser alguém que se cansou de esperar,
Pois há sempre um momento em que se cansa.

Mas o amor está tão triste, maltratado demais.
E não quer falar sobre isto
Não quer falar sobre nada e não há mistério nisto.

Deve ser a palidez de um cortesão
Deve ser um nome como tantos outros
Que como tantos outros é só mais um nome.

Porque o nome de quem se ama
Depois que se ama 
É só mais um nome como tantos outros
Estampado na necrologia de um jornal qualquer.

Deve ser a madrugada que a passos lentos segue
Deve ser um sussurro sorrateiro no quintal
Um medo pungente de querer-te bem.
Deve ser só um jogo insensato de palavras
Deve ser o fato de não saber o que se fala
Uma poesia sem temática
Um disparate que nunca sara.

     

  Rastro
 

 


Você,
é tudo. 
Ou Quase. Quase tudo. 
As vezes 
De tão quase
Já é nada,
Ou quase nada. 
É o pensamento intruso 
invadindo a tarefa
O sono conturbado
por um sonho triste
E o despertar alegre 
de um sonho tolo. 
É a falta numa ausência concreta
E a presença numa esperança remota. 
É o sorriso espontâneo
Num encontro casual.
O erro que se quer errar. 
É o fim de tarde 
De uma Sexta-feira chuvosa
E a manhã cálida 
De um Domingo triste. 
Você é.
E além do ser,
Desponta vertendo
sobre o verbo estar. 
E está na ponta do cigarro no cinzeiro
No isqueiro - presente simples 
jogado fora. 
No telefone que não toca
Nos caminhos,
Onde já não se encontra.

E está no asco, 
No medo e na mão que não estendeu.
Está em tudo que deixa rastro
E tudo deixa um rastro
Como um objeto esquecido.
Como o rastro gasto 
De teu perfume barato
O rastro abstrato 
De um apelo incompleto
E o rastro concreto 
De um equívoco sem nome.

 

 

Leticia Maria de Oliveira
Nasci na cidade de Palmital (Oeste Paulista) no dia 06/11/1978, por volta das três horas da manhã de uma segunda-feira chuvosa. Após dezessete exaustivos anos, mudei-me para São Carlos onde me formei em física no ano de 1999, pela Universidade Federal. Concluído o curso, iniciei minha pós-graduação nessa mesma instituição.

leticia@df.ufscar.br