Lira

 

Não sei o quanto anda meu íntimo,
Mas de torpor vou em frente sem parar qualquer instante.
Morra então a paranóia quando no haurir pujante se enlear minha acesa saliva com o rubro válido e amigo,
Morra o temor na coluna de nuvens azuis.
Morram os olhos azuis gélidos dela; minha esclerótica na cor da paixão. Assim eu anelo.
Morra tudo então. Se a revolta domina o espírito DANE-SE a deformação perpétua
de uma vida árdua. Glória à ira que é o que resta.
E se o cérebro já se perdeu, e não apenas o cérebro,
Haverá substituto melhor que o vinho? Jamais. Santo lorde. 
Não sou filho de ninguém para redigir algo sublime, algo engajado, Talvez nem ainda tenha nascido... oh do rubro copo o torpor, oh estro magnífico que és, oh delírios perseguidos que assumem a vez d'outros.
Sujo e desarmônico, tosco e impuro é o páramo onde vivo ou assisto, é assim o lençol, é assim o leito, o chão, a janela... quem do dia trabalhoso me concerta.
E saio puro além de tudo, só puro, mas vejo o charco em que me enveredo.
Sou insano e me dizem por calçar botas grossas e negras e pisar firmemente.
Malditos. Sim, é por revolta, por ira que o mundo caminha, meu vizinho é um desses, ó homérico inimigo, ó grande atalaia armado do ferro pobre que mata minha alma errante, sim errante porque ando, ando nos sonhos, ando na vida, mas tal é quem me constrange e correm.
Vejo pernas, vejo nádegas ao redor bulindo feito convulsas vagas, morenas, pálidas, macilentas impudentes, todos os tipos delas, somente vejo, mas não mente a mente que sente e deseja. Pois se assente minha estridente que meu grito te cerra por tão altivo e vir da minha pura raça, pura raça, meu demônio.

Ó palavras que são minhas tão relevantes, tão simples, tão perdidas e escassas ora não há mais delas, são singulares novamente. E eu sou importante, Deus está de prova, mas não enterro seus cadáveres podres de vermes esfaimados, não sou coveiro num cemitério esquecido, sou um homem puro e paranóico, mas DANE-SE. Figuro em alto e bom som o que deveria ser a humanidade, ou o caráter humano, denuncio a vaidade, pecado do deus do inferno, seu predileto escarro depois de lésbicas loiras e melindrosas e a hipocrisia que junge tudo que é de ruim, isso gira teu mundo e isso basta? é podre o solo e nula minha revolta mas basta, está tudo em ambos para ti.
Só, só, só, só, somente, apenas, DANE-SE, DANE-SE, DANE-SE, mais palavras raras... palavras amiude usadas, por mim claro, ah me dão asas mais imaculadas que as neves dos montes intocáveis, que não se rompem na aresta dos telhados... sim... sim. É de tudo o que eu preciso só e DANE-SE. DANE-Se que não sei a hora, pois a hora é a derradeira descoberta, DANE-SE isto também.
Estou extenuado, co'o sangue limpo acordo todos os dias de ressaca; talvez do ar.
Mas sigo deslizando no charco terreno e vou longe e largo mais do que me concede a hora, a subjugarei e a regurgitarei e a devorarei novamente, pois sou um forte sem da gente guerreira descender, sem ser filho do norte, sem nas tribos tupi crescer. Santo Dias, pena, não faz parte da família.
Bem, que me guie o torpor nas suas colunas azuis milagrosas então, que foi-se o cérebro já em uma noite de acoites há tempo. DANE-SE é só.

     

 

 

  Abandono
 

Em um lago de ambrosia densa e eterna
Vi se banharem as três graças;
Tália sorria tão irrequieta,
Aglaia dava à boca a fartura doce tal qual a macilenta cria a mama acerta,
Eufrosina adormentada boiava da ledice antiga a se recuperar, tão lerda.

Vi de longe a ígnea carruagem inerte de lado,
A redigir altivos materiais o condutor de torso forte e áureo.
Atormentado, também vi, só Morfeu no leito
Vivendo um pesadelo raro.
Em cândida nuvem de lã vi descalço o ás da ligeireza
A entreter-se em um compêndio literário,
Sem pressa.
Vi fria a forja homérica e ele contando as rosas dispnéico
E Atenas desposar a guerra em cerimonial solene.
O senhor mor de mãos livres apressado os portões do monte presenciei perenemente cerrar, contudo não divisei o tétrico ente já de tanto caminhar extenuado.

Em um denso lago amplo de imundice
Vi se banhar a raça humana,
Meia metade sofria irrequieta,
Outros davam à boca a cloaca por fome intensa...
Negrume amplo na terra sem dono.
Nunca dormiam, jamais morriam... só à deriva boiavam
Da ledice antiga a lembrar, na merda.

 

 

 

  Em um Jardim
   

Em um jardim de esmeraldina mata
A bonina viceja em ampla alvura;
Cresce isenta de espinhos, vai e não muda,
O que se alastra vendo, sempre atada.

Pena dura, p'los zéfiros, diária,
De água farto manar do céu escura,
Mais do cárcere alteram a figura
Incutindo na mente a foice cálida.

Onde está à condenada a luz amiga
Que prometiam no horto da alegria.
Falso fértil vergel, grande mentira.

E ao último findar de sua vida,
Há de dela brotar nova bonina
A ver o céu buscando a luz divina.

 

 

 

Nascimento
   

Nasci... hoje nasci para a existência
De olhos esbugalhados e tão mudo.
Da grande humilhação fui eu filho único,
Filho bastardo fui da ira e sem crença.

Hei de ser dissimular, porém, p'la senda,
Hei de ser um vaidoso, um bem taludo...
Monocromático serei ao mundo;
Nasci... hoje nasci para a existência.

Aparto-me de ti lar ora antigo,
Perdão família triste e que o destino
Meu não adotem, pois a alma cá altera-se.

É mister crer na vida sem a dor...
Creio na crença antiga e nesse amor,
Creio nas gentes, só p'lo olhar que vela-me.

 

 

Renato Ferreira
Nascido em 1982. Estudante de administração, reside atualmente na cidade de Jaú e crê que a poesia jamais pode ser engajada. Tem Álvares de Azevedo como grande ídolo.

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