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Meu ser é tudo
mas não passa de uma aparência
porque eu homem
sou apenas um veículo
deixando surgir o que há dentro de mim
e que a todo momento está mudando.
Ninguém consegue me pegar
e se alguém pensa que me soube
por aquilo que viu,
já estou de outra maneira.
Não que eu seja outro,
mas sou outra forma de aparecer
que não depende de mim.
Depende de algo que é
minha essência
e que não tenho nenhum controle
sobre ela
ou apenas tenho como possibilidade
reprimi-la ou disfarçá-la
no seu desejo de se manifestar.
Assim sou eu, isso bem sei,
mesmo que eu não possa
explicar
mesmo que eu não tenha
como provar
porque o que eu sou
é o meu próprio ser que está estando
e por detrás de tudo aquilo
que manifesto
que crio
ele se faz aparecer.
Porque o meu ser não é o que se vê.
O meu ser é aquele que provoca
e faz surgir
tudo isso que faço
e que pareço ser.
Assim sou eu te amar
e meu amor não é o meu beijo
e meu amor não é o meu carinho
mas o meu amor está
no meu beijo e no meu carinho.
Por isso, não há como pegá-lo
não há como nomeá-lo.
Só é possível senti-lo
mesmo que muitas das vezes
ele se disfarce de angústia
mesmo que na maioria das vezes
ele se expresse no silêncio
porque o amor é ser
e sobrevive também daquilo
que ainda não foi vivido
e que se faz necessário
ser buscado
porque ele não se identifica
com nenhum modelo pronto
acabado e morto,
porque ele não é nomeado.
Nomeia-se o gesto
onde pode estar contido esse ser amor
mas ele é como um moleque travesso
que num momento se mostra ser
através de uma careta,
noutro, por uma jura secreta
e, ainda, no prazer de uma travessura
porque o ser é liberdade
de se mostrar sempre
e de maneiras diversas
e até certo ponto
contraditórias
pois o amor traz em si mesmo
o ódio
não o ódio da antítese dialética
mas o ódio que é um elemento
da mesma relação
para que se possa distinguir
entre o ser e o não-ser
(ou talvez ser e não-ser
ao mesmo tempo).
Não como uma hierarquia
ou sobreposição,
mas para o entendimento
de que ser uma coisa
é não ser outra
é não ser uma mentira
absoluta. |
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