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Se desde os antigos gregos o termo Sophia significa Sabedoria, aqui em nosso país isso não parece ter muito valor por parte dos governantes, pois o "Governo" veta projeto (PL nº 9/00) de autoria do deputado federal Padre Roque (PT-RS) que inclui a disciplina de filosofia, bem como a de sociologia, no ensino médio. Estupidez ou descaramento? Tampouco o sabemos.
É claro que a palavra filosofia, à primeira vista, não inspira muita confiança no senso comum idiotizado pela mentalidade utilitarista de uma sociedade que prepara os seus cidadãos como um gado engordado para o corte nas mãos do magarefe. Nossa educação em geral impõe aos estudantes perpassar a escola, não para um processo de aprendizado no que diz respeito a sua vida, aos seus problemas e aos problemas do mundo como um todo na formação de sua identidade e de sua autonomia, mas para atravessarem uma grande parte de sua existência regulados e submissos a duas preposições: na primeira, a escola consiste num mecanismo que serve apenas de obstáculo a ser cumprido para que os supostos "vencedores" recebam um atestado e sejam autorizados a exercerem determinadas funções mediante um diploma de graduação; na segunda, a escola passa a ser um regulador, através da qual a minoria dominante doutrina o indivíduo para a perda de sua individualidade, ou seja, ele é moldado para que - caso consiga "superar" a primeira - esteja apto a exercer suas funções de forma que em nada possa interferir no sistema. O estudante tem sido adestrado de maneira que tudo permaneça tal como é, além de estar convencido de que o lugar que agora ocupa ou que porventura venha a ocupar no deificado mercado - independente das armas utilizadas na competição - se dá por puro merecimento.
Considerando o "salve-se quem puder" ou o famoso laissez-faire, o cidadão submete-se a esse mercado que o espera de braços abertos para dar continuidade ao processo de dominação onde a chamada competência é medida pela possibilidade do lucro de alguns, em detrimento da exclusão e da desumanização de outros.
Faz-se necessário esclarecer que a filosofia não se trata de um conhecimento em si mesma, mas de um processo de. A filosofia é uma ferramenta, um instrumento para a organização do conhecimento, das idéias e, enfim, do pensamento. Mas a filosofia não é um pensamento qualquer. Ela é uma reflexão que possibilita a transcendência humana, a capacidade que somente o homem tem de superar a sua imanência (situação dada e não escolhida). É pela transcendência que o homem surge como um ser de projeto, capaz de romper com a situação dada, capaz de construir o seu destino e, conseqüentemente, capaz de liberdade. Daí, a necessidade da reflexão filosófica ser radical, rigorosa e de conjunto. A radicalidade da filosofia se dá, não conforme os "meio-termistas" que - por impotência de argumentação - pervertem seu significado, mas radical na medida em que uma questão é apreendida a partir de suas raízes, de seus fundamentos, suas bases. Quanto ao rigor, este se faz necessário, não de acordo com as imposições dos autoritários, mas rigorosa no sentido de se nortear segundo métodos determinados e capazes de colocar em questão as conclusões da sabedoria popular equilibradas com as generalizações que possam advir das pretensões das ciências que, ultimamente, andam de mãos dadas com o neo-positivismo globalizante.
E, enfim, no que diz respeito a sua característica de conjunto, este não se dá como na conivência de grupos políticos e econômicos em prol de uma hegemonia falsificada, mas numa perspectiva de conjunto onde os aspectos particulares perdem suas parcialidades para se situarem - a partir de suas relações - aos demais aspectos do contexto como um todo ao qual está inserido.
Estarrecedor, muito mais que hilariante, é sabermos que "nossos" políticos em geral - sempre quando não têm projetos estruturais para a sociedade, e desde as campanhas - enchem suas bocas ao pronunciarem "ética", "democracia", "cidadania" etc., adequando e/ou forjando seus significados aos interesses de uma minoria dominante.
Por conveniência ou por ignorância em não saber que se tratam de categorias filosóficas, atribuem-lhes um juízo de realidade, um pouco viciados pela idéia que o senso comum faz da ciência (política ou não). Mas - para a filosofia - tais categorias são tratadas como juízos de valor que, por sua vez, atentam para a etimologia do vocábulo grego correspondente à verdade (a-létheia). No entanto, a verdade na filosofia não se trata de algo pronto e acabado, ou seja, significa pôr a nu aquilo que estava escondido, sua ação é o desvelamento do que está encoberto pelo costume, pelo convencional, pelo poder = trata-se de um incessante "desnudar" (a-letheúein).
Como podemos observar, a filosofia torna-se uma ameaça para os políticos profissionais, pois estes preferem tratar os termos filosóficos como ética, democracia, cidadania e outros - conforme interesses quase nunca dignos de suas condições "representativas". Mas - independente de não serem amantes da Sophia (ou filósofos do ponto de vista da pesquisa ontológica) - tais políticos se socorrem da filosofia no que diz respeito aos elementos mais desprezíveis da lógica clássica: as falácias. É dizer que se utilizam de "argumentações" que visam enganar o interlocutor desatento ao raciocínio.
Todos os dias, em todos os jornais e noticiários, temos a abominável oportunidade de depararmo-nos com pronunciamentos de políticos em pleno exercício dessas falácias. Sem a menor necessidade de citar exemplos, considerando a existência destes em qualquer jornal, podemos mencionar apenas situações onde se pode conferir algumas das falácias das quais os políticos fazem uso. Em virtude de serem muitas as "falácias de relevância", bem como, ainda existirem as "falácias gramaticais", nos limitaremos em apenas quatro aspectos das mesmas, embora os outros não sejam de menor importância e disparate. Seriam mesmo os nossos políticos amantes da lógica, por intermédio das falácias? Bem, vamos conferir! Falácia ad hominem ofensivo (contra o homem): trata-se de um contra-discurso, ou seja, algo em que - determinada figura - ao ser denunciada de alguma corrupção, investe mais na exposição da conduta moral do sujeito denunciante do que no esclarecimento da verdade do objeto da denúncia; falácia ad baculum (por recurso à força): quando fazem menção ao uso da força ou da violência, ou simplesmente declaram a existência de um poder de força para impor a aceitação de determinada conclusão; falácia ad populum (apelo ao povo): se caracteriza pelo aforisma "a voz do povo é a voz de Deus", onde se aproveitam dos hábitos e costumes do povo para provocar a concordância com determinada "conclusão"; falácia ad verecundian (apelo à autoridade): ocorre no discurso defendido como verdadeiro pelo simples fato de ter sido proferido por uma "autoridade" constituída (não entrando no mérito da forma e/ou dos meios pelos quais se constituiu essa autoridade).
Resta-nos uma questão! Será que os políticos apregoam o "fim" da filosofia no ensino médio simples e inocentemente por não entenderem o quão benéfico significa para o povo ter a filosofia como um instrumental para a compreensão do mundo, assim como, uma possibilidade de participar e definir ativamente os rumos de sua vida? Ou será que os políticos querem o "fim" da filosofia (antes mesmo de ter sido realmente implantada) por compreenderem o quanto seria perigoso governar tentando dominar um povo capaz de discutir-se a si mesmo e a realidade em função de um projeto social participativo?
Creio que se faz urgente e necessário garantir o ensino da filosofia no ensino médio e, aliás, implantada desde o jardim de infância, considerando que os dirigentes de "nossa" sociedade de sócios majoritários, queiram ou não, se utilizam (apesar de fazê-lo erroneamente) daquilo que deveria ser de domínio público: a reflexão sobre a realidade.
Não é por acaso que Heráclito de Éfeso (cerca de 540 a 470 antes de nossa era) conseguiu ter seu pensamento contrariado pelos nossos políticos, pois - enquanto este dizia que um homem não pode se banhar duas vezes num mesmo rio, considerando que, da segunda vez, o homem não seria mais o mesmo e as águas já seriam outras - nos tempos que correm, os mesmos políticos insistem demonstrar a possibilidade de se banharem, por mais de dois mandatos, nas mesmas águas da impunidade.
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