| I
"Mas o passado não tem remédio, e só pode servir de espelho para o futuro. (...) Desenganemo-nos, pois, que para os mortos não há vivos. Todos morrem com quem morre." Padre Antonio Vieira.
"Amor e medo do mundo se mesclam à sensibilidade ao mistério. Seguramente uma alma barroca nunca passará indiferente, de noite, por um recolhido e frio cemitério. Talvez, neste momento, em algum recanto da Galiza esteja morrendo um ancião que leva consigo para a tumba o eco longínquo de uma lenda, ou um caudal de palavras sonoras e expressivas, que já ninguém fará conhecer entre os vivos. (...) Não há coisas velhas nem novas, há apenas coisas vivas e mortas, e não as determina a idade mas o sopro interior que as anima. Nós não podemos resistir ao apelo das longas noites que se aproximam." Ramón Otero Pedrayo. "Prólogo ao Ensaio sobre a Cultura Galega", Lisboa, Guimarães Editores, 1954.
Os etnógrafos seguem sem se enganar o tecer arqueogenealógico da teia de aranha da tradição. Não se inventam tradições, só os subterfúgios e os escamoteios da história oficial. (...) Voltou a brilhar um rosicler de auroras sobre o mar de Amadis e do apóstolo Santiago. O ar puro que sopra dos granitos galegos areja a intimidade das igrejinhas românicas do noroeste hispânico. Desenha-se e esculpe-se, com o correr dos tempos e pela carícia apaixonada das chuvas, um fogo sólido em pedra, envolto em vento, ondas aneladas de sereias e um sol Atlântico, ocidental, de Finisterra.
"A cultura galega já estava formada quando a terra se curva sob o vôo das águias romanas. O geopônico Columela assinala num monte da Hispânia próximo do oceano Ocidental a célebre lenda das éguas fecundadas pelo vento, paralela à da origem dos cavalos persas." Ramón Otero Pedrayo in: op.cit.
A confederação cultural celta fez com que se engendrasse uma identidade múltipla que levava a Irlanda, a Cornualha, Gales, Bretanha e Galiza a saudarem-se como Irmãs Oceânicas. Cada castro é a fortaleza de um clã, como cada igreja é o santuário de uma paróquia. À volta do castro não surge a cidade mas um conjunto disperso de aldeias de que ele é a atalaia, a defesa e o símbolo. A conquista romana, mais do que o mar, separou a Galiza das outras comunidades culturais célticas irlandesas, bretãs, de Gales e da Cornuália.
"O impetuoso vento norte e atlântico vibra na palidez extática e lunar do
abedul, árvore de alma e nome céltico, amiga das águas fugitivas e da solidão dos ermos cruzados por asas augurais." Ramón Otero Pedrayo, op.cit.
Na sua vastidão pluri-étnica, no reconhecimento das progressivas e múltiplas irreversibilidades históricas, na existência de um Direito comum a todos (Jus Civile) e, concomitantemente, no direito à identidade local (codificado no Jus Gentis Suae), assim como no seu antigo politeísmo pré-cristão, a expansão do Império Romano, por uma das primeiras vezes na História Ocidental, tornou pensável o tema da identidade múltipla, plural, inclusiva e abrangente. Depois do mundo romano, na Idade Média, "o homem devia lealdade a um poder local ou nacional, representado pelo suserano ou pelo rei, e a um poder supranacional, o papado." (Cf. in: Rouanet, Sérgio Paulo. "Saudades de Roma", Folha de S.Paulo, caderno Mais, p. 15-16, 10 de junho de 2001.) Além dos poderes feudais locais e supranacionais do papado, o Medievo cristão tinha os seus interesses e olhares divididos entre várias regiões e cidades sagradas ou atraentes. É o que depreendemos da citação de um fragmento de um dos volumes dos "Sermões" do padre Antonio Vieira:
"Tomai a Bula da Santa Cruzada, e sem sair de Lisboa fostes a Compostella, fostes a Roma, fostes a Jerusalém por que as graças que lá havíeis de ir buscar, aqui se vos concedem, não diversas, nem menores, senão as mesmas. Querei-las alcançar logo? Visitai cinco igrejas. Quereis mais logo? Visitai na mesma igreja cinco altares. Quereis mais logo? Visitai o mesmo altar cinco vezes; e sem vos bulir de um lugar, fostes a Galiza, fostes a Itália, fostes a Palestina, e vos achais rico de todos os tesouros de graças que tão longe se vão buscar com tanto trabalho." "Sermões" vol. XIV, Porto, Lello Editores.
Também na Idade Média a Europa se dividia entre tradições pagãs pré-românicas, invasões e conquistas muçulmanas, a presença judaica e a vizinhança periférica ortodoxa.
No mundo moderno, "o desejo faústico não pode discutir-se e reveste uma poderosa realidade comparado com o idealismo oriental ou o pragmatismo chinês. Mas não basta isto para sentir o correr do sangue histórico, da carne das culturas. (...) Pensamos nos povos como seres que vivem com a esperança da terra prometida. Projetam no futuro uma vida ideal, a Jerusalém celeste, a cidade de Deus que cada um sonha e espera e toda existência histórica se reduz a uma série de avanços e recuos neste caminho.Os povos que careçam de tão íntima necessidade, de tal prazer e também de tão ardente dor (ardência não significa profundeza), podem ter uma colorida superfície na história, mas carecem no mundo de irradiação própria." Ramón Otero Pedrayo, em obra já citada.
O poeta estadunidense Thomas Stearns Eliot (1888 / 1965) desconhecia, em todo o mundo, sequer uma cultura sem buscas e simbologias religiosas. No entanto, os Estados Unidos e provavelmente o Brasil abandonam aceleradamente suas tradições e, nas lacunas que ficaram após estes históricos descartes, colocaram estéreis consumismos, violências esportivas e barbáricas brincadeiras. Trocaram imediatamente a palavra pela imagem, a alma pelas protuberâncias corporais, a elegância pela grosseria, a prodigalidade barroca pelas ambições pós-modernas.
O obscurantismo contemporâneo e as sombras que nos ocultam o futuro nos induzem a nostalgias dilacerantes, mas infrutíferas. Reajamos!...
II
A história da unificação política do Egito provavelmente influenciou ou suscitou o monoteísmo hebraico. Os católicos até há pouco cantavam em suas procissões: "Queremos Deus, que é o nosso Pai!... Queremos Deus que é o nosso Rei!..." Do monoteísmo hebraico aos Estados Nacionais e aos unitarismos e centralismos político-partidários e sindicais do mundo moderno e da contemporaneidade vivemos períodos nos quais se alternavam imposições e imposturas do Uno com a conivência e a convivência com o Múltiplo.
Assistimos nostálgicos crepúsculos de cultos antigos. Todos os invasores caminhavam e destruíam em busca de uma nova unidade ou pelo estabelecimento de uma nova multiplicidade, na qual garantissem seus espaços e poderes. Beligerâncias por novas ordens, novas disciplinas. Subversões nas quais se proclamavam que ninguém detinha nenhum conhecimento, nenhum poder e pela quebra dos paradigmas vigentes pensavam estar forjando o "novo". Mas, às vezes, não sabiam o que colocar no lugar do que destruiriam e ainda mais aprofundavam a barbárie e o vazio que desorienta. Sepultavam e abafavam histórias, relegavam-nas ao esquecimento. Traduziam-nas com deturpações ou distorções tendenciosas e simplistas. Nunca nos esqueçamos que entre tudo isso não estão apenas o saque de Braga pelos Godos, ou a destruição da Catedral Ortodoxa de Moscou pelos bolcheviques ou o massacre de Canudos. Nos céus os sóis se emulavam em combates que levavam a chuvas de ferro em chama, fome, nuvens de poeira se elevando do chão, pestes, trevas e apagões, devastações sangrentas desencadeadas por hordas de feras, eclipses, noites de luas sangrentas, animais esmagados nas estradas e, ao longe, capelas superlotadas por fiéis ouvindo cantochão (música que enleva e nos encaminha ao uníssono) e prédicas taumatúrgicas de reis e suseranos. Acabavam as religiões dos campos. Já desconhecíamos as sentenças dos padres egípcios e as resoluções do Concílio da Augusta Braga. Morriam os padres do ermo (cuja candura era admirada por Flaubert) mas que foram admoestados pelos que lhes lançavam estigmas de conservadorismos e anacronismos. Adoeciam os últimos devotos de São Martinho. Ninguém mais se lembrava de São Frutuoso e, muito menos, da Lenda Dourada. Nem das gostosíssimas sopas douradas, feitas com pães velhos fatiados e encharcados no leite adoçado e batido em gemas de ovos, aquecidos e revestidos por uma capa de doces e douradas gemas polvilhadas com canela. Era o fim de um mundo.
Os tesoureiros da monarquia de Cristo celebram suntuosamente o soberano e triunfal mistério da Unidade Eucarística. O Solar Rei do Céu governa e é servido pelos reis terrenos. Os piedosos acompanhantes do enterro dos ossos dos enforcados, junto com cerimoniosos ministros, levavam uma volumosa e amarelada papelada. "Cristo na cruz estava com título e representação de Rei universal, que era de todo o mundo, senão de Rei particular de uma nação." (Conferir na página 167 do volume XIV dos "Sermões" do padre Antonio Vieira, editados na rua das Carmelitas, 144 da cidade do Porto - Portugal por Lello & Irmão, Editores, em 1948).
Também vejo no cosmopolitismo barroco as origens do atual cosmopolitismo globalizador. É no trecho de Vieira que cito a seguir que percebo a tentativa e o gosto barroco de mundializar seus palcos pela prática pós-medieval de peregrinações transcontinentais, pela circulação internacional de relíquias, jóias, raridades e preciosidades de todas as partes do mundo:
"Quereis ganhar as indulgências de Sant'Iago; haveis de peregrinar cem léguas a Compostella. Quereis fazer as estações de Roma e correr as sete igrejas dentro e fora dos muros; haveis de peregrinar quinhentas léguas a Itália. Quereis visitar o Santo Sepulcro, o Calvário, o Monte Olivete, a Casa Santa haveis de peregrinar mil léguas a Jerusalém. Não são grandes distâncias de lugares estas? Grandes por certo, e ainda maiores, se lhes ajuntarmos que haveis de passar por terras habitadas de infiéis, e por mares infestados de infinitos corsários, onde é mais certa a escravidão e o remo, que os perdões e indulgências que ides buscar. Mas para todos estes perigos, eu vos darei um passaporte muito seguro, e para todos estes caminhos um atalho muito breve." (obra citada, página 177). Atalhos mais breves que as rotas aéreas e os fluxos de "e-mails" do mundo de hoje.
Vieira expressava bem o normativo século barroco, uma época educada pelos jesuítas e policiada pela Inquisição Moderna (pós-medieval), uma civilização pomposa e teatral. Inquieta. Heróica. "A literatura moralizadora e pedagógica surgida nesse tempo dá bem o tom da busca de ordenamento dos espíritos. Um fidalgo podia orientar sua devoção com a "Arte Espiritual", de fr. Paulo de Vasconcelos, "A arte de orar", de pe. Diogo de Monteiro, ou com o "Anjo da Guarda", do pe. Antonio de Vasconcelos. Socialmente poderia aprender com a Arte da Galantaria , de d. Francisco Portugal, ou com "A Corte na Aldeia", de Rodrigues Lobo. Em casa podia regular sua vida conjugal e familiar pelo "Casamento Perfeito", de Diogo de Paiva Andrade; pela "Carta de Guia dos Casados", de Francisco Manuel de Melo, ou pela "Arte de bem criar os filhos", de Guzman (conferir em: HERMANN, Jacqueline, "No Reino do Desejado - A construção do Sebastianismo em Portugal séculos XVI e XVII", São Paulo, Companhia das Letras, 1998, p. 184).
A busca da retidão e da Justiça está presente nos "Sermões" do padre Antonio Vieira:
"Em tempo que tão oprimidos e tão cativos estamos, que devemos pedir com maior necessidade senão que nos liberteis? (...) Não hei de pedir pedindo, senão protestando e argumentando; pois esta é a licença e liberdade que tem quem não pede favor senão justiça." (Confira em obra citada, página 306).
Entre o conceito unívoco de Justiça do padre Antonio Vieira e o plurívoco ou ambíguo de Pascal embrionavam as especulações ideológicas e teológicas da crise do Antigo Regime e as querelas doutrinárias e partidárias dos nossos tempos. No século XX também conhecemos e vivemos uma das mais trágicas buscas de Unidade política e de uma Centralização "Democrática": o Socialismo Real. Contraposto à hegemonia capitalista estadunidense convivemos, após a derrota das tiranias nazi-fascista e nipônica, por quase meio século de dualidades ideológicas consubstanciadas na chamada Guerra Fria.
Desde que o Ocidente imaginou que toda a Terra só podia tender para a "civilização" industrial capitalista ou socialista, o providencialismo de Hegel recuperou o desmedido vigor e confiança no imperialismo tecnológico e em suas formas de dominação ideológica. Como no Barroco, voltamos a nos orientar por catecismos partidários (como o de Martha Haenecker, os de Trotsky e outros). A antropologia americana e os etnólogos estruturalistas engendravam o sonho de uma "nova" razão universal, de uma "característica universal" que abarcasse as dessemelhanças ou diferenças, permitindo ao pesquisador europeu, trancado em seu laboratório, ignorando nas políticas nacionais das "jovens nações" seus pontos de amarração, não ver o absurdo da busca de um conhecimento único. Os padrões barrocos correspondiam à ansiedade do "homem" ao defrontar uma região ainda ignota na qual ainda não se vivesse uma existência norteada pelas "palavras". Segundo Jean Duvignaud (conferir em "Festas e Civilizações", Fortaleza/ Rio de Janeiro, Edições Universidade Federal do Ceará/ Tempo Brasileiro, 1983, da página 112 até 150) o homem conhece a si mesmo por intermédio da sua linguagem e só pode experimentar um prazer cheio de inquietude na repetição daquilo que oculta ou simplesmente não chega a confessar.
Isso ocorre intensamente nas inversões e ocultações ideológicas. Vejamos o seguinte.Primeiro de Maio Socialista - 1948 no Leste Europeu. O Hotel ficava situado acima das tribunas oficiais, onde ia instalar-se dentro em pouco o secretário-geral do Partido. Um grande silêncio seguiu-se ao alarido... pontuado por tiros distantes de canhão. Era o Primeiro de Maio em versão de democracia popular: festa tanto civil quanto militar, tudo em louvor dos valores do trabalho, afinal, quem poderia fugir àquela festa? O céu clareava. "O céu está conosco no Primeiro de Maio". Largas avenidas com arquitetura solene e fria. Era a festa maior, reunindo todos os povos, que nela todo o mundo tem consciência da sua importância e, tratando-se de uma festa, todos vinham demonstrar a sua alegria. Ônibus derramavam camponeses nas ruas vizinhas. Um caminhão trouxe um canhão parecido com o 75 da guerra de 1914. Em ângulo bem inclinado era possível ver na ladeira de uma das avenidas que desciam para a praça uma confusa massa de homens e de bandeiras enroladas. O intérprete informou que eram operários programados para desfilarem em primeiro lugar e que começavam a impacientar-se. Um alto-falante irradiava, alternadamente, dobrados militares e uma espécie de música camponesa, harmonizada, quer dizer, reduzida mais ou menos ao estado de uma valsa vienense lânguida, solene... Uma dezena de carros negros e compridos trazia as autoridades e seus convidados oficiais, fileiras de tanques militares e de tratores postavam-se e depois se deslocavam ao longo das ruas, camponeses já aboletados, talvez desde a véspera, sentados, ou já ficando em pé, misturados aos soldados e com eles conversando, certamente por serem da mesma região. Todos os negócios paravam naquele dia sagrado no qual "não existiam mais diferenças entre as funções, nada de hierarquias nem de distâncias entre o povo e seus chefes" proclamava o noticiário oficial sobre o evento. Um desfile de soldados com banda marcial e bandeiras à testa.... Uma espada brilha na réstia de luz onde, pouco a pouco, penetrava o sol. Era uma progressão lenta e interminável. A festa era um enquadramento que celebrava as simbologias da integração completa do cidadão no Estado. Carros alegóricos com cenas das vidas operária e camponesa, de jovens empregados em bancos estatais etc. imitavam festas medievais: dramatizavam não o que eram, mas sim o que o Estado deles esperava. Mostravam os esforços sociais revolucionários nos âmbitos fabris, a qualidade dos seus tratores e armamentos, as facilidades com as quais realizavam suas reformas administrativas... A construção de um paraíso unitário e centralizador. Aqui e ali um retrato de J. Stalin se erguia acima das carroças e dos grupos de desfilantes, suscitando um quase belicoso entusiasmo, militarista e devoto.
III
Barriga d'água, abóbora d'água, tromba d'água, bomba d'água, uma abóbada aúrea y los fabulosos cadillacs... Todos os dias eu levava para o serviço um guarda-chuva. Hoje eu não o levei e, como há vários meses não chovia, fui surpreendido por uma chuva fria e fina, chegando em casa um pouco molhado. Ou seja, um homem prevenido não vale por dois. Não vale nada diante do imprevisível.
Por ora apenas me decidi dormir num dos nove andares que circundam (com arcos) o esotérico poço do palácio da Regaleira, construído ao mesmo tempo que Fernando Pessoa escrevia a sua obra (com várias alusões aos Templários e ao Sebastianismo). O José Augusto fez primeira comunhão com meias brancas, sapatos pretos, gravatinha borboleta, terninho com calças curtas, uma vela perfumada numa das mãos, diante do altar-mór da igreja da Graça de Lisboa, em plena era salazarista.
A viúva do nobre suicida, envolta em véus negros e em brumas, afastou-se do palácio da tragédia caminhando serena e cabisbaixa por uma estrada calçada com paralelepípedos. Fim do filme "O Inocente" do marxista e aristocrático diretor de cinema italiano Luchino Visconti.
Notas tiradas de um papo com o escritor mineiro Murilo Rubião.
Na noite do dia 12 para o dia 13 de Julho de 1976, na Cantina do Lucas (Av. Augusto de Lima - Edifício Maletta - centro de Belo Horizonte), após o lançamento dos livros de Literatura Infantil de Wander Pirolli na Casa do Jornalista, numa mesa deste conhecido ponto de encontro de boêmios e intelectuais belorizontinos, junto com Luiz Fernando Emediato e meu amigo José Geraldo estivemos a conversar com o conhecido e fantástico escritor mineiro Murilo Rubião. Quase três horas de conversa fiada (ou afiada?). Desta oportunidade, sem usar gravador (aparelho temido à época da ditadura militar que atravessávamos), após muitas batidas, cervejas e salgadinhos, momento de descontração e despretensão, recolhi algumas das opiniões expressas nesse papo pelo insígne escritor mineiro Murilo Rubião:
1 - Rubião e Juiz de Fora:
Murilo Rubião ama e valoriza pessoas dessa cidade (Zé Nava, Pedro Nava, Murilo Mendes, Rachel Jardim e outras) mas confessa que topograficamente Juiz de Fora não lhe é uma cidade amável.
2 - Rubião e as Potências (lembre-se: estávamos em plena Guerra Fria):
Acha que ambas são perigosas por vários fatores e teme pela sorte do herói que se erguer contra ambas, porque a URSS respeita mais os EUA do que quem se erguer contra os dois. E sobre quem tomar tal posição recairão todas as desgraças e correrá o risco de vir a ser enterrado em cova sem cruz, sem nome ou epígrafe.
3 - Rubião e a Ciência:
O desenvolvimento científico está se processando a um ritmo não acompanhado pelo homem. A carga de conhecimento científico vem se acumulando sem a sua digestão pela humanidade. Ocorre um descompasso abissal entre o desenvolvimento científico e o "desenvolvimento humano".
4 - Rubião e Georg Luckacs (esteta marxista):
Considera Luckacs o mais importante esteta marxista, acha sólida e muito importante a sua "Estética". Impressionou-se pelas três autocríticas do pensador e pela sua franqueza ao declarar certa vez que não entendia nada de Literatura. Reputa da maior lucidez a crítica de Luckacs à arte e à literatura russas ao reconhecer que, após Gorki e Maiakovski, no período stalinista a URSS no plano artístico-cultural se vê transformada num vasto cemitério.
5 - Rubião e Graciliano Ramos:
"Não fui íntimo de Graciliano", mas sempre me pareceu muito amargo e fortemente franco. Quanto ao posicionamento político de Graciliano: "Só foi comunista no período da legalidade do PCB e, mesmo assim, vivia em atrito com certas áreas do Partido". Lembra que uma vez Graciliano se recusara a pregar cartazes nas ruas e fora repreendido, mas Prestes proibiu que o molestassem. Prefere ver Graciliano muito mais como um anarquista do que como um comunista. Ao estabelecer uma hierarquia estética entre os ficcionistas brasileiros Rubião coloca em primeira importância a obra de Machado de Assis e em segunda a de Graciliano Ramos. Considerava Guimarães Rosa um caso a parte.
6 - Rubião e o Barão de Itararé:
Se não tivesse se casado e se dedicado única e exclusivamente à aftosa teria sido um gênio em Veterinária. Certa vez levara um bezerro ao seu apartamento para fazer experiências. E o bezerro começou a berrar, chegando a provocar um certo tumulto (que até atraiu uma viatura policial ao local). E o gozado é que ele levava a sério a transação com o bezerro.
Fui muito amigo do Barão. Considero-o uma das pessoas mais humanas e sensíveis que conheci. Acho que foi usado pelo PCB. E , certa vez, lhe dissera que seria importante que virasse suas baterias do humor e do sarcasmo contra esses comunistas, ao que ele me respondeu com um delicado "vai pra puta que o pariu!...".
Rubião citou uma célebre do Barão: "As mulheres devem se casar, os homens não".
7 - Rubião e as Novas:
Anuncia o próximo lançamento da revista literária "José" (que encerraria sua existência após o número zero). Tal lançamento, segundo Rubião, seria no Rio e constituiria um "empreendimento cultural urdido por um pessoal sério e que já está curtido na vida editorial".
Outra novidade: seus contos serão editados na Polônia, na Tchecoslováquia e, mais cedo ainda, nos Estados Unidos, por uma editora especializada em literatura latino-americana.
8 - Rubião e Jorge Amado:
Quanto a fama internacional do escritor bahiano Rubião mal consegue disfarçar um certo malquerer pela ficção do romancista Amado, dizendo que sabe que tudo não passou de um apoio editorial de todos os PCs à sua obra, editando-o em dezenas de países, mas não evitando o encalhe das edições em importantes centros. Segundo Rubião tal não ocorreria se os PCs se incumbissem de dar força ao Graciliano, em especial ao seu livro "São Bernardo".
9 - Rubião e Belo Horizonte:
Uma prova de que o contista Murilo Rubião não é bairrista ocorre quando ele confidencia um de seus prazeres: contemplar os céus. É aí que afirma que, por várias vezes, sentiu nos céus de Madri muita semelhança com os da capital mineira.
10 - Rubião e a Poesia:
A boa poesia, sendo boa mesmo, não precisa de grandes alardes e estardalhaços para chegar às ruas. Ela chega.
11 - Rubião e a Ficção:
"Não creio que algum movimento reivindicatório consiga a revitalização da poesia brasileira. Se recorrermos à história da criação literária brasileira veremos que em noventa por cento do período a ficção permaneceu em segundo plano em relação a poesia. Vocês se lembram que até o Machado de Assis se viu impelido para a poesia? Agora parece que se instala o ciclo da ficção."
12 - Rubião e a História:
Quando se analisam certas épocas históricas chegamos à conclusão que esta História que os marxistas reverenciam tanto é contra o homem. Vejamos a época das Cruzadas e os tempos de hoje e notaremos como a História é desfavorável ao homem.
13 - Rubião e o Homem:
O Homem é bom isoladamente. Coletivamente constitui uma ameaça.
14 - Rubião e as Viagens Espaciais:
"Os países desenvolvidos estão preparando Marte para receber os seus contingentes populacionais. Aqui na Terra ficarão os povos dos países subdesenvolvidos. Queiramos ou não, nosso planeta um dia será estourado. E eles, potências, não pensam em permanecer aqui. Se pensassem não estariam preparando este holocausto atômico irreversível."
Nota biográfica sobre Murilo Rubião:
Nasceu em Silvestre Ferraz, que antes fora Nossa Senhora do Carmo do Rio Verde (hoje Carmo de Minas). Sua infância viveu-a com o seu avô, seu pai, tio e primos, entre livros. Seu pai o obrigara a ler os clássicos. |