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de 07/12/2001
a 10/03/2002
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| A
Poética da Morte na Cultura brasileira
por João Evangelista
de Andrade Filho
Com efeito, podemos dizer que este
é um projeto bem idoso. Quando tencionávamos efetuá-lo
no Museu de Arte Moderna de Florianópolis, em 1962, foi preciso
rumarmos para Brasília. Lá, no Museu de Arte da capital,
no início dos anos 80, ainda que ele fosse bastante anunciado inclusive
pela imprensa, não pudemos fazê-lo rejuvenescer, devido a
razões que já fogem ao caso, e à memória. De
volta a Florianópolis, aqui no Masc, vimos por fim chegar a hora
de promovê-lo. Tentamos montá-lo em forma de uma exposição
temática, talvez menos ambiciosa que a de antes, mas não
menos abrangente, cuja abertura se dará a 06 de dezembro de 2001.
1. Da vida;
Como se pode inferir desta simples
enumeração, que começa e termina na mesma primeira
sala, o projeto é conceitualmente circular ou, se quisermos, palindrômico.
Trata-se, na verdade, de exaltar a existência em meio à
ciranda dos mitos da morte: o duplo, a salvação, o nirvana,
e outros mais, além do meio-mascaramento deles pela ritualística
profana da indústria e da propaganda.
Como diria Edgar Morin: “Assim como na lógica hegeliana a dupla ser-nada é indissociável, e dá origem ao devir, assim também a dupla morte-vida é indissociável, e a única amortalidade possível reside na mudança - na mutação, na metamorfose”. Deste modo, a circulatura palindrômica poderia transformar-se em figura helicoidal, em espiral cujo primeiro passo pode ser dado pela tranqüila meditação sobre a ciência ou ainda, - por que não? - pela criatividade do artífice. O itinerário culmina em três salas que destacam a presença dos poetas e seus ilustradores, e as de Vitor Meireles e Flávio de Carvalho, cujos trabalhos representam, talvez, o momento mais alto e comovedor da pintura e do desenho brasileiros no tratamento da temática em questão. Na sala dos artistas plásticos, rendemos homenagem ao xilogravador Newton Cavalcanti, pela expressividade genuína da sua arte. A sala do catolicismo reúne 40 crucifixos “barrocos” cedidos por museus, antiquários e colecionadores. A sala do México apresenta uma oferenda de los muertos, presente da Embaixada daquele país. Agradecemos a todos os colaboradores, cujos nomes serão destacados em outro lugar neste impresso. Sem eles a exposição não ter-se-ia realizado. Seria fácil dar à mostra um tratamento granguinholesco ou circense, de fácil apelo pelas tintas carregadas da cenografia ou pelo ludismo interativo. O tema o permite muito bem. Preferimos, em vez disso, a tradição museográfica que mantém certa distância, e uma austeridade que nos pareceu mais apropriada, pois a mostra se destina menos à emoção, à surpresa ou ao susto, do que à reflexão que deve preferencialmente suscitar. Evitamos, assim, o trop. Não conseguimos, infelizmente, atingir a simplicidade do clean, tão do gosto de muitas programações. Pelo contrário, dada a quantidade do material informativo por um lado e, por outro, os limites do espaço físico do nosso museu (não obstante tão espaçoso), fomos obrigados por vezes a incorrer em uma verdadeira e própria saturação. São objetos de toda sorte, poemas, desenhos, gravuras, pinturas, fotografias, textos, mensagens e vinhetas. No que concerne aos objetos, sobretudo, a multiplicidade das proveniências foi intencional. Não constituiu preocupação da curadoria evitar o mau gosto ou o kitsch, de resto um dos conteúdos da exposição. Uma severa antigüidade pode vizinhar com um adorno comprado no camelódromo. Achamos que seria um desafio aos ilustradores dos poemas dar aos mais contemporâneos desses artistas versos mais antigos, ou, ao contrário, dar aos mais veteranos poesias de safras atuais. O resultado nos pareceu excelente. Agradecemos com toda ênfase a esses criadores que responderam a nosso apelo e, em troca de um pro-labore por certo simbólico, não hesitaram em colaborar com o projeto do Masc. Para que a representação fosse de fato nacional convidamos artistas do Ceará ao Rio Grande do Sul. Se a plotagem às vezes substituiu o original foi porque, conscientemente, sacrificamos a aura à informação. Deste modo, mesmo que os Museus nos disponibilizassem seus acervos - como o Museu Nacional de Belas Artes, o MAC/USP, o Museu Lasar Segall, a Casa João Turim, de Curitiba etc - em virtude das dificuldades de traslado e seguro, e mormente pelos problemas de conservação, já que se trata de um evento de longa duração, optamos pelas modalidades reprográficas. A representação da arte popular foi reduzida a alguns exemplos, porque se fôssemos lançar mão do seu repertório, que por si constitui um referencial sem medida, não bastaria o espaço do museu. Destacamos o trabalho de Zulmira Celestina da Silva, de Juazeiro do Norte. Museus não são apenas prédios, administrações com função de ordenar, conservar, catalogar, guardar e organizar acervos, mas entidades culturais vivas às quais incumbe trazer à reflexão temas importantes, fomentar a pesquisa, e na realidade brasileira, atrair público cada vez mais diversificado. O projeto “A Poética da Morte na Cultura Brasileira” é uma proposta de pesquisa sobre a hipótese da especificidade nossa quanto às imagens geradas pela idéia da morte. O levantamento da iconografia, da musicografia e da produção literária sobre o tema, apesar de não ter sido pela vastidão, nem de longe aproveitado na mostra, por si mesmo representou um trabalho museológico de relevância. O levantamento das diferentes manifestações relativas ao tema, em diversos campos do conhecimento nos levou a consultar universidades e outras instituições, a solicitar o envolvimento de estudiosos, de artistas e também da comunidade. O Masc, ao propor um projeto de tal amplitude, considera que está cumprindo sua função social de instituição pública preocupada com a formação intelectual e a educação da sensiblidade.
João Evangelista de Andrade
Filho é diretor do Museu de Arte de Sta. Catarina.
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