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O VALE DA LUA
E O MILÊNIO
Há milhões de anos corriam rios caudalosos polindo e arrastando as pedras de um local mágico e fantástico situado ao norte de Brasília, próximo à cidade de Alto Paraíso – "Vale da Lua". Arqueólogos e especialistas de áreas como antropologia, geografia e estudiosos da pré-história há muito consideram o Centro-Oeste brasileiro uma das mais antigas regiões da América do Sul. A eterna curiosidade do homem levou-o a pesquisar o seu "ao redor" e, quase sem querer, foram redescobertas grutas profundas e misteriosas, cavernas repletas de desenhos de signos e símbolos cujos significados começam a ser avidamente pesquisados. E, embora não se possa precisar a existência humana na região, estudos recentes resultaram em achados indicativos de datas entre 10 e 12 mil anos antes do florescimento da cultura ocidental, com as grandes navegações e a chegada ao "Novo Mundo".* Areias brancas junto às cavernas de imensas pedras claras e roliças, repletas de restos fossilizados de animais que por aqui passaram ou cá viveram atestam a existência de mar no Planalto Central. E o "Vale da Lua", embora distante muitos milhares de quilômetros, traz-nos a lembrança registrada nas grutas circunvizinhas da anterior proximidade desse mar. São tão profundas as escavações realizadas pela natureza em tais cavernas que, quando o vento sopra em seu passeio por entre estalactites, estalagmites ou frestas de rochas produz tímidos sons, numa frágil mas persistente tentativa de resgatá-los, recuperando a memória de tempos ancilares. Se de nosso corpo ouvimos o batimento do coração e sentimos a vibração de riso, choro ou canto, também do corpo da pedra podemos ouvir registrado seu próprio som. Assim, o nome para peças como as estalactites e estalagmites ficou: "Pentes do Vento". A "viagem espacial" ficou por conta das cabeças de pedra que resgatavam o conceito metafórico de MEMÓRIA – fosse para o som, a luz ou o cheiro. Leituras sobre Artes Primitiva e Contemporânea, por outro lado, revelaram que ambas em muito se assemelhavam, não havendo incongruência na busca, sempre atual, da "Pele da Terra" (conforme realizado por Helena Lopes, Glênio Lima, Cléber Gouvêa, Dulce Schunck e tantos outros) ou das "Memórias da Natureza" (que no meu caso tinha início com as pedras). Há cerca de dois anos, o historiador romano e crítico de arte Luiggi Pino, assistido por jornalistas e antigos discípulos da Universidade de Roma (em comentário às peças por mim expostas na Embaixada do Brasil), observou o emprego de quase todos os sentidos nessas pedras, na medida em que facultavam a evocação de memórias sensoriais do tempo. A intenção, na oportunidade, fora levar o público espectador a uma percepção otimizada de cada peça: tocando-a, vendo-a, sentindo-a, enfim. Em relação às "Cabeças do Tempo" interpretou-as paralelamente como sátira à modernidade e crítica aos excessos do poder e dos comandos arbitrários e/ou autoritários dos adultos – era como se as cabeças maiores (geralmente sem boca), tivessem que ouvir e prestar mais atenção ao que lhes era dito pelas cabeças menores (representativas tanto de crianças como das minorias). As "Moradas do Som" são as próprias grutas, como imensas conchas a guardar segredos, ruídos etc. Outros paralelismos com objetos atualmente escavados nas buscas arqueológicas são exemplificados com: a) as inserções de símbolos e signos mito/astrológicos nos objetos, que se associam aos grafismos e inscrições pré-históricas; b) os "Pentes do Vento", como representação das estalactites e estalagmites, acompanhados do som do vento; c) os grandes e médios "Totens", denominados “Úteros Totêmicos” (constantes da presente Mostra), além das "Moedas do Tesouro Real" e dos "Manuscritos dos Sábios". Por todas as razões acima
esse local é, há bastante tempo, minha grande paixão
(inspirador dos poemas abaixo) mas, assim como não se pode explicar
seu mistério e encantamento, também minha obra terá
que falar por si, espero que com magia similar àquela com que fui
enfeitiçada e arrebatada, em contato com cada milímetro desse
lugar quase-sagrado – o VALE DA LUA.
O micro e o macro...
Dentro como fora...
Todas as formas
1. V. "Prajaprakti"
– imagem do Deus que em vez do sexo apresenta o OVO CÓSMICO.
Flavita Obino Boeckel,
artista
plástica, residente em Brasília – DF.
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veja na Píccola Galleria os trabalhos de Flavita Boeckel |