Jussara Derenji
Arquiteta em Belém-PA

 

Procuram-se algumas figuras ilustres, e outras quase desconhecidas, que desapareceram, em circunstâncias e datas indeterminadas, de nossos parques e praças públicas. Poucos parecem ter notado que nos últimos anos a cidade assistiu, inerte, a perda de estátuas e bustos que a ornavam. Não que fatos assim sejam exclusivamente recentes, podendo-se começar indagando pelas fontes em ferro que sumiram de várias praças e largos nos primeiros anos do século XX e que só as fotos de época fazem lembrar. Em algum momento, provavelmente nos anos 70, uma estátua ao Trabalho (ou Trabalhador) que fora colocada, no ano de 1939, no Largo do Operário, em São Braz, também tomou destino ignorado.Em tempos bem mais recentes podemos enumerar outras tantas perdas constantes e inexplicadas. Os bustos de Ruy Barbosa e de Rio Branco que ficavam firmemente colocados em severos pedestais no Largo da Trindade estão em local desconhecido. Aborreceram-se, talvez, de olhar na mesma direção por muitas tediosas décadas? Afinal, foram colocados ali por volta de 1910. Ou acharam muito monótona a praça depois que os estudantes da Faculdade de Direito saíram para o retiro do Campus Universitário? Fazia-lhes falta, quem sabe, a algazarra dos estudantes que os giravam nos pedestais nas brincadeiras dos calouros? Não acredito. Não teriam do que se queixar, não se pode dizer que o largo, mesmo sem os estudantes, fosse monótono, pois a Igreja, bem ao lado, garante casamentos e missas em atividade constante e variada, cuja maior expressão são as quermesses, talvez as últimas remanescentes na área central de Belém. Porque saíram os bustos, então?

Na frente dos Palácios do Governo do Estado e da Prefeitura, hoje transformados em Museus, tiveram um pouco mais de sorte as esculturas que celebram o Marinheiro e o Soldado, perderam a arma um, a âncora de mármore o outro, mas resistem em posição de combate. Salvou-se, também, o General Gurjão, que desde o fim do século XIX se mantém nas alturas, providenciais, do pedestal feito por artista português. Perdeu a grade trabalhada e que culminava, nos quatro cantos, com esferas de vidro gravado. Ornamentarão alguma casa, com certeza, distinguindo-as com a marca do brasão do Imperador. O marco de pedra, trazido de Portugal para demarcar os seus limites com terras de Espanha no norte do Brasil, no século XVIII, recebeu uma estranha pintura branca mas, enfim, continua ancorado na frente do IHGP.

Foi um depósito municipal, seria melhor que tivesse sido, o destino do busto de Juscelino Kubischek, que ficava no início da avenida Almirante Barroso? E o medalhão a Camões, a estátua ao Gazeteiro, ao Escoteiro ou a Águia que compunha um, admitamos, feioso monumento aos aviadores nacionais, onde estão?

Nos anos 40 um monumento erguido em 1903 no Bosque Rodrigues Alves foi desmontado e transformado em homenagem a Carlos Gomes e Gurjão, mudando-se para a lateral do Teatro da Paz. Teria se aborrecido em morar no subúrbio? Ali permaneceu até ser resgatado e voltar ao seu local de origem. Esperemos que o mesmo possa acontecer com alguns de nossos desaparecidos, sejam eles ilustres ou quase desconhecidos.