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COMO DESVENDAR OS SEGREDOS DE UM RISOTO PARA PESSOAS CURIOSAS



- Boa noite, Senhor. Mesa para quantos?
- Boa noite. Só para mim. Estou sozinho.
- O Senhor fez reserva?
- Não. Era preciso?
- Para as noites de sextas-feiras, sim. É o nosso maior movimento. Terá que aguardar. Pode demorar mais de uma hora.
- Tudo bem. Espero ali no jardim. A noite está agradável.
- Aceita alguma coisa para beber enquanto aguarda?
- Por enquanto não. Obrigado.


Para as próximas crônicas de culinária devo me lembrar de ter sempre uma pochete com bloco de anotação, caneta, maquininha fotográfica digital, palm top. A memória é muito nervosa e as imagens vêm e vão rapidamente. Uma frase aqui, outra ali, metáforas, nuances. Descrever ambientes, plantas, flores, cheiros, espumas de cervejas, cor de vinho, cadeiras. Pigmentos, sons, isto!!! Som, a conversa era do garção com o solitário freguês, Robinson.


Eu também esperava minha vez. A senha já estava amarrotada, passeando da mão para o bolso da calça, do bolso da calça para a mão. Aguardava no jardim do restaurante e mirava o freguês solitário. Pensava o que uma pessoa sozinha pode fazer em um restaurante movimentado numa noite de sexta-feira. Talvez é a tal fragilidade do masculino contemporâneo, coisas boas para terapeutas sexuais em noites de sexta-feira. Robinson movimentava-se, de um lado para o outro no jardim do restaurante. Bancos de madeira espalhados entre palmeiras e protegidos por uma única copa de flamboyant.


- Posso me sentar aqui?
- Senha 69.
- Hã?! Claro, até porque chamaram minha senha.
- A Senhora também pediu mesa para uma pessoa, certo?
- Isto mesmo.
- A mesa tem lugar para dois. Este Senhor também está sozinho. Se a Senhora não se incomodar em dividir sua mesa com ele?
- Claro que não.
- Senha 70.
............
- Senha 70.
Ops, 70 a minha! Se não fosse por uma de minhas filhas me cutucar pelo braço, com certeza perderíamos o bonde da vez. É que eu ainda me encontrava hipnotizado pela cena. Aquilo somente poderia acontecer em meio a histórias escritas, crônicas como esta, romances, novelas da tevê, cinema, sei lá, mas não ali, daquele jeito. O tal do Robinson, meia idade, barriguinha de azeitona, dividindo a mesa com a moça loira, cerca de uns dez anos mais nova. Impossível de acontecer. Mas tinha acabado de acontecer. De qualquer modo, iam apenas dividir a mesa, comer um risoto, umas bruschetas, tomar vinho, uma sobremesa qualquer, trocar telefone, endereços eletrônicos, sei lá.


Ah, se eu tivesse uma pochete com meu arsenal de escritor, já teria entrado em ação. Mas tive que esperar. Tragar os detalhes mais importantes e guardá-los.


Mais impossível de acontecer, ainda, foi que a mesa onde fomos acomodados era ao lado da mesa do Robinson e da moça loira, a Lola como logo, logo, ouvi-a dizer.


- Pode me chamar de Lola.
- Robinson.
- Ahahah. Sincronicidade para você. Robinson solitário em uma noite de sexta-feira. Mas eu não sou a Sexta-Feira. Ahaha. Me lembrou a história do Crusoé. Tudo bem. Como eu te dizia, Robinson, fiquei mais de 1 semana, acho, procurando esse tal site na internet e não o encontrei mesmo.


- Olha, se você usou todos os mecanismos de busca...
- Todos.
- Então, não tem mesmo.
- Até inverti o nome. Usei org, com, pop, top, up, terminações em br, pt, dw, us, e nada.
- E o que tanto é a sua curiosidade por este site, afinal?
- Curiosidade plena sobre o tema da fragilidade do masculinismo contemporâneo. Parece que é disto que o site trata, não sei ao certo. Acho que o site está escondido.
- Fragilidade??!! Não sei, não, Lola. Não me vejo frágil. Acho que os homens contemporâneos não são tão frágeis. Talvez nos anos 80 a fragilidade masculina fosse mais acentuada. Hoje em dia, não. Espiamos na internet, chats, blogs, papeamos nos tais messengers. A vida contemporânea é quase só virtual. A realidade falsária. No anos 80 a gente ainda tinha o Chacrinha aos sábados. Vocês querem bacalhau? Filmes retratando a verdadeira fragilidade masculina: Dublê de Corpo, Atração Fatal, Ghandi, coisas do gênero. O homem se adapta. O que você acha?
- Talvez. Você chora?
- A última vez que chorei foi no aniversário de 70 anos de mamãe. Em abril. Fiquei emocionado.
- Hummmm.... Édipo de efeito retardatário!
- Não, nunca tive esse complexo. Apenas me emocionei. Só isto.
- Viu só? Você é um homem frágil. Na verdade todos são. Não importa se usem ternos, roupas da roça ou pelados. A fragilidade é interna, bate dentro, como um vento. Um sopro. Fuuu....
O restaurante estava movimentado. Minha atenção era dividida entre aquele casal da mesa comunitária e as pessoas que estavam comigo na mesa ao lado. Não conseguia me concentrar em nosso assunto, o esforço maior era na conversa dos dois entre murmúrios e risadas em todo o salão. Não é possível ouvir o que as pessoas das outras mesas conversavam. Buscar matéria prima é assim mesmo, uma invasão de privacidade. Como no filme Rear Window, do Hitchock. Minha janela naquele momento não era meus olhos e sim meus ouvidos. Ouvia também risadas, misturadas. As de Robinson e de Lola.
- Mais vinho, Lola?
- Sim, por favor. Mas me fale você, agora.
- Falo. O que quer saber?
- Sobre....
- Espere. Deixa eu anotar o endereço desse tal site. Como é mesmo?
- É dabliu, dabliu, dabliu, ponto pone, ponto org, ponto br. Vejamos como você escreveu. Isto, assim mesmo. Mas prossiga. Sua vez de falar sobre a sua curiosidade.
- Prossigo. Bom, como eu te dizia, o que mais me deixa curioso é saber qual a relação dos escritores com seus personagens.
- Como assim?
- Olha, gosto muito de ler romances, contos, crônicas. E sempre quando leio alguma coisa desta natureza fico pensativo quanto à relação deles. Como são entrelaçadas. Se são criações do imaginário do cara que tá escrevendo. Se são todos amigos, uns dos outros, como se fosse um clube fechado, coisa de turma. Sabe como?
- Ainda não. Pode explicar melhor?
- Posso. Qual o livro que você leu que mais te marcou?
- Os de Freud. O Ego e o Id.
- Não, não. Sem Freud e sem Jung. Falo de romance, do tipo Jorge Amado, Érico Veríssimo, Virginia Woolf. O Domingos Pellegrini que é daqui de Londrina.
- Ah, tá. Tem dois. O Morro dos Ventos Uivantes, da Bronte. E também O Apanhador no Campo de Centeios, do Salinger.
- Legal. Vamos pegar o Salinger, então. Você acha que todos aqueles personagens, o Luce, o Ackley, a Sally, o próprio Caulfield, a irmã dele, a Phoebe, o Professor Antolini um desvirtuado sexual... Não me lembro muito bem dos outros. Acho que esses são os principais. Pois então, você acha que todos aqueles personagens foram inventados pelo Salinger ou faziam parte de sua relação de amizade? Coisa de turma. A própria história, foi algo verdadeiro ou viagem da cabeça dele? É disto que falo.
- Bom, mas e o que isto importa? O que nos resolve?
- É que se forem da turma real de quem escreve, penso não ser legal.
- Ahaha. Você, Robinson, tá querendo é ser lembrado numa história qualquer. Podemos pedir a conta e continuar esse papo em outro lugar?
- Claro.
Pedimos a conta ao mesmo tempo. As carteiras escuras de couro também foram entregues ao mesmo tempo a ambas as mesas.
- Nossa! O que é isto?
- O quê?
- Risoto de palmito!!!
O maître se apressa para corrigir a troca das contas, entre a mesa do Robinson e a minha. O maître é um antigo conhecido que sempre me agracia com insólitos complementos. Desta vez não tinha atenção ao seu gesto. Ouvia o casal.
- Agora sim.
Uma de minhas filhas me puxa pelo braço com um maroto sorriso e me entrega a carteira da conta. Dobrado em papel grosso, letras bem marcadas, lia-se Risoto de Palmito. O maître dá uma piscadela e minha filha me avisa ser mais outra receita para minha fortificada e frugal coleção. O casal ria e continuava a dizer coisas. Minha atenção já se dissipava e repousava minha colher de pau ali na mesa percebendo que todos riam de minha indiscrição para com o casal da mesa do lado, o Robinson e a Lola. Encontros impossíveis de acontecer.


Bom, foi assim que aprendi a fazer risoto de palmito. A receita é ótima, faz sucesso.

RISOTO DE PALMITO

Tenha à mão uma colher de pau, vai precisar.
Comece pelos tomates. Cerca de ½ dúzia, daqueles rasteiros bem vermelhos. Coloque-os para ferver. Quando a pele começar a partir, retire-os do fogo e espere esfriar. Tire as peles e as sementes, descarte-as. Use apenas as polpas, picadas grosseiramente. Reserve.
Juntamente com o preparo dos tomates, faça um caldo de legumes. Para o caldo ferva 2 litros de água com cenoura, abobrinha, alho-poró, chuchu, mandioca salsa e sal. Os legumes devem quase desmanchar nesse caldo. Experimente o sabor, coe e reserve.
Em uma panela debruce cerca de ½ xícara de azeite (se usar óleo vai estragar, tem que ser azeite de oliva). O extra-virgem fica ótimo, sim. Aquecido o azeite, agregue 1 cebola e 2 dentes de alho, bem picadinhos. Inclua uma folha de louro. Após dourar tudo isto, entre com as polpas dos tomates e deixe derreter um pouco. Adicione sal e pimenta rosa em grão, a gosto. Mexa. Incorpore o palmito cortado em rodelas. A quantidade fica a gosto, para esta constumo usar um vidro. Mexa. Experimente os condimentos. Deixe em fogo durante cerca de 5 a 10 minutos, mexendo vez ou outra para não grudar. Incorpore salsinha picada e coentro se desejar. Desligue o fogo e reserve.
Em uma panela de fundo grosso ou mesmo em uma panela própria para paella coloque duas colheres rasas de manteiga, um pouco de azeite (o mesmo que usou no preparo do palmito) e deixe derreter. Pouco antes de derreter coloque cerca de 2 xícaras de arroz arbório, próprio para risoto, sem lavar porque não precisa e vá mexendo, fritando-o um pouco. A seguir agregue 1 cálice de vinho branco seco. Torne a mexer. Contemple o aroma que irá subir enquanto o álcool evapora.


Aos poucos vá adicionando 1 concha do caldo de legumes e mexendo sem parar. Importante sempre mexer para que o risoto fique com aquele jeitão de risoto. A técnica do desprendimento do amido. Conforme vai secando, incorpore 1 concha do caldo. Experimente o caldo enquanto estiver nesta fase. Quando perceber que o arroz está quase no ponto, na próxima concha, agregue o preparado de palmito. Mexa com cuidado e veja a incorporação do prato. Não deixe secar. Coloque 1 colher de manteiga. Mexa. Agregue queijo parmesão ralado, de 2 a e colheres de sopa bem gordas. Torne a mexer. E pronto. Ma che cosa bella!


Sirva na própria panela, por isto use uma panela bonita que possa ir à mesa. Os convidados vão se deliciar. Tenha uma boa pimenta vermelha no azeite para ajustar o paladar dos mais calientes. Torradas feitas no mesmo momento do preparo do risoto, à base de manteiga e queijo gorgonzola. Salada de agrião com rúcula. Para esta delícia que tal um vinho do Vale dos Vinhedos? Experimente o Don Laurindo, tinto, assemblage. Para a garotada um suco de tangerina ou outra fruta da época.

O Robinson e a Lola saíram dividindo suas risadas com gestos e palavras que meus ouvidos já não alcançavam. Mas ainda pude ver quando ele, meio sem jeito, tentava colocar seu braço sobre o ombro dela. Sumiram. Saber para onde foram e o que continuaram a dizer sobre a fragilidade masculina contemporânea ou o círculo de amizade dos personagens com os autores, ou qualquer outra coisa, ou o que fizeram na noite, ficou por conta da imaginação. Quem sabe a Lola tenha descoberto o mistério do site escondido que procurava. Ou o Robinson tenha ficado satisfeito por ter sido incluído nesta crônica. Ou uma coisa ou outra, ou as duas juntas. Quem sabe? Eu é que não conto, afinal esta é apenas uma crônica culinária. O risoto de palmito é ótimo. Saúde a todos! Falar de terapeuta sexual me lembrou de dizer como aprendi a fazer roscas. Esta fica para a próxima. Uma italiana pela minha origem e outra alemã.

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Carlos Alberto Francovig Filho
Vencido pelo destino, invisível estrada, sucumbi aos encantos da literatura. Doce ócio. De libra, nasci aos 21 de outubro de 1960. Agora me lanço e lanço livre minha literatura.

carlosfrancovig@sercomtel.com.br