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Chegava a casa com aquela inquietude visceral que chamam de fome. Considerava aquelas duas berinjelas que havia adquirido no sacolão da CEASA. Pareciam duas tetas negras, luzidias, rijas e eu tinha pensamentos prazerosos com o destino delas.


Nos dias anteriores andara recordando aquela moqueca na casa da Lucy; aquela não, aquelas. Tinha moqueca com banana e sem banana, ambas com uma pimentinha de fazer bico nos poros e nos porões. Tinha um pirão de babar. Tinha um peixe marinado de nome complicado. Tinha uma casquinha de siri que é o orgulho da anfitriã. Isso tudo no meio, porque antes houvera beliscos e depois, feitiços.


Eis que abro a geladeira e deparo com um crime de autoria conhecida. Ali, o corpo de delito jazia num pirex oblongo, envolto em azeite e queijo e coberto por um filme plástico. O espaguete hirsuto não tinha qualquer atração. Brotou-me uma raiva das entranhas, não pela tentativa malsucedida, mas pelo desperdício daquele parmesão para o qual eu imaginara um uso mais nobre. Minha raiva de forma alguma era compartilhada por todos os viventes. No quintal, minhas cachorras manifestavam-se, intuindo o desenrolar da situação.


Eu precisava urgentemente de um plano B.
Ali embaixo, na gaveta, estavam as tetas e pimentões.
Na cabeça, a idéia da moqueca.
Pronto!
Coloquei a nadar uma berinjela cascada e cortada em rodelas de 1 cm de espessura.
Cortei meio pimentão em rodelas finas.
O mesmo com meia cebola e 3 tomates e dentes de alho.
Peguei uma das minhas meninas - assim chamo minhas panelas de barro porque elas ainda são inexperientes, espero que elas transformem-se em senhoras com muitas histórias para contar - besuntei-a com azeite de olivas e fui intercalando: uma camada de berinjela, uma de pimentão, uma de cebola, uma de tomate, até que tudo estivesse acomodado. A cada conjunto de camadas uma salga e pitadas de açúcar. Reguei com novo fio de azeite e verti meio copo de água, tampei e levei ao fogo bem baixo. Cozi e cozi sem mexer, com exceção de umas chacoalhadas carinhosas para não grudar o fundo. Esperei até que a berinjela tivesse mudado de cor. Achei bom colocar uma erva mediterrânea. Fui ao jardim e colhi uns ramos de tomilho dos quais descartei o talo fibroso e adicionei. Desliguei, cobri com queijo muzzarela, tampei e deixei descansar um pouco.


Comi com pão italiano e lembrando da amiga Lucy que como eu, na infância, morou na Rua Madre de Deus no bairro da Mooca desta nossa Paulicéia Desvairada.


 

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Ciro Blasiolli dos Santos

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