Tereza Cruvinel


Wanda teve a idéia de um estalo. Aquele garimpeiro que ela sustentava com sacrifício há cinco anos, mais por piedade do que por acreditar que ele ia torná-los ricos, aos dois, encontrando um diamante nas "catas" do rio Paranaíba, morreria em breve. Não tinha mulher, nem filhos, nem parentes conhecidos. Dizia ter vindo da Bahia em busca da sorte grande em Minas, naquela região onde os diamantes ainda faziam fortunas. Já garimpara para outras pessoas, segundo o costume local de parceria. Para garimpar "à meia" recebia uma compra mensal de alimentos e alguns produtos para as necessidades básicas: um palmo de fumo de rolo, dois quilos de sabão, um sabonete, 5 litros de querosene para a lamparina e, "para esquentar o corpo", dois litros de pinga. De vez em quando, ferramentas novas: peneiras, pás, picaretas. Se ele pegasse o diamante sonhado, dividiriam ao meio o produto da venda.


Como enfermeira da Santa Casa local, Wanda já pedira ao médico para examiná-lo. Tinha as pernas inchadas e reclamava cansaço. O exame de sangue confirmou a suspeita: Mal de Chagas. Nos ranchos de pau-a-pique dos garimpos o barbeiro faz morada cativa, chupa o morador à noite e lhe transmite a doença, o protozoário Tripanosoma Cruzi. Viveria cinco anos, no máximo. Se fizesse um seguro de vida em nome dele, indicando-a como beneficiária única, teria ganho mais certo que o prometido pelo diamante que se recusava a faiscar na peneira. Poderia então deixar aquela cidade do interior onde jamais se casaria, depois de ter tido um filho solteira. Tinha 32 anos e nenhuma perspectiva pela frente, exceto a vida de enfermeira no hospital, onde ajudava como podia os pobres da região. Afinal, depois que fora expulsa da boa família de fazendeiros a que pertencia, só entre os pobres era aceita. Só com eles, basicamente, tinha contato social. Aos vinte e dois anos, bonita mas inquieta, namorara e se deixara seduzir pelo diretor de um circo que se instalara na cidade. Quando se descobriu grávida, o circo havia partido. Quando a barriga cresceu e apareceu, o pai espancou-a e mandou desaparecer da família que manchara.


Uma prima distante recebeu-a, avisando que só por alguns dias. Por ela, ficaria o tempo que quisesse mas o marido era severo e já avisara: só por uns dias, daqui a pouco ela também estaria mal falada na cidade. Apesar disso, fez muito por ela. Amigo e correligionário do prefeito, que era também o médico único da Santa Casa, conseguiu-lhe o lugar de enfermeira. A outra, que lá trabalhara a vida inteira, acabara de morrer. Poderia morar no hospital, ali ter e criar a criança, desde que desse conta de tudo: dos doentes, do atendimento na portaria, da supervisão da cozinha e da limpeza. Outra condição, que nunca recebesse homens. No início foi como encontrar um lar. O menino nascera bem e ia crescendo. Wanda só vivia ali dentro, saía raramente, o que era um alívio. Seu mundo era o dos pobres que freqüentavam a Santa Casa. Entre eles conheceu o garimpeiro, Seu Bento.

Mas com o tempo começou a sentir-se asfixiada, um desejo de ar e de gente. Anseio por uma outra vida, onde não se envergonhasse de nada e ninguém. O dinheiro do seguro seria sua libertação. Iria para Belo Horizonte, onde nunca estivera. Iria juntar-se à irmã mais nova que lá vivia. Dirce, caçula e mimada, passara no vestibular para medicina e o pai, o mesmo que a excomungara, bancava todas as despesas na capital. De suas quatro irmãs, esta era a única com quem mantinha algum relacionamento. De vez em quando, Dircinha mandava uma carta, um presente para o Sandro, que só vira uma vez, escondido da família. Wanda sabia vagamente que ela andava metida em política, participando de passeatas e manifestações contra o Governo militar. Coisa de estudantes. Quando chegasse, viveriam juntas. Com Dircinha conheceria a cidade, poderia montar um negócio, quem sabe uma loja para gente chique. Teria dinheiro para comprar dois apartamentos. Viveriam num, alugariam o outro. Sandro nunca teria pai mas seria gente, iria estudar e se formar. Talvez em medicina, como a tia.
A idéia foi crescendo em sua cabeça e no espaço de duas semanas já estava decidida. No final do mês, quando Seu Bento apareceu para buscar o farnel, disse-lhe que precisavam ir juntos à cidade maior e mais próxima. Estava arrumando uns papéis para que ele pudesse se aposentar, caso a saúde piorasse e ele não pudesse. Ele gostou da idéia, embora jurando que o diamante estava para sair.


Wanda já estivera com o gerente de seguros e lhe explicara que era desejo de seu protegido fazer-lhe um seguro, em sinal de gratidão pelo que fazia por ele havia tantos anos. Lá chegando, não foi preciso conversar muito. O garimpeiro rabiscou a assinatura no contrato de apólice, que era tudo que sabia fazer com uma caneta. De posse do carnê de mensalidades, pegaram o ônibus de volta no final da tarde.
Passaram-se seis meses, oito meses, ela pagando o seguro, e a saúde do garimpeiro não dava sinais de piora. Cortou-lhe os remédios que o médico prescrevera mas isso também não fez muita diferença. Ele agora andava animado porque um camarada de garimpo bamburrara. Tirara um bom diamante, em parceria com um fazendeiro.
O nosso está chegando, dizia ele, com o sorriso desdentado, mostrando as pedras amarelas, chamadas "formas". Quando elas começam a aparecer, o diamante está próximo.


A segunda idéia maligna passou-lhe pela cabeça quando olhou para o corpo da mulher que morrera de madrugada, depois de ter sido levada à Santa Casa em coma, após um acidente vascular cerebral. Era uma indigente, aparecera na cidade na última festa da padroeira, vagara pelas ruas até ser recolhida pela Sociedade Sáo Vicente de Paula. Formolizou o corpo, cortou-lhe os cabelos, vestiu-a como homem e preparou o atestado de óbito. O médico, que confiava inteiramente nela, só viria no dia seguinte. Sempre apressado, nem pediria para ver o cadáver. Deixou o atestado de óbito pronto para ele assinar: Bento Gonçalves Martins, 59 anos. Causa mortis, Acidente Vascular Cerebral (AVC). Se pusesse cardiopatia chagásica, a seguradora alegaria doença pré-existente.

Fez o enterro e dois depois deu entrada no pedido de recebimento do seguro. O dinheiro foi liberando em 40 dias. Não podia partir logo, daria na vista. Esperaria até o final do ano e se mandaria para nunca mais voltar. Nunca mais ser olhada com desdém pelas mulheres casadas e "de bem", algumas, suas amigas de infância. Nunca mais ter que se sentar na última fila de bancos da igreja durante a missa ou as novenas, quando se animava a desafiar a proibição tácita de ir a tais lugares. Nunca mais ser cantada pelos homens casados como se o fato de ter-se "perdido" lhes desse o direito de assediar seu corpo. Nunca mais ter que ir para a cama com o médico-prefeito para garantir o emprego. Nunca mais saber da família que a enjeitara, do pai que a banira depois de espancá-la grávida.

Numa manhã de outubro, fazia um curativo quando foi surpreendida pela chegada de dois homens num opala preto. Apresentaram-se como policiais federais. Vinham de Uberaba e precisavam levá-la para prestar depoimento. Era acusada de ter fraudado um seguro de vida. Fingiu surpresa, dissimulando o frio que lhe percorria a espinha. Nada a fazer, dispôs-se imediatamente a acompanhá-los. Pareciam civilizados. Iria contar sua história: cuidara do garimpeiro durante muitos anos, fora dele a idéia de lhe deixar um seguro em sinal de gratidão. Tudo correria bem, desde que não desenterrassem o cadáver da mulher.
Em Uberaba, na frente de um delegado, foi respondendo às perguntas com a tranquilidade possível. Algum tempo depois ele pediu ao agente que estava na sala: "traga o homem".Entrou seu Bento, pálido e trêmulo. Era o fim. Tudo fora descoberto. Soube que haviam também exumado o cadáver.


Dali foi levada a uma sala gelada, onde lhe tiraram a roupa, deram-lhe socos e pontapés, aplicaram choques em seus mamilos e sob as unhas. Queriam saber do dinheiro, que ela ainda não contara onde estava. Insistia em dizer que o gastara todo saldando dívidas. Se saísse desta, poderia reavê-lo.Salvo uma pequena parte que guardara para a mudança, havia mandado tudo para a conta de Dircinha em Belo Horizonte. A ela, disse que tirara o diamante, mas, não queria que ninguém soubesse. Recomendou que o mantivesse no banco, de preferência aplicado, até que ela chegasse de mudança com o filho. Precisava de algum tempo para deixar o emprego no hospital, encontrar uma substituta, tomar providências. Ali, na pequena cidade, não poderia manter aquela quantia no banco. O gerente comentava tudo sobre a vida financeira de todos.


Quando começou o segundo interrogatório, antes que começasse o suplício confessou tudo. Informou o nome da irmã que estava com o dinheiro, o banco em que tinha conta, o endereço dela em Belo Horizonte. Descansou uma noite na cela fria, deitada sobre um estrado fétido. Quando eles confirmassem que dissera a verdade, deixaria de ser maltratada, talvez permitissem que chamasse um advogado. Seria condenada, certamente, mas tanta gente cumpre pena em liberdade condicional. Afinal, não matara ninguém, a mulher morrera mesmo de AVC. Mas logo pela manhã foi levada à presença do delegado.
Então, hein, uma terrorista disfarçada aplicando o golpe do seguro de vida! Agora vai dizer tudo o que sabe, mas é lá para o DOPS.
Algemada, foi levada de olhos vendados a outro local. Percebeu também que estava num camburão ou no porta-malas de um carro. Quando chegaram e lhe tiraram o capuz, sentiu apenas a luz branca e fria e o primeiro golpe que a derrubou. Perdeu a conta dos acoites, dos choques elétricos e dos afogamentos. Desmaiou. Acordou na cela, suja de urina e fezes. A cabeça vazia, começou a recordar as perguntas que faziam, para as quais não tinha respostas. Onde estavam os terroristas do Colina? Onde e quando seria seu próximo ponto, seu próximo contato? Onde haviam enfiado o dinheiro do último assalto? Onde andava sua irmá e seu companheiro Joca, que haviam perdido de vista há alguns dias? Seus silêncios irritavam os dois homens. Se dizia nada entender do que estavam perguntando, ficavam ainda mais irados e as agressões recomeçavam. Desmaiou quando lhe aplicaram duas palmadas simultâneas nos ouvidos. Na cela, para onde fora levada desacordada, os pensamentos começavam a clarear quando foi buscada novamente. O inferno recomeçou. Já não sentia nada quando, numa sequência de choques, notou que o sangue se avolumava em seu peito e por instantes pensou que iria explodir. Logo depois um branco ainda mais intenso tomou conta de tudo, sentiu que levitava num túnel luminoso ao final do qual havia uma saída. Deixou-se levar, aliviada.


Seu corpo chegou à pequena cidade num camburão preto que se dirigiu à delegacia. O boato logo se espalhou. Os policiais do DOPS informavam que, descoberta a fraude do seguro e suas conexões com os terroristas de Belo Horizonte, ela se enforcara com a mangueirinha do chuveiro da cela. Que chamassem a família e entregassem o corpo. Já iam saindo quando um deles se voltou e disse ao delegado, que a conhecera desde criança.

Ia me esquecendo. Aqui está o laudo do IML, atestando a morte por suicídio.

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Tereza Cruvinel
É jornalista, com graduação e mestrado em Comunicação Social pela Universidade de Brasília, colunista política do jornal O Globo e comentarista da TV Globonews. Atuando no jornalismo político desde o início de sua carreira, trabalhou na TV Brasília, Jornal de Brasília, Correio Braziliense, Jornal do Brasil e O Globo. Como repórter, cobriu o processo de transição política, os movimentos pela redemocratização, a abertura do regime, a campanha pelas diretas e a eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral. A partir de 1986, passa a escrever de terça-feira a domingo a coluna "Panorama Político", onde combina análise e informação política, com foco no processo governamental e legislativo.
Em 2002, ganhou o Prêmio Unisys de Jornalismo por seu trabalho em favor da inclusão digital.

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