| Cantiga
de passada
(Margarete
Jung, Vany Grizante, William Silva)
Assim
como uma betoneira,
meu coração revolve sentimentos
ambidestros nesta sexta-feira.
Não consigo concentrar minha atenção
senão na paisagem da janela lateral.
O
céu me dá vontade de voar pardal
ou de amar uma andorinha;
o chão lá embaixo me deixa divagar:
"se essa rua, se essa rua fosse minha..."
e
se por essa rua passassem teus passos
ansiosos, rápidos, seguindo os meus
mais pelo cheiro que pela visão
mais pelo desejo que não...
e
se todas as noites terminassem em sextas-feiras
e se todos os ladrilhos de nossas ruas ladrilhadas
levassem-nos sempre até nossa cama
(lençóis amassados de se amar)...
O
sábado se abriria em pétalas e bandeiras
e o cortejo das pessoas apressadas
abriria espaços em seus passos inscientes
(e sorrisos em suas bocas indiferentes)
a pardais e andorinhas a voar.
Primeiro
de Setembro
(Margarete Jung)
Os bicos
de meus sapatos
estavam molhados
por causa da chuva.
minhas roupas, meus cabelos,
em desalinho...
Mas mesmo assim
ele me olhara
com ternura
com os mesmos olhos
de quem vê e se apieda
de um passarinho caído do ninho.
E
embora não parecêssemos
personagens de filmes
houve suspiros
gemidos
palavras de carinho...
E gota a gota,
bebemo-nos um ao outro
em êxtase profundo.
Caminho
do vento, balé da brisa
(Vany Grizante)
Jogue para o alto, e o que for
cairá a seus pés sem piedade,
quando não sobre sua cabeça:
é
a força da gravidade.
(Mas
nada é tão grave a ponto
de justificar esse acidente.
Melhor deixar para trás,
talvez olhar para a frente...)
Ou,
melhor ainda,
olhar para cima
em busca das estrelas:
se
elas caírem,
faça um pedido.
Nem será preciso entendê-las.
Ohlepse
on oxelfer
(William Silva)
A hora do relógio refletida no espelho é invertida.
É o retrotempo.
Lá também serão antípodas
atos, fatos e sentimentos?
Quem sabe, nosso fim não seja a morte,
mas sim o nascimento?
Urge rearquitetar a álgebra
para se navegar com as coordenadas
de um mapa projetado!
Meras divagações...
Eu, com novas tintas, recém-canhoto,
de cá, vejo lá minha mão desenhar
uns riscos em seu corpo nu afora.
Agora, já não importa a direção,
pois todos os caminhos levam a Roma sempre.
Roma, que é "amor", escrito de trás para frente...
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