Infância

Marlon Macarini

Há muito procuro um sentido às estrelas...
De tanto querê-las em noites da infância,
Busquei apalpar-lhes, meus olhos fechados,
Co'os dedos armados, pueril mendicância!

Sentia, entretanto, brumosas centelhas,
Brilhando vermelhas, nos toques dos dedos...
E cria enxergar coloridos afagos,
Co'os olhos bem vagos em negros degredos!

Criança pudica de flavos desejos,
À flor dava beijos, estrelas queria...
Na dança co'as moças, ciranda, cantava,
E olhares trocava, no Deus também cria...

Tão doce a lembrança de tempos passados,
No amor abraçados os jovens de sorte,
Mas hoje morreram os veros carinhos,
E brutos, sozinhos caminham à morte!

Porém tão distantes, as moças dos céus,
Com seus alvos véus, se me mostram alhures...
Os sonhos morreram, os ais me consomem,
É triste ser homem vagando a nenhures!

De estrelas ao Nada tracei meu destino,
E desde menino dizia a meu fado:
- Não quero ser grande, o mal lá se apodera!
E co'esta quimera cresci segregado.

E quando me lembro dos velhos fantasmas,
Dos largos miasmas embaixo da cama,
Recordo da mãe de mamãe, que dizia:
- O medo resfria, no entanto ele é chama...

Agora sou grande, conheço vis medos,
Do humano os segredos, da morte as querelas,
Mas não aprendi a agüentar os meus ais,
E estrelas não mais procurei entendê-las...

Soneto XLIV

Ouvi que chamavam, e a voz pra mim era,
Foi quando, nervoso, sorri, pois, relembro,
Estava, sozinho, a pensar em setembro,
O mês nascedouro da amante quimera!

Sentado, sisudo, num banco à espera,
Num dia brumoso do mês de novembro...
O amor, a canção que eu agora não lembro,
Estavam à espreita da minha paquera!

Tu vinhas tão moça bailando os segundos
Co'os olhos guardando segredos profundos,
Trazendo em teu colo a verdade do amor...

E tinhas, intensa, o silêncio das águas,
que enquanto tu vinhas morriam-se as mágoas,
morriam-se frágeis meus elos co'a dor!


Soneto XLVII

"O verso primeiro, pois veja, eu consigo...
não muito esmerado, bem sei, não importa!
à forma não ligo, aliás, resta morta,
a métrica, a língua afundei num jazigo!"

Mas como, não vês a beleza no antigo?
Tu pensas que a forma pilhérias comporta?
Um belo soneto a tod'alma conforta,
Já versos disformes lhes são um castigo!

Amigo, se buscas mudar um sistema
No qual versejaram o branco e o preto,
O augusto, o menino, o vetusto, o doutor,

Transforme a história e reescreva o poema,
Pois digo, se queres tecer um soneto:
Vontade é preciso e também mui suor!


Soneto XLVIII

Eu quero dançar sobre as vagas certezas,
Desnudo da rota e malquista aparência,
Eu quero ausentar-me das vãs naturezas,
Bebendo da vinha o elixir da existência.

Eu quero descrer que a mundana vivência
Apenas retrate a doença às belezas,
E assim separar-me da inerte ciência
Que julga nos dar a melhor das proezas.

Eu quero no outono florir de saudades,
E dentro das almas das tenras idades
Deixar-me e buscar-me no eterno retorno...

Pois quando cansado da dança das horas,
Só quero ao meu lado pudicas senhoras
Cosendo em meu rosto à fortuna o contorno!


Soneto XLVI

Trouxeste-me à vida deixando de lado
Passados eivados na mor dor possível...
Onde eu, atracado num porto infalível
Saudava alvos mares estando ancorado!

Doridas marés percorri silenciado
Nas cordas do medo de amar o intangível,
E agora vieste, tal brisa inaudível,
Cortando-me os laços da morte co'o fado!

Sem pálidas dálias dizendo-me adeus,
Ou aves marinhas, meus olhos cingindo,
Navego liberto nas águas dos céus...

E quando me dizem, "enfim tens a glória,
Conheça outros mundos!" Respondo, sorrindo:
- Só quero um amor... uma vida... uma história!

 

Marlon Macarini

Nasceu em Criciúma/SC, há vinte e um anos, mas lendo seus versos, tem-se a impressão de que ele sempre vagou por essa terra desolada, sempre em busca do inalcançável. Nada é superficial em sua poesia, como poderia sê-lo, tendo como influência Petrarca, Camões, Dante e o desgraçado Augusto dos Anjos? Hoje, são poucos os poetas que estão à altura de suas inquietudes, ou que, pelo menos, andam lado a lado com ela. Marlon consegue isso, por isso, talvez, ele faça parte dessa espécie de escritores que lamentamos só encontrar muito raramente, mas nos quais não paramos de pensar e que gostaríamos de compreender ou pelo menos de adivinhar.

A. D. Gluzezak, poeta, autor do livro Desassossego.