OS ANJOS DE GOMORRA

Geraldo Vasconcelos
para Roberto Piva

Eu vi os anjos de Gomorra
enquanto meu Orfeu e meu
Virgílio digladiavam-se por mim
O tempo era manhã quando o horizonte
fez-se abismo no espaço & a extravagância
do sol atravessou-me os poros das minhas
córneas me fazendo ver suas sombras noutras
sombras


Eu vi os anjos de Gomorra em êxtase
carnívoro com a leitura que eu fazia
em voz alta da poesia de Villon &
Roberto Piva


Eu vi os anjos do Gomorra tripudiando
das asas de sal em brasa do anjos
de Sodoma


Eu vi os anjos de Gomorra tresvoando
zombeteiros e de seus pênis hediondos
& suas vulvas guturais frutificava a
Salvação


Eu vi os anjos de Gomorra rugindo
cantares inorgânicos & estrepitando
homilias de fogo-fátuo com suas
vozes de turbinas canibais


Eu vi os anjos de Gomorra despindo-se
de si e comungando seus corpos de
espinhos afiados no alto dos pavimentos
pardos de basalto


Eu vi os anjos de Gomorra celebrando
beatificação de um urubu universitário
de plumagens retalhadas


Eu vi os anjos de Gomorra velando
a carcaça de um Deus arrependido

Recife-PE, 15.11.05

 

Geraldo S. de Vasconcelos
Nasceu em Jataí (GO), em 1984. Estudante universitário, cursa Direito em Recife (PE). Influenciado por leituras de Friedrich Nietzsche, Castro Alves, Augusto dos Anjos e Fernando Pessoa, começou a escrever em 1998 e desde então continua aprendendo a fazê-lo. Leitor de Pablo Neruda, Georg Trakl, Paul Celan, Friedrich Hölderlin e Heinrich Heine, nada ainda publicou de seus poemas, mas já trabalha em seu primeiro livro, Primeiros cadernos (lançamento previsto para o inverno de 2005). Sua escrita é marcada, particularmente, pelo lirismo, pela metalinguagem e pela exploração de temas filosóficos (existenciais e lingüísticos), sempre atento aos aspectos estéticos e técnicos do texto.

 

 

 

 

 

 

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