POEMA DE UM AMOR LOUCO


E nesta tarde eu me embriago de cerveja
E penso nas pessoas nas ruas
Nos carros nas avenidas
E os anjos do céu não movem montanhas

É nesta tarde vazia, obsoleta
Crepúsculo dos deuses sem morada
Sou mais um na marginália
Um pássaro caindo do céu
Sem a piedade e a clemência
Com a dor e a tristeza apenas

Quem me dera vagabundear pelas ruas de Los Angeles
Orgulhoso e maldito
Ao teu lado
Bukowsky
E correr e quebrar todas as placas
Beber e trepar com todas as putas
Morrer e matar nos bares de esquina

Quem me dera te encarar
Assim como a vida me encara
E não chorar e não sofrer
A morte é nossa única certeza
Enquanto grito e bato no teclado da máquina
Derramando sangue sobre o tapete


Eu poeta louco
Perdido
Enquanto a tarde passa embriagada

A vida é uma questão de estilo


MIDNIGHT BLUES


O retrato estampado na parede
Como a mostrar seu olhar assustado
Na minha casa de perfumes baratos
E eu longe do sonho que carrego
Obstinado ao encontro do desejo
Preso ao laço do teu olho

Midnight blues
Há pedaços da noite no meu quarto
Midnight blues
Há um brilho estranho nos meus olhos

A morte ronda a minha entrada
Nos pórticos sem luz da minha alma
Há silêncio, e um enorme vazio
Inunda de repente a madrugada
Dos meus símbolos construo a mensagem
E me preparo para a hora que é chegada

Midnight blues
Não há sorriso na tua boca calada
Midnight blues
Há um brilho estranho nos meus olhos

Entre a dor e essa distância
A solidão de um dia vazio
Que nossa tristeza não seja vã
E massacrada pelas filosofias
Descubra uma ajuda, um auxílio
Do lugar que mais queremos
Que está dentro de nós mesmos

Midnight blues
Quem decifrará sua face oculta ?
Midnight blues
Há um brilho estranho em nossos olhos


MANTRA

O que devo fazer
Se um dia
A vida me negar
Um dia de fartura
É ter tua ternura
Ao meu lado

O que devo fazer
Se um dia
A vida me jogar
Na cela de tortura
É ter na aventura
O gozo inacabado

O que devo fazer
Se um dia
A vida me matar
No banco do cinema
Ou numa rua escura
É ter a carne dura
Apodrecendo
No caminho da calçada


KAVALEIROS DO KAOS


Eles chegaram
Como quem chega de uma longa viagem
Trazendo histórias e saudades
Perdidas
No caminho inevitável das horas

Eles, unidos
No laço forte das idéias libertárias
Na necessidade de quebrar todas as placas
marchando imponentes no centro da cidade

Eles, partidos
Na insensatez que domina as pessoas
Nos abraços de faca e de corte
Da rua cheia vazia infinita

Eles voltaram
Nos escombros lançando sementes
Guerrilheiros de um mundo urbano

Entre o racismo e o pós-moderno
Como cachorros vadios
A mijar na porta das igrejas.

 

Fred Matt é carioca e historiador. Poeta, contista e ensaísta, publicou o livro de poemas "Kavaleiros do Kaos" (Edição independente, 1986). Ultimamente, pesquisa o pensamento conservador no Brasil.