A última Ceia


Há regras à mesa
como em um brinquedo
de quebra-cabeça.

/ E eu não entendo
os dispostos à esquerda

dos pais.

Restos do pequeno
que sentavam ao meio

da mesa (como prato
que se enche
e procura lugar entre
as pessoas). /

Já não me encaixo
depois que aprendi
a olhar de lado
e sair por baixo.


Idéia de Família


Não herdei de meu pai
as neuroses de família.

Mas via na colher de pau,
à espera do vinho
que toda noite ele bebia,
o pouco que seria.

Era mais que uma colher,
sua primeira função foi ser
palmatória para meu avô.

Meu pai achava
que assim beberia
um pouco de suas mãos.

Para mim a colher voltara,

como castigo.

Quando meu pai morreu,
agarrado à colher de pau,
não deixou o seu sangue.

Já fora tarde,
e tudo aquilo tornara-se

vinagre.

Ovo


A manhã. A solidão. A fome.
O ovo.

A tarde. A tristeza. A fome.
O ovo.

A noite. A dor. A fome.
O ovo.

Os dias todos. A fome.
O ovo.

Os anos voam. A saudade. A fome.
O ovo.

As bodas de ouro. A despedida. A fome.
O ovo.

A velhice. A morte que chega,
Oferecendo um último banquete.
Peço ovo.

Se pudesse faria tudo de novo.
Como ler de trás para frente - ovo.

Temporada


Um pássaro sem rosto, um pelicano,
caminhava sobre o mar, esfregando
seu frágil corpo de ave. A sua carne.

Esfregando seu corpo, por vaidade.
E não o viam, ou o sabiam como,
ou de onde seria o cair de sua tarde.

Caminhava sobre o mar, sem rosto.
Arrancando carne do peito, posto
fosse esse o seu dever. Seu sangue.

Arrancando carne de seu peito,
(não sendo mais que obrigação
ou algo que qualquer pelicano
teria feito) voltava de seu mar.

/ Para sempre a sua função /

Nunca nada mais que outro
não teria feito, não. Sem rosto
caminhava sobre a margem.

/ Nunca nenhum horizonte,
bem que o mar fosse todos /

E para além de nenhum rosto,
No vermelho da tarde, do sangue, da carne,
Arrancara alguma maquiagem.

/ Logo lavada pelo mar, sua função. Por sua
margem. Por sua própria impossibilidade.

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Eduardo Lacerda
Poeta, graduando em Letras pela Universidade de São Paulo. Editor da Revista Literária Metamorfose, revista literária do Curso de Letras da Universidade de São Paulo.