usos do garfo e faca

pedra areia cimento

os usos do garfo e faca à mesa
não será mais opcional
durante a segunda metade do século XXI

teremos diplomas de civilidade
sopraremos as velas do bolo à tarde
desfiaremos rosários de contas indianas
crucificaremos um cristo todas as manhãs
que morrerá ao meio-dia
e ressuscitará às 17h em ponto
para sentar à mesa do chá

haverá toalhas brancas
para que possa verter o sangue
e nos redimir de nossos pecados

à noite tomados de horror e fúria
o açoitaremos quase á morte
para o crucificarmos no novo dia

eu Prometeu e abismo

quem me deu
este presente
no precipício e princípio da escuridão

o prêmio maior
o olho de Hecate
o sinal do prana
o dente de prata do Enganador

o sussurro de Hermes na derradeira hora
o perdão daquele que fere
o que olha do abismo de volta

quem me pode responder de pronto
qual o medo que carrego agora
por trás da cortina de contas ciganas
do aço vagabundo
dos escapamentos das motos na hora do rush

quero dar baforadas aos espíritos
dar forma aos meus fantasmas interiores
encontrar o caminho da luz
quando for a minha verdadeira hora

qual o anjo que por piedade de nossas penas
verteu lágrimas negras
e pecou por amor?

eu Prometeu e abismo
curei Zeus em seu leito de morte
cobri aos cacos de vidro minha cama de núpcias
beijei com volúpia a morte


Pandora

será sempre a mulher
Pandora de seus segredos?

a caixa de guardados
carrega sempre um mal
que inoculado à humanidade
trará o movimento

a cura de todos os males
a epopéia de heróis
a egrégora da luz
o beijo da morte
são femininos

domará a fêmea
o macho de toda a espécie
amansará o dragão
amassará o pão

para que eu coma
junto com a erva amarga

turmalinas

outros temores
decorrem dos tremores
precocemente rotulados
o suor na testa
risco na maquiagem
a máscara derretida

teus olhos transparência de duas águas marinhas
os meus, turmalinas negras e opacas

Saturno busca o passo
a ponte
cristal do leito
do magma ascendente

o seixo rolado no rio
traz apologias aos deuses
calcedônias na calçada
esmero e esmeril

o zimbro tempera o álcool
duas gotas de verde
os galhos/agulhas do pinho

a resina queima
como lenta a pele
e eu acaricio os teus pelos
na esperança que seja breve


cães

ao se perseguir o olho
até o âmago da navalha
verás refletido no aço
o negro puro e vazio

o líquido correrá até a base
dos candelabros
acesas as velas
marfim e ébano no suplício

cães correm e ladram na noite
uma velha cadela
uiva chora de dor de ouvido
olvidada em sua ação atroz

de não permitir
em sua inquietação

nossos sonos tranqüilos


e outra

há mulheres que me seduzem
o tempo todo
com movimentos e cabelos
e formas insinuadas e dobras das roupas

e outra que só
quando acordo
no vazio escuro da noite
a abraço terno e forte
e me corresponde

estas outras que me encantam
estão em toda a parte
subindo nos ônibus
descendo escadas
lendo distraídas enquanto tomam um café

e como menino travesso
as observo de longe
como coletor de borboletas
prendo imagens em sinapses

a outra
esta que realmente me encanta
está em mim costurada
à pele e pelos pubianos
ao dorso e colo o cheiro de fêmea

a esta que chamo de amor
que elegi como Deusa
a esta dedico meus ais
pois esta é a outra

de todas as mulheres do mundo


um velho amigo

um velho amigo
estes das antigas
me bateu à porta

portava óculos escuros
cabelos despenteados
e um olhar no vazio

me falou do presidente
e da crise política nos jornais
(qual crise?
algum dia não houve uma crise qualquer
para alguém ganhar algum dinheiro?)

esse nós elegemos
tomamos pauladas da polícia
e o carregamos nas costas na praça

a revolução morreu em nós
estamos um tanto combalidos
ficamos anosos
assim como nossos sonhos da adolescência


velhos amigos são momentos perigosos
o tempo da segadora cada vez mais próximo


a letra A

a letra A
que contém seu nome
nomina o princípio
de tudo

como A que carrego nas costas
ainda não impresso

existem chifres de boi
no interior de toda a Deusa
menarca da terra
com a qual recobrem os inanimados

não se esqueça
que olhos de águia
do céu o espiam


chumbo original

dá-me uma só tigela de fogo
destas mãos crispadas
toma
de pedra sólida
ao chumbo original

do caldo que desce
à garganta
bebendo gelo e pedra
às gretas fecha
conforme se convém
a etiqueta dos ossos

sorve lento e gradual
o que torna a ouro
todo o metal

ilude-se quem sabe
o ignorante mais
o iônico líquido
desfaz-se em luz

 

Edson Bueno de Camargo, nasceu em Santo André - SP, em 24 de julho de 1962, mora a partir de seu segundo dia de nascimento emMauá - SP.Publicou: "Poemas do Século Passado-1982-2000" edição de autor; "Cortinas", com poesias suas e de Cecília A. Bedeschi; participou das antologias poéticas "As Cidades Cantam o Tamanduateí que Passa." da Prefeitura do Município de Mauá e "Poesia Só Poesia" Editora Novas Letras. Junto com os amigos escritores da Oficina Aberta da Palavra, grupo de Mauá-SP, edita o fanzine aperiódico "Taba de Corumbé".
Participa do grupo poético/literário Taba de Corumbé, do qual por aclamação foi intitulado Cacique e das aulas embrionárias da Escola Livre de Literatura de Santo André-SP, como aprendiz de mundo.

Edson Bueno de Camargo
Rua José Cezário Mendes, 104 Vila Noêmia - Mauá - SP - Brasil
CEP - 09370-600

correio eletrônico: camargoeb@ig.com.br

www.secrel.com.br/jpoesia/ebcamargo.html
www.paralerepensar.com.br/link_edsoncamargo.htm
http://www.ocaixote.com.br/caixote18/18cx_poemas_edson.html
http://www.ocaixote.com.br/caixote18/18cx_artigos_edson.html
http://www.pd-literatura.com.br/especiais/mar.html#ebcamargo
http://www.eldigoras.com/eom03/indic/buenodecamargoedson.htm