O Pássaro Equilibrista

(Eu e o meu amor à beira do lago...)


Na fragilidade de uma haste de capim
Pousa um diminuto pássaro ligeiro.
E bate o vento, e agitam-se as águas
Mas o pássaro é equilibrista, permanece...

Uma, duas, três... quatro vergadas
Dá o ramo, chega a tocar a água;
Quase se afoga o ousado pássaro,
Mas do ramo só voou quando quis!

Pousado na minha frágil humanidade,
Agarro-me em finos ramos de esperança;
E se asas não tenho para voar,

Não importa, não me desespero;
Minhas pernas, para que vos quero
Senão para correr para o meu amor?!

[Penas do Desterro, 11 de setembro de 2001]


Um tango para mim

Passa da meia-noite... desperto, e estou só.
O escuro mata-borrão do teto do meu quarto
Suga-me o olhar interrogante;
Ansioso, escavo o ar... e nada!

Cavernas vazias, labirintos escuros -
Esta noite não promete nada!
Fugindo ao torpor que me trava o corpo,
Levanto-me, vou até a geladeira;

A cerveja gelada virada na goela,
Líquido derramado na areia escaldante,
Desce por minhas entranhas
E acorda-me reclamos do corpo;

Essas veias pulsantes... É uma pena, pena mesmo,
Esta noite assim, cálida, mas tão sem rumo!
Não há nada a fazer... ou há?!
Sobra-me ânsia, falta-me objetivo!

Indócil, decido que algo deve ser feito;
Faço então, um trato com o demônio -
Ponho um tango para tocar!
Visto uma camisa branca, ajeito os cabelos;

Um toque de perfume, um aprumo do corpo;
Narinas abertas, desço as escadas: estou à solta!
No vento noturno da invernada, o almíscar irresistível;
As ruas, os bares me chamam - Cavalo da noite eu sou!

[Penas do Desterro, 15 de janeiro de 2001]



Morada do Desejo

O desejo grassa na fome dos olhos,
Cria-se no encontro de olhares oblíquos;
Dar seqüência e ir às conseqüências
Só a muito custo se consegue evitar!

Mas há uma condição:
Só se pode fruir a fome do desejo
Se também somos objeto de um desejo!
Nada mais doloroso que o solitário uivo

Noturno da carne, o sôfrego desejo
Não aplacado, o corpo que não encontra
O corpo, e assim, não pode perder-se,
Cessar de ser-se, no corpo desejado.

[Penas do Desterro, 17 de junho de 2002]

Ousadia


(Esses teus oblíquos olhares...)



Ah... você, que eu tanto desejo,
Mas ainda não posso tocar! Cruel,
Negas aos meus lábios a veludez de tua pele,
Vedas-me o fetiche de beijar-te os pés!

Diz-me a timidez que eu desista,
Que é totalmente impossível,
Que já tem dono o teu olhar,
Que não és para o meu bico;

Que estás fora do meu alcance,
Que não desejas mudar de mão.
Porém, ofídica, a minha intuição ousa:
Nada disso conta, nada disso importa!

Não pode a razão impedir que eu faça
O meu investimento, arme o jogo,
Ponha as minhas fichas na mesa,
E vire a sorte a meu favor!

Almejo viver a impossibilidade:
O muito difícil, o quase inacessível,
Também pode ser meu; por que não?!
Você ainda há de amanhecer comigo!

[Penas do Desterro, 26 de maio de 2002]




A Flor Impossível

Essa minha algidez, essa hesitação -
Teus olhos me dizem que sabias:
A minha estrada era árdua,
E eu não caminhava só!

Era ainda outono... e chegaste:
A tua imagem tentadora apareceu-me
A leste da região mais escura
Da sinuosa trilha de angústias

Que eu vinha palmilhando -
Surgiste em meu caminho
Como a estrela do suave amanhecer...
Os deuses são irônicos,

Pois me trazem uma flor assim,
Cheia de cuidados, de precauções,
E com presságios de mais espinhos;
És uma flor cujas pétalas jamais verei

Na pálida luz das madrugadas,
Nem tampouco as verei orvalhadas
Na brancura da pátina da manhã;
Eu sei que devo resignar-me:

Tu és uma flor que nunca verei
Sorrir-me ao sol nascente!
Ah, tem razão o divino Platão:
Não se separa o prazer da dor, nunca!

[Penas do Desterro, 11 de maio de 2002]

A viagem impossível

Chamaste-me... impossível não transgredir!
Como resistir à envolvência de tua voz macia,
Se o meu corpo não mente o frêmito do desejo?
Na ânsia de tocar-te, rompe-se a dureza da realidade;

Não há mais paredes, não mais existem fios
Que estendem a distância que nos separa!
Agora é agora - o momento é só nosso,
Somos apenas os dois, ali naquela calçada.

Sob a ramagem da alamandra derramada sobre o muro,
Seguro as tuas mãos e giramos num alegre rodopio,
Na magia vertiginosa de um vórtice de brumas
Que nos transporta para onde os limites se esboroam.

Cedem as amarras, fracassam os derradeiros esforços
De nos agarrarmos às cedentes franjas da razão;
Nossos corpos tomam-nos as rédeas,
Arrancadas num ímpeto, as roupas caem no chão!

Lateja nas veias o desejo que incendeia as faces,
As línguas tentam o impossível entrelace,
As mãos percorrem nos corpos a palpitação do prazer;
Não há como esperar mais; é impossível conter

O embate selvagem que funde os nossos sexos;
Partimos numa cavalgada para o infinito,
E lá nas alturas, o frêmito do gozo - o êxtase!
E enfim, nossos corpos tombam langues, langues...

[Penas do Desterro, 28 de fevereiro de 2005]

 

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Carlos Rodolfo Stopa

Sou de Araguari - MG e desterro-me em São José dos Campos - SP por via de conseqüência do meu [antigo] erro de profissão: tanto me emaranhei nas escolhas, tantas voltas dei nesta vida que acabei por me tornar PhD em Física Nuclear nos USA! Porém, eu digo: é sem mágoas (apenas uma ligeira meia-mentira...) que eu escrevo! É claro: tudo vem de meu universo de referência, da minha velha Minas que me plange!
Se eu merecer um comentário, por favor, esteja a gosto:
amanhece@yahoo.com.br