| CENA
DO DESTINO
Um vício
ao meu redor
um erro corroí
o mundo
do outro lado
incomunicável.
A paisagem
atrás da noite.
Segredos.
A CLARINETA DE CAROL P.
Não era a clarineta
da tela de Braque
desmontada
fragmentada
guardada
em silêncio
como uma imagem cubista.
A música escorria
do semblante da moça
molhando
a noite do museu.
Quando o rasgo da roupa
deixa florescer
uma essência oculta
sublime é a pele
que se mostra
gentil é a natureza
com a mulher
que passa
livre e solitária
provocando quem a olha.
ENCONTRO
O olho caça
na mata
abaixo do umbigo
um abrigo
secreta pátria
a língua avista
bem no centro
do jardim de pelos
o lugar
caverna
doce e úmida.
PARADOXO
O infinito reclina
e adormece
na solidão dos enigmas.
As manias gregas.
O mármore das imagens.
Mitos e estátuas
que desafiam
o vazio e o abstrato.
Verdades,
dúvidas de ninguém.
Uma voz esquecida
sussurra em vão
erro volátil
examina o infinito
no fluxo do vazio
vai mais longe
que o abstrato
autor anônimo
sem texto.
Segredo perdido
ausência
a palavra narra
o azul - talvez
esvazia
conduz ao silêncio
absurdo
carne congelada.
OBSCURO
Risco na pele
fala que preserva
rumor do inevitável
um lugar
antes do texto
olhos que fustigam
o horizonte
e nada mais.
OBSCENO
A lua fria ilumina
onde o escuro
desconhece
o sentido das coisas
a noite amedronta
o desejo tomba
vaza
hesita
a poesia chega
ao fim.
NA ESTAÇÃO
Revelações do calendário
lembranças do tempo
as rugas descortinam
rabiscos da insônia
uma música desconcertante
um ponto ou uma fuga.
PONTO DE FUGA
Que indagação faz
o umbigo feminino
quando aparece entre
uma peça e outra
da veste?
Intimidade
sensualidade.
Nem mesmo
a musicalidade dos pelos
é maior que o apelo
da cicatriz do nascimento.
UMA PAUSA
Na paisagem oculta
da noite
a indecisão
um livro, uma canção
um blues.
O que a fala
não revela
o pulsar do ciúme
sem destino
último instante
um diário ferido. |