.

 

 

Alfredo Ceschiatti
Vera Brant


Aquela figura discreta, quase sempre só, andando vagarosamente entre os poucos prédios da Universidade de Brasília que acabara de nascer, olhando além das pessoas, me impressionou e comoveu, desde a primeira vez que o vi.

Ele era professor do Instituto Central de Artes, juntamente com Athos Bulcão, Alcides da Rocha Miranda, Glênio Bianchetti, Carlos Scliar, Cândida Sardinha, Marília Rodrigues, Zanine, Léo Desheiner, João Evangelista, Maria José Costa Sousa (Zezé), Hugo Mund, Amelinha Toledo e Klaus.Numa tarde, na Reitoria, o conheci. Ele dava a impressão de que não estava tomando conhecimento do que se passava ao seu redor. Olhava sem ver, ouvia sem prestar atenção. O seu espírito ficava vagando, divagando.

Quando o conheci melhor e ficamos amigos, percebi que era uma pessoa extremamente tímida, bondosa, generosa, leal aos amigos e muito admirado pelos alunos.


Desde a Igreja da Pampulha, em Belo Horizonte, trabalhou com o Oscar Niemeyer, enfeitando, com as suas belas esculturas, os palácios, igrejas e monumentos, verdadeiras obras de arte desse arquiteto extraordinário, orgulho de todos nós, brasileiros.


Veio o golpe militar e passamos a nos reunir, constantemente, juntamente com um grupo de amigos, buscando proteção, conforto e apoio.


Daí em diante, nunca mais nos separamos.


Durante anos e anos, Ceschiatti, Athos Bulcão, a Zezé e eu estávamos, sempre, juntos.


Quando ele foi demitido da UnB, voltou a morar no Rio mas, constantemente, vinha a Brasília.


Até que decidiu comprar um apartamento pequeno, de dois quartos, para passar temporadas aqui.


Almoçava na minha casa quase todos os domingos, juntamente com o Athos e a Zezé. Os papos eram ótimos. O Ceschiatti era muito engraçado. Contava histórias com muita graça, muito humor.


Cozinhava maravilhosamente bem e, às vezes, o almoço do domingo era no seu apartamento e ele mesmo fazia pratos deliciosos. E ficava na maior felicidade, ao receber os elogios.

Quando comprei o Anjo, miniatura do Anjo da Catedral, discutíamos, ainda no apartamento da SQS-111, se ele seria de alumínio ou de bronze.


O Athos dizia que teria que ser de alumínio, para ficar leve e poder ser colocado apenas com um pino nas costas, como se estivesse solto, voando.


O Ceschiatti e eu queríamos de bronze.


O Athos disse:
- Vai ficar muito pesado e, só com um pino, pode cair e matar o vizinho de baixo.
Eu disse:
- O vizinho de baixo é um coronel.
O Ceschiatti decidiu:
- Então, vai ser de bronze.
Era mentira, o vizinho era médico.


Certa vez, num almoço em que estavam: Tom Jobim, Aninha, Darcy Ribeiro, Athos, Zezé, Tônia Carrero, Paulo Autran, Annick, Marly de Oliveira e mais alguns amigos, o Ceschiatti contou que, quando menino, era retardado. Não entendia nada de nada, errava tudo. Era uma dificuldade, na escola. A professora escrevia uma palavra, ele lia outra, completamente diferente. A mãe conseguiu uma psicóloga, que ele ia ver duas vezes por semana. Tinha que pegar dois bondes, a psicóloga morava muito longe. E ele já ia triste, sabendo que não iria aprender nada e que a mãe voltaria desapontada. Falou isso com os olhos cheios de lágrimas. Sempre que falava da mãe, que ele adorava, os seus olhos ficavam molhados.


Quando a grande educadora russa Helena Antipoff foi chamada a Belo Horizonte, pelo Governador Antônio Carlos de Andrada, para a implantação de reformas do ensino em Minas, criou uma escola para crianças chamadas retardadas, os pais do Ceschiatti levaram-no para lá.


Ele estudava com dificuldade, mas desenhava muito bem.


Vendo-o desenhar, certa vez, a educadora Helena Antipoff disse-lhe:
- Faça um cavalo.
Ele desenhou.
- Desenhe uma águia voando.
Ele fez. Ela se maravilhou:
- Meu filho, você não é retardado, não, você é um gênio!
O Ceschiatti, olhando-a bem nos olhos, exclamou:
- Vá convencer a minha família!


A partir daí, a excelente educadora passou a dar-lhe uma especial atenção e conseguiu desbloquear os traumas todos. Ele começou a estudar e ler corretamente. Além do português, estudou francês, italiano e um pouco de inglês. E passou a ler e escrever muito bem. Mudou-se para o Rio e estudou na Escola de Belas Artes. Desenvolveu o seu talento artístico tão bem que recebeu o Prêmio de Viagem, com uma bolsa de estudos para a França e Itália, onde aprimorou, mais ainda, a sua arte.


Vendo e admirando as minhas esculturas, o Juscelino pediu-me que falasse com o Ceschiatti para fazer uma Santa Júlia em homenagem à sua mãe, Dona Júlia.
Quando liguei e dei o recado, ele me disse:
- Não vai dar não, Vera. A Dona Júlia tem um queixo muito grande e a escultura vai ficar muito feia.
- Mas não é a Dona Júlia, Ceschiatti. É a Santa Júlia.
- Não existe. Nunca existiu.
- Como não existiu se todo mundo reza para ela?
- Vou ver. Vou fazer uma pesquisa.
Dias depois, me disse:
- Vera, a Santa Júlia existiu, sim. Nasceu e morreu em Livorno, na Itália, adivinha como?
- Torturada.
- Pior.
- Pior do que torturada? Isto existe?
- Morreu na cruz, Vera! Como é que eu vou fazer uma Santa na cruz, com saia e tudo? Não vai dar, não.
- Calma, Ceschiatti, vamos meditar. Por quê você não faz a Santa antes de morrer, que fica mais bonita, e não coloca uma cruz na sua mão, como símbolo?
Fez e ficou lindíssima.


A do Juscelino era de alumínio. Depois, o Ceschiatti mandou fundir uma para mim, de bronze, que ficou mais linda, ainda.


Hoje a Santa Júlia pertence ao meu amigo Pedro Gordilho, que foi advogado do Juscelino, juntamente com Victor Nunes Leal e Sepúlveda Pertence e reside em Brasília há 42 anos, onde nasceram os seus filhos.


Eu só a venderia a alguém que, além de meu amigo, tivesse ligação com Juscelino e amasse Brasília


Lá está ela, a Santa mártir, linda, na sala principal de uma bonita casa plantada numa das poucas montanhas do Planalto Central, de onde se avista toda a cidade.
Lá está ela, protegendo a família e abençoando Brasília.


O Pedro pesquisou e constatou que as informações do Ceschiatti não estavam totalmente corretas.

"Júlia (santa), Virgem e mártir, morta na Ilha de Córsega, em 450. Nascida em Cartago, vendida como escrava. Depois da conquista dessa cidade por Genséric, rei dos vândalos (em 439), ela se recusa a tomar parte em festa pagã, sendo condenada à morte.
Suas relíquias foram transferidas, em 763, à Brescia. É a padroeira de Livorno e festejada em 22 de maio".

As esculturas do Ceschiatti, nos mais belos prédios de Brasília, me dão a impressão de um complemento da obra do Oscar Niemeyer.


Os Evangelistas Lucas, Marcos, Mateus e João, autores da Palavra, na entrada da Catedral, são uma preparação para o espetáculo seguinte: Uma descida meio escura, preparando o espírito para a meditação, o respeito, a oração, a contrição.

Dentro da Catedral, num ambiente de meditação e comunicação com Deus, aquele espaço imenso, o teto altíssimo, os Anjos do Ceschiatti vindos do alto, como se estivessem descendo à Terra. A luminosidade de Brasília entrando por todos os lados, através dos vidros. O espaço, a beleza das colunas, ou gomos, como diz o Oscar, em forma de mãos postas.


São muitas as obras do Ceschiatti, em Brasília.
No Supremo Tribunal Federal: um bonito Cristo e a Justiça. Na parte externa, outra Justiça imensa e bela.
No Teatro Nacional: o Contorcionista.
Na Câmara dos Deputados: Fragmento de Anjo.
No Senado Federal: a Banhista.
No Palácio da Alvorada: Flora, Tanagra, Egípcia, Banhista. Na área externa, Banhistas.
Ministério das Relações Exteriores: Duas amigas.

No Palácio do Jaburu, residência do vice-presidente: Leda e o Cisne.Logo que a escultura foi colocada no Palácio do Jaburu, o Ceschiatti levou-me para vê-la. O Athos já a conhecia, era a mim que ele queria mostrar. Fomos os três. No caminho, todo animado, orgulhoso, ia falando da beleza da Leda, de como a havia idealizado, qual a razão de tê-la feito para aquele palácio, e falava, falava.


Quando chegamos, alguém havia colocado o paletó sobre o cisne, usando-o como cabide. O Ceschiatti teve um violento acesso de raiva, saiu do carro aos gritos, assustando as pessoas ao redor e dizendo:
- Pronto, podemos ir embora. A primeira impressão da Vera foi estragada, o primeiro impacto foi péssimo. Vamos embora.
Foi uma luta para acalmá-lo.


Ele contou-me que, quando o Anjo Gabriel, aquele maior, da Catedral, veio do Rio para Brasília, houve inúmeros acidentes.
Por quê ?, perguntei.
Ele explicou que o Anjo fora dividido em dois, para caber nos caminhões. O primeiro, da cintura para cima, no primeiro caminhão. Da cintura para baixo, de pernas para o ar, o segundo. O alumínio estava novo e, à noite, quando um carro, vindo na direção contrária, batia o farol no Anjo, este se iluminava todo, refletindo a luz do farol, e o motorista tomava o maior susto, pensado que fosse um Anjo de verdade. Perdia a direção e, ou batia em algum carro, ou descia pela ribanceira.


Ele gostava muito quando eu fazia jantares para reunir os nossos amigos. Ajudava-me a escolher os pratos, dava receitas, ficava na maior alegria. Quando eu fiz um jantar em sua homenagem, chegou mais cedo, para me ajudar a receber os convidados.
Sempre que o Tom Jobim vinha a Brasília, jantava aqui em casa. Ele adorava conversar com o Ceschiatti. O Darcy, também, batia papos ótimos com ele. O Celso Furtado era outro, com quem ele adorava conversar.


Certa vez, eu estava oferecendo um jantar para um grupo de amigos e o Athos chegou, muito nervoso, dizendo que a Maria Roberto, grande amiga do Ceschiatti, sua vizinha, no Rio, precisava falar comigo, com urgência. Deu-me o telefone e eu liguei:


Ela foi atendendo e passando o telefone para o Ceschiatti. Ele estava nervosíssimo:
- Vera, a Maria da Graça, minha empregada, vai viajar para Portugal, a mãe dela está muito doente e eu, que também estou doente, vou ficar sozinho, não vou ter ninguém para cozinhar para mim. Estou desesperado, não sei o que fazer.
- Mas eu sei, Ceschiatti. Fique calmo e escute: você tinha planos de vir para cá no próximo mês. Antecipe a viagem, venha agora. A Maria da Graça vai, a mãe morre, ela enterra a mãe, assiste à missa do sétimo dia, e, quando você voltar ao Rio, já a encontrará à sua espera.
- Mas você é o máximo! Como é que ninguém pensou nisto? Está resolvido, farei isto.
A Maria Roberto ligou, minutos depois, chamou o Athos ao telefone e comentou: A Vera acalmou o Ceschiatti em cinco minutos. Nós estávamos em pânico, com medo dele ter um enfarte, tamanho o seu nervosismo. Quando ele desligou o telefone, estava sorrindo. Só que a Vera matou a mãe da Maria da Graça, enterrou e mandou rezar a missa de sétimo dia.
O Athos contou às minhas visitas que deram boas gargalhadas.


O Ceschiatti veio, na semana seguinte. Ele estava com câncer na garganta. Só podia comer suflê, quiabo, sopas, sorvetes, coisas bem leves. A Pedrelina, minha empregada, gostava muito dele e ficava variando a cor do suflê: beterraba, cenoura, batata, chuchu. Ele almoçava comigo todos os dias. Depois, íamos para o escritório e ele ficava sentado no sofá, enquanto eu atendia as pessoas. Quando o cliente saía, ele sentava-se à minha frente e, às vezes, ficava desenhando. Desenhou a "Pietá", Nossa Senhora da Piedade com o seu filho no colo, linda. Depois, quando a escultura ficou pronta, mandou fazer uma miniatura para mim, de bronze, além de me dar o desenho original, com dedicatória.


Era uma criatura encantadora. Gostava de muita pouca gente neste mundo. Visitava a família, em Belo Horizonte, e vinha contando, com orgulho, as histórias dos sobrinhos.
Um dos amigos de que ele mais gostava, era o Oscar. Mas, como ele era muito brigão, brigou com o Oscar, certa época. Mas, quando falava nele, os seus olhos enchiam-se de lágrimas.


Quando o Oscar ia mandar fazer a escultura do Juscelino para colocar no Memorial JK, os dois estavam brigados e o Oscar escolheu outro escultor.
O Ceschiatti ficou arrasado. Ligava-me e dizia:
- Fale com o Oscar que eu faço a escultura de graça. Diga-lhe que pode mandar copiar aquele Juscelino que eu fiz no Ceará, no Orós.


Não adiantou, o escultor foi o Honório Peçanha.
Pouco tempo depois, o Oscar foi visitar o Ceschiatti, no Rio, e fizeram as pazes. Ele me telefonou, na maior felicidade, contando.


O Athos era outro amigo querido, companheiro solidário. Mas brigavam também, de vez em quando. Comigo, ele nunca brigou.


Quando o Ceschiatti estava muito mal, já no final da vida, o Athos foi passar uns dias com ele, no Rio. Eu pretendi ir, mas o Athos não deixou. Disse-me, ao telefone:
- Se você vier, ele vai pensar que está à morte. Ontem ele me disse que, de todas as amigas, a que ele mais gosta é você.


Eu ficava pensando:
_ Meu Deus, como é possível? Uma criatura que passou a vida toda esculpindo Santos, Anjos, Apóstolos, Nossa Senhora, Santa Ana, mãe de Maria, Jesus, e nesse sofrimento todo. Por quê não morreu de enfarte, sem sofrimento?


Lembrei-me de certa vez que eu estava muito atormentada, com problemas sérios, e ele chegou ao meu escritório com um embrulho debaixo do braço. Era uma escultura belíssima de Nossa Senhora das Graças, de bronze, medindo quarenta centímetros, pesadíssima. Entregou-me, muito emocionado, dizendo-me:
- É para proteger você. Não suporto ver você triste.


O Athos me economizou, evitando que eu fosse ao Rio despedir-me do meu querido amigo. Eu também não teria suportado assistir ao seu final, tão sofrido.
O rombo que fica em mim, quando um amigo se despede, é proporcional à qualidade do amigo.


O Ceschiatti deixou uma cratera na minha emoção.

 

   
Vera Brant
Nasceu em Diamantina, completando seus estudos em Belo Horizonte. No Rio de Janeiro, para onde se transferiu a seguir, exerceu o cargo de Inspetora de Ensino do Ministério da Educação. Mudou-se para Brasília em 1960, trabalhando então ao lado de Darcy Ribeiro no esforço de criar a Universidade de Brasília.
Demitida pelo golpe militar em 1964, hoje é empresária do ramo imobiliário. Além de Ensolarando sombras, Vera Brant publicou ainda A ciclotímica, A solidão dos outros e Carlos, meu amigo querido, que reúne treze anos de correspondência com o poeta Carlos Drummond de Andrade.
Recentemente, publicou dois livros: JK – O reencontro com Brasília, da editora Record e Darcy, da editora Paz e Terra.
http://www.verabrant.com.br