Veronika B

Sua beleza me escandalizava. Sentia-me pequena, enojada de mim mesma. Lâmina na garganta. Pouco a pouco ela foi me tomando. Minha cabeça a mil. Inferno. Vinte e quatro horas com aqueles olhos estranhos - só presto atenção em mulheres com olhos estranhos.

Andava pelas ruas à sua espreita. Dilacerada entre as luzes da cidade. Um fantasma cultivando sua raiva. Eu queimava meu braço com bituca de cigarro, cortava-me com gilete. Queria morrer, mas o relógio badalava incessantemente na parede do quarto. Quase me rasguei inteira, feito vaca em matadouro.

O canto silencioso da sereia. Ela pode ouvir os demônios dentro do meu peito, pode brincar com eles, deixar meu coração em frangalhos, ir embora.

Era uma quinta-feira chuvosa, semana passada também foi quinta-feira. Em abril faz frio. Ocaso. Então uma música tocou dentro de mim. Perscrutei sua alma fodendo a carne com fúria e volúpia. O purpúreo de sua boca se intensificou, escorreu pelo pescoço. Imprimi minhas marcas em seu corpo, às vezes lívido, às vezes éter. Inferno.

Vésper triste e bêbada tinha um sorrisinho agridoce.

Silenciosa, platônica e distante, sufoquei-a dentro de mim, e das entranhas ao céu da boca você me sufocou. Como a cobra mordendo o rabo que tatuei no lado esquerdo do meu peito.

Meu coração sujo parece uma caixinha de música, daquelas antigas com a bailarina rodopiando no meio e uma música triste saindo de dentro dela.

Queria sonhar o mesmo sonho, com o remorso derramado, feito Pandora, vi seu rosto se afastando, seu sorriso débil a meio fio, seu sorriso de véspera.

(todas as palavras que deixei de te dizer têm cheiro de chuva agora)

Caminhamos de mãos dadas na alameda sob o crepúsculo, na bruma delicada do esquecimento.

Seus lábios ácidos encostaram-se aos meus lábios adormecidos, embaixo e em cima, assim e ao contrário. Com fúria e euforia, aspiração e sucção.

Rasgaremos as cortinas e estenderemos os lençóis sujos em praça pública, com nossas caras mal passadas e mal dormidas (como santas apedrejadas ou putas carbonizadas).

Lanço-te minhas tranças de Rapunzel e você com seu coraçãozinho-de-lata-e-negrume vem ter com meus mais delirantes pensamentos.

Meninas más não vão para o céu, Valkirias não virão recolher nossos corpos. Baby, só me deixe então acariciar seu dorso com minhas unhas de navalha e fazer dos seus ondeantes cabelos carmesim o meu agasalho para o fim da noite sem luar.

Quando os primeiros raiozinhos de sol invadirem as frestas da janela do quarto, seremos apenas e tão somente pó.

Chafurdo e revolvo sua pele. Língua serpeante devota teu corpo. Corpete entrelaçado no tapete, movimentos febris balançam a rede.

Desembaraço teus cabelos, eles caem como espirais negras e descansam no teu colo. Misturo nossos lábios e confundo a saliva, teus mamilos vêm beijar os meus.

Tateio teu dorso com mãos cegas, tatuo minha boca em tua nuca. Nesse estranho bailar de nossas vulvas, perdem-se os anéis, ficam os dedos.

Pruriginoso ardil de ancas para deflorar o ânus com pau de faz-de-conta. Feminil motriz que faz de ti minha senhorinha e faz de mim tua meretriz.

Descansa, descansa agora minha fada-madrinha, porque depois da grande janela tem o prado, depois do prado tem as estrelas.

Elas nos esqueceram pra sempre, meu anjo. E o sorriso apagado do teu rosto pálido. E o mal estar das tardes escarlates. E meu braço cheio de picos. E esse frio das madrugadas vazias refletidas na sarjeta. E essa coisa que consome o peito e vai fodendo devagarinho. E esse medo de dormir e não acordar mais, trancafiada pra sempre dentro de pesadelos estreitos e claustrofóbicos. E a janela do décimo quinto que me convida pra abraçar o vento, trapezista do vazio. E as gardênias despedaçadas em cima da mesa. E os retratos amarelados no quadro torto pendurado na parede. E a menina-dos-olhos, violentada e apagada pelo tempo. E aquela antiga e infantil esperançazinha que ficou entulhada junto do velho balanço em algum quintal esquecido e sujo. E as rugas em nossos rostos, outrora belos.

Elas não virão recolher nossos corpos, querida. Ficaremos pra trás, maculadas. Ninguém nos concederá a honra dessa dança. Réquiem para bailarmos nuas através dos tempos.

Ainda assim, quando chegar a hora, apertarei com força a sua mão. Enterrarei pra sempre dentro de seu peito o último resquício de minha doçura.

 

Veronika B. Kozlowski
Escritora e jornalista. Escreveu Ode a Sade: Contos Perversos (1994), A Vampira B (1999), Homem com Roupa de Gorila (2001) e Fuck Tatuado no Braço (2003), todos com edição da autora.
veronika_kozlowski@yahoo.com.br
http://vampira_b.zip.net.com.br

 

 

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