Inspirado em Monet, Water lilies

A mulher vinha, devagarinho, descendo a vereda que levava ao lago. Pé ante pé, cautelosa, ela se aproximava. O vestido claro e fluido lhe moldava as formas, os cabelos negros serpenteavam pelas costas. Os olhos eram enormes, a boca muito vermelha e madura. Era delgada como um junco e quando despiu-se quase se enxergava através dela. O corpo muito branco e diáfano lembrava uma fada pairando à beira d´água; não fosse a mancha mais escura entre as pernas pareceria uma menina.
Qual Ofélia temerosa começou a entrar no lago que se abria para recebê-la. Ela ofegava e sorria, enquanto a água ia lhe envolvendo, cariciosa, o corpo trêmulo. Subiu-lhe pelas pernas e quando, mansamente, tocou -lhe o púbis, a mulher soltou um pequeno gemido, inclinando a cabeça. Mais afoita e confiante a água lambeu-lhe o ventre e engoliu os seios e a mulher se deixou levar quase suspirando. Quando, enfim, entregou -se toda, o corpo começou a boiar, fosforescendo.
Então, com um lamento, ela abriu as pernas, contorceu -se, e chorou baixinho.
Quase convulsa começou a parir nenúfares.

 

Eles se conheceram em uma tarde quente, centro da cidade, na sorveteria, oásis gelado. Ela pediu de menta, ele de morangos. Ele disse... Seus olhos são como o sorvete, verdes e refrescantes. Ela disse... Morangos são vermelhos como tua boca.
Sorrindo, descuidados, eles viveram um grande amor.
Anos depois, em uma tarde quente, com os olhos verdes em chamas, ela lhe cravou morangos no peito, borbulhantes e vermelhos.

 

Com esforço enorme ela se despiu. O frio do lençol eriçava a pele e ela sabia que tinha que se lambuzar toda para poder esquecer. O homem era delicado e atento, mas ela procurava nos gemidos dele o ofegar do outro. Acariciava-o devagar, se debruçava entre suas pernas, sentia o corpo arder. Como louca se abria inteira, se fazia rio, se fazia flor.
E depois, depois do grito, quando tudo se acabou, ela estava oca, sentindo o vazio do ventre.
Virou de lado e as mãos em concha cobriram os seios.
Enterrou a ausência no travesseiro.

 

Joca era um homem de pouca falação e pouco riso também.
Trabalhava no escritório do cais do porto, servicinho mambembe e corriqueiro. O chefe era um orelhudo sorridente que vivia correndo atrás de rabo de saia. Entre uma e outra só dizia:
- Carimbe, Joca, carimbe. - E Jóca carimbava.
E de carimbo em carimbo ele ia passando a vida, ficando cada dia mais calado e cada dia mais sozinho.
Era feio, coitado. Uma cara comprida, cabelos maltratados grudados na cabeça e uns olhões fundos e tristes. Magro de dar dó. Usava umas camisas brancas já puídas, lembranças de dias melhores, de quando a mãe ainda era viva e cuidava dele.
Depois que ela morreu, vendeu as sobras e foi morar na pensão ali perto do mercado, lugar triste, quarto de fundos. O mobiliário era tão feio quanto ele, uma cama patente estreita, uma cadeira cambaia, um armário com duas portas que rangiam. A um canto uma mesa pequena coberta de oleado, uma copia da Santa Ceia na parede. Quando não estava carimbando estava ali, deitado de barriga para cima olhando o teto.
- Carimbe, Joca. - E Jóca carimbava.
Fim de semana ele botava a camisa menos ruim, calçava umas botinas luzidias e ia para a gafieira.
Tímido, ficava por ali como quem não quer nada, rodeando a orquestra até que alguém o convidava. Subia ao palco desajeitado, e quando o pistão zumbia na sua boca ele se transfigurava. Virava deus alado, lancinante, subia aos céus e descia embalado, pairava no ar, cuspia estrelas.
Enfim: um portento!
Nessa vida ele ia. Carimbava a semana toda e aos sábados voava.
Um dia, em um gemido mais agudo do pistão ele subiu e não desceu.
Virou anjo.

 

Vera do Val

Sobrevivente dos anos 1960, paulista, perdida na Amazônia. Insana e delirante.
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