O homem só pode pretender felicidade
servindo-se de todos os caprichos da imaginação.
Sade, in Os 120 dias de Sodoma

Rota 99

 

A Orgia e a Morte são duas jovens graciosas,
Fartas de beijos e de frêmito incontido, (...)
Baudelaire, "As duas boas irmãs", in As flores do mal

Rota 99 entrou com tudo num fim de tarde - águas de março. Um calor úmido e insuportável fazia crescer o tiquetaque do desejo rumo noroeste. Cristais tilintavam, paredes estremeciam e raios atingiam em cheio a terra molhada.
Tambores soavam numa selva desconhecida, anunciando. A pedra, o poço, o transe, uma civilização perdida; sacrifício humano jorrando sangue sagrado e profano.
Sedução, e a razão, entorpecida, o corpo murmura: sim, sim, sim.
Num tempo irreversível. Controlado, personalizado, estudado, ao alcance da mão, medo da surpresa e da dor. Medo de se achar fora do papel milimetrado, e surpreender-se: tigre, em círculos, acuando a presa, devorando-a, despedaçando-a.
Perder o controle, profanar o obelisco quente e latejante e tornar-se vítima sagrada - toda à mostra, os músculos em prontidão, a carne viva, fluidos se interpenetrando, escambos na paixão instantânea.
Insinuar, burlar, apostar na surpresa e no desconhecido. Um tempo sem volta. Mas ali, um rocambole negro e futuro, desenrolando-se rapidamente, alta velocidade, rota 99.
Os faróis cegam e a vontade acelerada do fogo e do asfalto: febre superando medo, conduzindo rápido ao destino: rota 99.
"Let's get lost."
Ponto de encontro sinalizando, o ápice viria, era certo. O rosto mediterrâneo, os olhos sorrindo, assentindo. Ao tocar o perfume, pensei: vou me perder. As horas futuras, intermináveis, selaram-se ali, na escuridão da rota 99. Vênus descontrolando as marés. O tambor dentro de mim - tuntum, tuntum. Esta noite ou nunca.
O selo supremo. Nada mais importa. A seta indica um porto feliz. Os tambores rugindo, o tigre antecipando o desencarne. Sacrifício. O corpo estanca e escorrega fundo. Peço, ensandecida, e um vulcão agiliza a poção sagrada do amor. Uma, duas, outras vezes. Cansaço, alívio e prazer percorrem os sentidos.
A morte instantânea anuncia: renovado, o corpo em sacrifício percorrerá o caminho de volta na rota 99.
Uma civilização se resgata. O tigre desliza saciado. Os tambores estão silenciosos. Nenhum som na floresta.
Nem é preciso perdão. O melhor ainda virá.

A queda do Segundo Templo


Ó monstros, ó vestais, ó mártires sombrias,
Espíritos nos quais o real sucumbe aos mitos, (...)
Baudelaire, "Mulheres malditas"

Um muro sagrado impõe-se. Pedras gigantescas encaixam-se e reencaixam-se, coesas e indissolúveis; nem um fio perpassa por essa fortaleza que recobre e defende como uma cidadela.
Quando por ventura ameaçados por forças externas, os gigantes de pedra colocam-se, alertas, armando-se contra o possível inimigo. Como soldados em prontidão, encenam um escudo poderoso.
Por vezes, não avisto Tito aproximar-se, nem percebo seus exércitos avizinharem-se da minha fortaleza. A terra então claudica, como se um terremoto chegasse trazido no som longínquo e aterrorizante da marcha dos soldados, às centenas, aos milhares. Pés guerreiros ganham passo a passo o chão, o retinir das peças e das lâminas corta o ar como um grande machado ritmado. O som ensurdecedor da guerra se aproxima. Estremeço ao sentir: serei vencida.
Ouço - mas a ilusão me cega - os gritos bravios dos homens em fúria. Ouço à distância Tito ordenar, gritar, comandar. Um objetivo único: a destruição completa dessas muralhas. Mas, sádico, manterá intacto um único trecho, para que se reconheça por meio dessa visão seu poder feroz. A profanação desse território sagrado, sua absoluta rendição.
A terra treme mais forte sob o impacto da marcha determinada e coordenada do comboio humano. Mas a ilusão desmedida de que nada destruirá essa proteção calcária. Essa estátua circular que rodeia, voraz, como uróboru. Cada vez mais próximos os gritos e a fúria do exército, que sinto, em pouco, me dizimará. Por fim, a voz de Tito incita o ataque.
A ilusão escoa por entre as fendas da terra craquelada. Inerte, presencio cenas enlouquecidas, homens buscam, kamizaze, a vitória a todo custo, muitos deles pisoteados, outros a destruir partes dessa morada, outros feridos entre os escombros, outros reverberam a força de sua predestinação. Adentram com fúria e sede de conquista o terreno delicado e róseo, mucosa exposta como ferida recente. Não há cena de mais vigor e poder do que essa massa obstinada a caminho da vitória.
Sem que eu perceba, Tito impõe-se, triunfante, diante de mim. Um esgar sela o que ele sabe, o que eu sei. As fissuras por fim aguardam seu breve destino.
Eis que o estrangeiro se aproxima. Um som metálico antecipa: aço puro adentrará o meu corpo, eu sei. Uma gota fria corre, rápida, por meu rosto. Tito conduzirá esse momento.
Tento não pensar no que virá, submeter-me a quem vence. Em meus últimos instantes vejo o que me acompanhará a lembrança: uma fronte ainda quente lateja nas mãos de Tito, os soldados urram a sua glória, lanças e espadas repicam sobre os escudos, o som final dessa batalha. Porções de terra são atiradas sobre mim. Em camadas, desapareço pouco a pouco. Tito deleita-se, algolagnia de minha condição. E, como derradeira imagem para meus olhos, o muro das lamentações surge. Inevitável, titã que se impõe, fendido, semidestruído, testemunha para sempre da minha capitulação.

Sob o domínio de Sade


(...) A sepultura e a alcova, em blasfêmias fecundas,
Nos dão de quando em vez, como boas irmãs,
Os prazeres do horror e as carícias malsãs.(...)
Charles Baudelaire, "As duas boas irmãs"

 


Há urgência neste apelo.
Uma dor ecoa nesse chamado.
Uma ordem requere sua chegada.
Hermes, apresse sua porção alada.
Preparo-me, impaciente, diante de um toucador imaginário.
Nove minutos e noventa passos distanciam-nos da consumação.
Determino data, hora, local para que se realize o meu capricho. Minha ânsia atroz.
Descomponho o outro, atiço-lhe o orgulho como se remexe uma fogueira. Quero que lhe doam essas ínfimas brasas. A pele marcada por pequenos sinais, souvenirs do sinistro prazer.
Ordeno que venha rápido. O sofrimento e as agruras da minha pressa e determinação.
Demarco todos os meus desejos e caprichos na ponta de um salto agudo imaginário, que perfura dolorosamente o seu receio, a fazer da fera bicho manso e dócil. Medo de cometer um erro sequer e perder-se na minha lâmina pensante. Impossível atravessar o roteiro traçado de viés. A mera miragem de perder a presa no momento de fúria faz da sua vontade músculos e movimento a reagir.
Imprimo-lhe a dor urgente do meu estímulo, a requerer, iminente, que algo atravesse meus sentidos, contundente, preciso, doloroso, brevíssimo. Perfurar, pungir, mortificar até que eu desfaleça. O prazer inoculado nessa transgressão.
O outro a exalar um medo animal, corre, selvagem. O odor alquímico a lhe atrair a esse domínio feminino. Na desabalada, o reflexo ardente de um cristal atinge-lhe em cheio o olhar, lembrando a ampulheta no aparador a escoar seus últimos grãos de areia. Mais um minuto apenas. O desespero impinge ao corpo, então, as torturas mais cruéis: atravessa espaços sinistros e inóspitos, farpas perfuram-lhe o corpo. A gravidade, dolorosa, a sugar-lhe um rio vermelho. Consigo carrega nada além do poder que, ao fim, nos libertará.
Pressinto sua chegada. O calor que sobe em vapores etílicos entorpece a determinação de lhe negar três vezes.
Uma voz poderosa brada que se abram as portas deste reino. A ponte levadiça desiste de oferecer resistência. Cavalariços abrem caminho a ele que chega. Cavalos, indomáveis, exalam algo indizível. As mulheres calam-se à sua passagem.
Inserido na extremidade do destino. Aplico um punhal fino na sua vontade, retalho as pretensões de seu orgulho masculino, rasgo-lhe os códigos preestabelecidos. Em gotas ferventes um ungüento poderoso a arrancar-lhe a pele. Enceno um escárnio de sua indefesa condição. Deusa absoluta desse capítulo da história humana.
Premeditada, descarno por um instante a vendeta feminina. E, paradoxo, entrego-me aos braços ferozes e tirânicos. Esfolada viva, permito que lâminas finíssimas escalpem e dilacerem o que há em mim. Um prazer sórdido apodera-se de meus nervos expostos. E, do alto do meu orgulho, profetizo um mundo maldito e cruel.
E no ápice dessa tortura, algo abocanha o núcleo do amor. O poder do elixir que perpetua a espécie expande-se num silêncio bruto.
Algo congela-se num tempo histórico.
Um mundo inteiro interrompe seu curso.
Em repouso absoluto, corpos recuperam essências.
Hermes, enfim, cumpriu o prometido.

 

Sandra Brazil
Paulistana. Sexo feminino. Filha de Odésia e Heitor, irmã de Beto e Mary. Mãe de Isadora, a dádiva de Ísis. 42 anos. Formada em letras pela Universidade de São Paulo. Editora.
Trabalhei no Jornal da Tarde como tradutora, em catálogos e livros de arte, e para os departamentos editoriais da Larousse, Saraiva, Ática, Abril, Boitempo, Cambridge University Press, Thomson, CosacNaify. Hoje gosto de brincar de sopa de letrinhas na recém-surgida Cleis Editorial.
A Isadora, dedico o selo de título brincante. Porque tudo só foi possível pelo amor absoluto que dedico a essa "minha" pequena Cleis.

sandrabrazil@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

 

.