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Roberto Santos de Carvalho
Feriado
de Corpus Cristi, sexta-feira à noite. Do bar olhava a rua, procurando
Miguelito pelos arredores. Com o troco no bolso e uma coca light na mão
seguiria pelo mesmo caminho de um ano; quem sabe o encontrasse? Era
aquela uma das noites mais frias do ano. Espremido numa jaqueta verde
seguia eu pela calçada do viaduto Pacaembu, em direção
ao centro, quando me deparei com o homem de plástico do outro lado
da faixa de pedestre. A pressa era a de seguir, mas a figura do homem plastificado me fez perceber que depois da faixa de pedestre acabava o conforto dos bairros residenciais para dar lugar a uma outra cidade, velha e encardida, marcada pelos contrastes de miséria e desenvolvimento. O anti-urbanismo do Minhocão ali oferecendo seu teto de concreto para o sono de uma legião de homens de rua que, alcolizados, se recolhiam para uma noite de sono. Bem ali onde iniciavam os três quilometros do elevado, o homem de plástico parecia estar a postos feito um barqueiro pronto a levar quem se dispusesse a descobrir os mistérios desta outra cidade. Dois
caixotes de papelão de lavadora de louças estavam a sua
direita e esquerda. Por um momento acreditei ver a própria esfinge
guardada por dois animais sagrados desafiando quem pudesse decifrá-la.
(o sentinela e os caraminhões) De
Jesus, arrependimento, graça, salvação, não
queria falar. Zelador da segurança dos que atravessavam o asfalto esburacado, Miguel tinha nos caraminhões os inimigos a combater. Caraminhões eram os pequenos demônios de menos de um palmo de altura que habitavam no buraco do asfalto. Produzir qualquer espécie de infortúnio ao pedestre era o trabalho dos caraminhões no lugar: da topada ao tropeção; do banho da poça ao atropelamento; qualquer mal intento causava alegria a estes sócios da má conservação da cidade. Para
monitorar a ação destes pequenos demônios, Miguel
contou-me que seres de um plano superior ficavam posicionados junto ao
guard rail, lá em cima no minhocão, dali enviavam sinais
de luz para o sentinela orientando como neutralizar cada um dos ataques
dos pequenos capetas. Uma luta sem tréguas do sentinela se extendia também pelos arredores: - Embaixo do viaduto Pacaembu, numa batida que ocorreria envolvendo dois automóveis, vi que o demônio da curva pretendia fazer uma vítima de sangue, mas percebi a tempo a intenção do demônio e consegui neutralizar seu objetivo principal: houve o acidente, mas sem vítimas. Ouvindo este outro relato de Miguel, perguntei como é que o sentinela sabia, antecipadamente, que o acidente era para ser com vítima. - Na cena mental do demônio vi o carro prêso ao local da batida, horas depois do acidente, respondeu. Uma resposta que intrigava, pois a não remoção dos veículos era exigência legal para que a polícia técnica pudesse apurar responsabilidades nos acidentes com vítima. Impressionava que o sentinela e o demônio disputassem o resultado do acidente no campo das imagens. Episódio que fazia pensar sobre a astúcia do " demônio da curva ", bem como do conhecimento das questões legais. Legais e técnicas: aquela curva era asssunto do noticiário e objeto de estudo nas aulas da escolas de engenharia da Politécnica. Uma curva que causava muitos acidentes, tão mal projetada era. Um mundo louco girava na mente do sentinela, mas obedecia uma relação de causa e efeito, onde bem e mal se mantinham em constante batalha: a conciência da cidadania, uma das armas de Miguel. Em meio às intervenções nas ruas me revelaria em seguida que outros sentinelas trabalhavam no local: eram eles os postes. Sim, os postes. Miguelito tinha muita admiração pelo trabalho que faziam e pelo porte majestoso deles. Postes que indicavam para os pedestres a distância regulamentar a manter da guia, indicadora do lado mais seguro da calçada, longe, portanto, do meio-fio e do risco de um atropelamento. Encostado
no muro da Receita Federal ao lado deste cidadão benemérito,
eu ficava a par de coisas que jamais podia imaginar a respeito de buracos,
curvas, segurança de pedestres, e infortúnio de motoristas.
Miguelito atuava através de preces. Muitas delas a favor da Prefeitura,
para que providenciasse a devida reparação dos buracos e
instalasse um farol de pedestres no local da faixa. Vivendo uma disciplina de jejuns e orações, era um homem avesso a bebida, fumo, drogas. Esmolas não aceitava, mas agradecia por frutas que lhe trouxessem. Uma esfiha de queijo e uma coca light era o universo de sua gula. (havia uma lata no meio do caminho, no meio do caminho havia uma lata) Um ano já se passava desse nosso primeiro encontro e agora eu estava prestes a rever o sentinela. Eram oito da noite, mas eu não o encontraria em seu posto de vigilância. Miguel já havia saído e eu estava pronto a seguir em frente para procurá-lo em outro lugar quando um peso na mão parecia me puxar para baixo feito uma âncora. Diminuindo o passo senti que era a coca light que pesava na mão. No muro da Receita Federal dava-me conta das coisas estranhas que carregava dentro de mim. Colando as costas na parede da Receita, era hora de fazer de mim meu próprio sentinela. De olhos expiaria os caraminhões no meu íntimo. Algo contrabandeado da cidade que deixava para trás - confortável e urbanizada, mas fechada em si, parecia ter se infiltrado em algum lugar da minha alma; o peso da lata que apontava para o problema: expectador de um cinema imaginário me via chegar numa antiga casa a poucas quadras dali. Endereço tombado pelos patrimônio histórico do Estado, ali era a casa que pertenceu a Mário de Andrade, agora oficina literária do Estado: Oficina da Palavra. Dali provinha o conflito: um curso de biografias, a história de Miguel eleita como a mais interessante para um exercíco coletivo. Ela e uma outra, falando do casamento, separação e escândalos do Conde Chiquinho Scarpa e esposa. Para um grupo assim, com holofotes centrados nas coisas do mundo, seria oferecida a existência incomum de Miguel numa bandeja para deleite de nosso egos literários. Este o peso que a coca light denunciava. Por trás do muro da Receita eu parecia ouvir o rugir do leão denunciando minhas falsas afeições a este homem, momento em que encerrei meu turno de sentinela para retomar o meu caminho. Andando por sobre os mosaicos do mapa de São Paulo estampados na calçada, procurava pisar nas pedras brancas, evitando as negras. Pensava na sorte deste novo encontro com os olhos atirados no chão. Seria eu uma espécie de vampiro literário, um sugador de histórias da realidade de homens reféns da miséria? Cego na raiz de minhas intenções veladas, eu acabaria por trombar com duas mulheres na calçada. Amavelmente uma delas me puxaria pelo braço para me fazer entrar num pequeno salão: -
Entre, irmão ! Gravatas
inseparáveis dos pescoços. Cabelões compridos alcançando
as saias longas. Gritos de Aleluia e Glória a Deus dados a plenos
pulmões. Eu agora estava numa pequena, humilde, mas radical igreja
pentecostal. - Queiiima, Jesus ... queeeima este demônio! O
culto transcorria e me voltava à lembrança toda a história
que eu ouvi um ano antes e havia me esquecido ... Terminada
a oração forte, verifiquei que já passara uma hora
do momento em que entrei no culto, e agora era a vez da pregação
de um evangelista de apenas 14 anos de idade. -
Diga amém aquêle que esqueceu sua bíblia em cima da
televisão - motivo de silêncio total na igreja-pizzaria,
pois logo se via que ali ninguém era Mané de ficar vendo
televisão, quanto mais ter uma em casa. -
Irmãos, o ladrão veio me roubar. Apontou a arma e levou
o dinheiro, mas em seguida voltou correndo e pôs o dinheiro nos
meus pés. - Glória a Deus, comemorou a igreja. - Miguel ou Miguelito? - Quando conto minhas histórias sou Miguelito; quando as vivo sou Miguel, igual a São Miguel Arcanjo. - Miguelito é luz e velocidade; Miguel é força e controle - explicou, com um olhar feliz. A
sentinela não havia dito ainda que o Estado do Paraná ficava
ali na alameda Barros e que o Estado do Rio Grande do Sul ficava na altura
da rua Turiassu. Também não havia explicado o porquê
do eixo que liga o Rio Grande do Sul ao Estado de Goiás ser de
distância igual à que vai dos bairro de Santa Cecília
a Pompéia. Agora adulto, tinha uma noção espacial
igual a das crianças, com a noção do que é
uma rua e sua casa, mas sem entender o que possa ser um bairro, ou uma
cidade. Era no entanto surpreendente que esse mesmo homem, minutos depois,
mudasse radicalmente sua orientação espacial, para lembrar-se
das coisas de sua terra natal. A pesca de Miguel era assim o sono leve de um homem à espera do pior que possa existir na noite - o chute, o espancamento pela polícia, a paulada. Dormir com todo esse barulho, só mesmo emborcado na cachaça, albergue espiritual de uma legião de sem-tetos do centro. Instalado em seus aposentos, no topo da escadaria, arrumar para si a identidade do anjo mais forte do céu, Miguel Arcanjo, assim adquiria poderes espirituais para poder enfrentar o mal ao redor, sem se deixar contaminar. Cercado pelo que a noite tem de pior, ali também não recuaria das lutas mesmo quando o cheiro da maconha o arrebatasse para o inferno. Enfrentava a Maldita em seu próprio território, olhos nos olhos - pois a erva era uma mulher - media força no olhar até que ela não conseguisse mais encará-lo. Dono
de um olhar temido até pelos demônios, via-se assim que a
humanização dos flagelos ao redor era condição
necessária para que a sentinela pudesse enfrentar fortes inimigos.
Assumindo a identidade de um santo e o poder de um anjo, Miguel encontrava
os meios para resistir a uma barbaridade sem fim. Sem CIC, RG, ou algo
a declarar, Miguel, era um brasileiro com alma de vietnamita, resistindo
há duas décadas ao bombardeio napalm, que o diabo fazia
dia e noite na metrópole colonialista. Cheguei a pensar que as
águas de sua pesca fossem as das enchentes, ou as que vinham do
piscinão anti-enchente abaixo do estádio do Pacaembu, mas
Miguel logo me esclareceu que abaixo do asfalto da avenida Pacaembu havia
somente dois tipos de água - água de rio e água do
rio-mar. Generoso com quem sabe ouvi-lo, não se Por fim, chegava a hora de nos despedirmos, mas o pescador ainda desejou oferecer a José a visão de um dia animador para tão logo o dia clareasse. Primeiro recomendou a que José não fosse dormir com sede, pois a sede era uma mulher que sempre andava com um lampeão aceso. Eu ouvia aquelas palavras de doação e consolo da sentinela ao estreante nas ruas e retinha o ar, tão etéreo parecia aquele momento. Vendo-o de pé, o plástico de mudança no peito atravessado feito capa de espadachim, me impressionou a semelhança com as ilustrações de Don Quixote, do romance de Cervantes. Impressionava ver em Miguel a expressão serena de herói, sempre disposto a vencer todos moinhos de vento. Barba e cabelo grisalhos, pele riscada pelo vento, um velho pescador longe de casa despedia-se de mim e José. Amante
das coisas do meu bairro, agora eu sabia que a Barra Funda tinha o seu
inesquecível personagem e a avenida São João o seu
cavaleiro templário - dono da ética de protetor do caminho.
" A manhã e a luz do sol são como crianças pequenas que balançam no berço, seguindo o movimento do mar... Aqueles que têm bondade no coração podem abrir os olhos cedo... Só os quem têm o bem no coração é que podem olhar para uma criança... Homens maus não suportam acordar cedo, porque não têm pureza no coração para se sentir como crianças ... ". A
poesia que Miguel passou para José ia ecoando em minha mente. O
pescador não era um poeta, mas a própria poesia surgindo
do lodo da miséria urbana feito uma flor de lótus. Fica portanto aqui - entre a Barra Funda, Pacaembu e Água Branca - entre o Rio Grande do Sul, Paraná e Goiás - a história do Don Quixote da Barra Funda. Fica também a fé na Palavra, que diz : Deus é o Senhor do tempo... poderoso para completar a obra começada. Roberto
Santos de Carvalho |
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