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Márcia
procurava a caixa onde sua mãe, com muito zelo, mantinha
as antigas cartas e suas pequenas lembranças. Remexia as
gavetas da pesada cômoda que pertencera a sua bisavó.
Encontrara papéis amarelecidos e algumas peças de
roupa íntima já gastas pelo tempo. Exausta, quedou-se.
Placidamente divagou o olhar pelo quarto. Deu-se conta do nostálgico
local. As paredes eram revestidas de papel de parede listrado e
entremeado de pequenas rosas. O colorido já não tinha
a mesma tonalidade, todavia expressava uma singular aparência.
Os lustres, pintados à mão, desciam majestosos pendurados
em correntes douradas. Os móveis, em estilo colonial, de
cor escura, davam um toque de austeridade ao ambiente. Era o antigo
quarto de sua bisavó, que teria sido ocupado por sua avó
e, atualmente, o recanto de sua mãe, já com seus 72
anos de idade. Tudo, afinal, revelava as marcas do tempo traspassado
de subjetividade feminina.
Envolvida por esse lugar que abrigava diversas histórias
familiares, sentou-se à penteadeira e viu uma escova oval,
banhada de prata. De repente, relembrou sua adolescência quando
se esmerava no trato de seus cabelos longos. Sentia prazer em penteá-los,
especialmente, para ir às tertúlias. Que nostalgia!
As tertúlias, o som do pistom e a pista de dança!
As luzes no salão de festa! Lembrava-se do rito da espera,
dos preparativos, dos vestidos de tafetá, dos cochichos,
dos jogos de sedução da época. Tudo era tão
fascinante!
Entretanto, rompendo a cortina do tempo, voltou a rebuscar os armários.
Finalmente! Eis a caixa. Tamanho médio, vermelha, com rosas
amarelas e enfeitada com um laço de fita de cor branca. Dentro,
cartas, cartões, fotografias, bilhetes, miúdos adereços.
Sentiu uma inefável sensação. Pudera! mergulhando
no tempo de outrem... Quem sabe? Histórias intercaladas de
risos e lágrimas. Não sabia bem por quê, mas
teve a sensação de estranhamento. Pareceu-lhe usurpar
um templo, um espaço privado, intocável, misterioso
e repleto de segredos. Sentiu-se invasora. Retrocedeu. Imaginou
sua bisavó, seus amores, seus medos, sua polidez. Sua domesticidade
quieta, muda. Lembrou-se de sua avó, uma velha senhora de
olhos azuis, pequenina, cabelos grisalhos, de feições
severas e gestos inquietos. Mulher voluntariosa, guerreira, desbravadora.
Orgulhosa. Pensou em sua mãe, curiosa, criativa, miúda,
romântica. Uma excelente contadora de histórias. Recolhia-se,
às tardes, naquele refúgio particular e lá
permanecia horas a fio. Não atendia a ninguém, mergulhada
em seus segredos. Quantas lembranças estavam contidas naquele
quarto!
Olhou para a caixa já guardada há bastante tempo,
e segurou-a temerosa. Teria que ser rápida. Sua mãe
pedira-lhe que levasse seu bauzinho, assim apelidara a caixa, abarrotada
de seus mistérios femininos . Sentir
a nostalgia que o ambiente transmitia, depois de tanto tempo,
fê-la tentar compreender as razões pelas quais sua
mãe prezava aquele recanto... Quem sabe, nem que fosse
por um tempo efêmero, nele sentia-se mais próxima
de sua perdida juventude.
Ao chegar, olhou a mãe e viu a mulher. Enterneceu-se por
sua incansável serenidade e fundiu-se num olhar complacente.
Sucumbida pela imensa ternura, num gesto de intimidade, afagou-lhe
a cabeça e beijou sua testa. Entregou a caixa e foi saindo
do quarto sem despedidas, deixando-a com suas recordações.
Quando, de súbito, sua mãe a chama. Volta-se, surpreendida
pelo tom enfático de sua voz. Neste instante, ao vê-la,
percebeu que algo estava para acontecer. Espera. Ansiedade. Surpresa.
Sua mãe retira da caixa uma carta e a entrega. Recebe em
silêncio. Com um gesto de ternura ela segura suas mãos
e com um ar de cumplicidade volta a deitar-se em abandono. Assim,
em silêncio, guardei o seu segredo.
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Fortemente
as águas molhavam um chão antes seco, esturricado
pelo sol de verão. Estranha manhã de chuva em pleno
mês de outubro. Os colonos espiavam a manta da terra molhada
com um sorriso de alegria. Os meninos corriam e tomavam um banho
nas bicas e, brincando, jogavam água uns nos noutros... alguns
escorregavam e caíam pesados na terra encharcada, soltando
gritos de euforia, ao mesmo tempo que se levantavam desajeitados
e continuavam a algazarra molhada. Era um tumulto de crianças
embevecidas pela água que corria fácil pela terra.
No alpendre do casarão, Seu Pedro não tirava os olhos
daquele cenário e, de vez em quando, soltava gargalhadas
que ressoavam misturadas ao som da chuva. Manhã especial!
As plantas abriam-se charmosas e rejuvenescidas pelo banho matinal.
O cheiro de terra molhada! Prendas!
Seu João, trajando uma calça jeans surrada pelo uso
no trato das plantações, ajeitava para dentro da calça
uma camisa listrada, já esmaecida pelo tempo, fumava o seu
inseparável cigarro, pigarreando e soltando longas baforadas.
Ora gargalhava, ora cerrava os grandes olhos e fitava o além
do alpendre como que para enxergar o fim da chuva. Seu corpo mexia-se
na espreguiçadeira mirando um céu escuro no nascente
inflamado de nuvens com um tom avermelhado. O tempo indicava que
tão cedo a chuva não iria se despedir do lugarejo.
Absorto na sua contemplação, mal conseguiu ouvir D.
Marta, que, trazendo um bule de café fumegante, chamava o
seu nome. Achegando-se lentamente, a simpática senhora pousou
uma das mãos em seu ombro. Foi, então, que se deu
conta e, abrindo um largo sorriso, agradecia a generosa oferta.
Ao levar o café à boca, estalou os dedos e emitiu
um elogio. Sentada ao seu lado a pequena mulher aproximou-se, e
foi dizendo:
- Viu, João? bem que eu pressenti! Taí a chuva.
- Sei, Martinha, às vezes penso que você é advinha.
Sempre consegue botar os olhos além da linha que corta o
horizonte, não é? Dizendo isso, abriu os braços
e apertou-a com um cuidado terno.
- Mas, vamos continuar nossa conversa de ontem, que me pareceu interessante.
Será que Ritinha vai mesmo se casar com o compadre Quebiá?
- Penso que sim. Afinal, ele parece ser um bom homem.
- Tem razão, minha filha, eles que se entendem. Só
não quero que a peste pegue. Já pensou se nossa filha
pensar em casar com um homem de 70 anos, mais velho que seu próprio
pai?
- Homem, ninguém entende o clamor do coração.
Quem sabe a menina gostou do jeito fino do velho? Na verdade, ele
não aparenta a idade que tem e tampouco parece ser um velho
fraco ou doente.
- É, às vezes, a vida guarda mistério. Falou
João.
Assim, ficaram papeando na varanda até o meio-dia, que chegou
sem muito entusiasmo, já que o sol estava escondido na roupagem
farta das nuvens.
As horas passaram e os dois ficaram abraçados, unidos por
tantos anos de convivência amorosa.
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