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Outro
dia no restaurante você me falou que quando se gosta mesmo de uma
pessoa, vai se embora do local sem se lembrar da cara de ninguém.
Você só tinha os seus olhinhos Guarani, úmidos e emocionados,
para mim.
Eu te disse que quando se gosta realmente de alguém, inventavamos
para este alguém um passado, uma estória, uma memória
que se torna nossa. Essa memória vira um aconchego para a emoção,
ou o repertório para o amor que já se sabia vindo um dia.
Você também me disse que imaginava a minha infância,
a minha mãe, a minha vida vivida pelas ruas do Rio. Sua construção
do que foi pra você a minha vida me parece a re-captulação
de suas lembranças ao chegar no Rio tão novo e cheio de
sonhos. E também tão cansado das 30 horas de viagem desde
Asunção a uma cidade que se a cada dia lhe parecia mais
maravilhosa, a cada dia mais intangível se mostrava.
Pra você talvez eu seja a possibilidade do sonho que chegou tarde,
e certamente em hora pouco conveniente, mas ainda assim, o sonho que se
quis um dia viver.
Você pra mim é um clarão, que tem me feito antes de
tudo, uma cega. E depois de um pouco, uma louca. E depois de muito..ha
eu já nem me atrevo a pensar no que poderei me transformar.
Ontem conheci esse que vive dentro de você, esse que te machuca,
que te faz machucar, que te sabota, que te desrespeita o sentimento, que
desafia a sua ética e todas as coisas bonitas nas quais você
insiste em acreditar. Nao gostei dele não, fiquei com vontade de
lhe jogar todos os bûzios e de te botar embaixo do chuveiro frio,
de te fazer um passe, de te enxotar o demônio. Mais tarde você
me disse, em tom de confissão..esse ai também sou eu e é
bom que você saiba.
Preferia nao ter sabido não. Preferia a ignorância romântica
à verdade suicida. Preferia você todo lindo com toda a emoção
que me faz tremer as pernas, com as palavras que me chegam aos ouvidos
como um passarinho, com as mãos que fazem o meu avesso se expor
para também senti-las, com o olhar capaz de iluminar a escuridão
da minha cidade. Preferia você assim, rei da terra do faz de conta.
Ver você se transformar em homem real diante de meus olhos, sem
aviso prévio ou preparação, me assustou. Vi a sua
coragem e desespero se revelando diante de mim, vi nosso nirvana indo-se
pelo túnel escuro que vive dentro de cada um de nós.
E vi você escapulindo por entre meus dedos, peitos, coxas e cabelos
quando o silêncio em você se fez. De manhã acordei
com um estranho em minha cama. E esse estranho também é
você.
Eu também tenho os meus túneis escuros, que embora a muito
tempo não percorridos, eu sei que eles vivem em mim. Tenho medo
que você abra as portas desse arcabouço e leve consigo as
chaves, me deixando só. Me deixando com frio. Tenho medo de uma
forma ou de outra, você me deixando. Às vezes penso que deveria
sozinhar-me num canto.
Hoje você apareceu diante de mim mais uma vez. Pra me dizer que
já não mais iria aparecer diante de mim. Para me dizer que
eu era promessa de vida, que eu era sonho, que eu simplesmente era.
Eu queria dizer que você me faz lembrar de uma esquina do Leblon,
de uma música da Elis, ou de uma certa livraria no Paço
Imperial. Você me faz lembrar quem eu já fui e me faz revelar
quem eu ainda sou.
Mas não se iluda meu amor, eu não era ou fui, eu sou. Mais
do que a apenas um mês atrás, mais do que algumas semanas
à frente. Eu sou e aí ficarei. E vai te coçar, e
vai te dar arrepios, e vai te incomodar que nem dor de dente ou noite
mal dormida.
E você sabe, como Drummond também sabia e como Alice repetiria
contando as sílabas nos dedos..
Mas as coisas findas, muito mais que lindas, estas ficarão.
Marcia
L. Triunfol
Bióloga, fundadora da organização sem fins lucrativos
O DNA vai a Escola e editora associada da revista americana Science.
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