Mára Pezzolo

 

Quando finalmente decidiu-se a sair da janela, já não havia nem rastro dele. Suspirou levemente, olhou em volta mas não viu ninguém nas outras janelas.
-Cada vez mais se vive nestas gavetas de cômoda- pensou, olhando para os prédios e suas janelas fechadas. Há meia dúzia de anos que mora aqui e, praticamente não conhece ninguém. Bom-dia, boa-tarde e pouco mais. Por isso agora ninguém pode socorrê-la.

Que diria o vizinho de baixo, por exemplo, se ela lhe batesse a porta e disse-se:
- Ele foi embora e não sei passar sem ele- terá de agüentar sozinha, sempre o soube.

Decidiu finalmente fechar a janela .
O barulho da porta batendo e o som dos passos dele pela escada abaixo ainda estavam dentro dos seus ouvidos. Alguma vez deixaria de estar?

Quando ela era muito pequena gostava às vezes de bater de leve com a ponta do garfo no copo, e ouvir aquele som fininho que parecia não acabar mais. Então, a mãe brigava , por que o copo era de cristal e poderia quebrar com aquela bobagem.

Bobagem era ela agora recordar dessas coisas tão sem propósito. Como já vão longe os copos de cristal, meu Deus! Só porque o silêncio, misturado com o barulho da porta se fechando, parecia nunca acabar, fininho, fininho, entrando fundo em seu coração.

Neste momento, o seu coração deve estar como o mártir São Sebastião, cravejado de setas, naquela estatueta que a mãe tinha sobre cômoda do quarto - "É o martírio" - murmurava a mãe, apontando, as setas e durante muito tempo ela pensou que "martírio" era o nome do santo. Só muito mais tarde quando aprendeu a ler e conseguiu decifrar as letras na base da estatueta, é que percebeu o engano.

Martírio é agora estar sozinha, e não poder deixar de pensar nele.

Olhou para o relógio. Como preencher o vazio daquela manhã subitamente imensa?

Pegou no telefone, de repente invadida por uma vontade incontrolável de contar a toda gente, de telefonar para todo o mundo; sempre que se sente triste vem esta vontade de ligar os primeiros números que lhe venham á cabeça. Lembra-se de uma vez ter visto um filme de suspense em que duas crianças, sozinhas em casa, se divertiam ligando para pessoas desconhecidas, dizendo apenas - "Sei quem você é, e vi o que você fez."

Sorriu com a recordação dessa estória, mas ela não é criança nem lhe dá prazer brincar.

Prazer lhe daria apenas uma voz consolando-a, do outro lado do fio.

A amiga não ficou admirada com aquele telefonema tão cedo. Parecia quase esperar por ele, quando lhe perguntou :
- E então?
- Ele se foi -respondeu- sem uma palavra, sem voltar na escada, sem um aceno, sem uma breve hesitação...
A outra dá uma leve gargalhada:
- E o que você esperava ? Uma cena? Estou até vendo, muito choro, muita lágrima, sei lá!

A essa altura ela já se arrependeu de ter ligado. A amiga nunca seria capaz de compreender. E o pior é que tem razão; era mesmo de uma cena que ela esperava.
- É estupidez, eu sei, mas estava à espera de qualquer coisa desse gênero, acho até que já tinha meu discurso preparado, mostrando-me forte, claro! Mostrando que sua saída não tinha importância nenhuma, que chorar era tolice. Saiu tudo ao contrário.
Ele desapareceu por aquela porta como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. E o pior de tudo é que ele esta em toda parte.
O seu cheiro está nas camisolas, no corredor, nas paredes desta casa, no pijama que deixou caído no chão, tal era a pressa.
Pareço uma tola, aqui no meio da casa, sem saber o que fazer do meu tempo, da minha vida.
- Ora, o que se há de fazer?- falou a outra - Agüenta, como nós todas agüentamos. Ou você pensa que é a única? Com o Ricardo foi a mesma coisa. Saiu de manhã como se fosse coisa habitual, e esta casa também ficou enorme. Ficam sempre enormes as casas quando eles saem.
E depois acrescentou:
- O primeiro dia é o que mais custa, depois nos habituamos- suspirou fundo e reclamou- É a vida.
- É a vida - repetiu ela.

Combinaram um almoço, para um daqueles dias vazios, e acabaram desligando. Ah, se ao menos ela tivesse um emprego, um lugar onde estar na hora certa, com um chefe dando-lhe ordens, tarefas a cumprir; tudo seria diferente, as horas teriam menos minutos, os minutos menos segundos e ela menos tempo para pensar na falta dele.

Ora, fora por causa dele que ela deixara o escritório. Lembra-se como na época a mãe a censurara, com aquela voz sempre velada que tinha, a mesma que, há muitos anos apontava o corpo de São Sebastião cravejado de setas, murmurando "é o martírio, é o martírio". E agora , por mais que custe admitir, percebe como ela tinha razão.
- Isso chega a ser uma obsessão mulher ! - dissera então a mãe- e não é bom nem para você nem para ele! Volta para o emprego, saia de casa, espairece!
Mas ela não quis ouvir. Naquela altura só tinha ouvidos para a voz dele, só tinha olhos para o olhar dele, e decidira que todo seu tempo lhe seria dedicado, que mais ninguém no mundo entraria em seu coração.
Só agora percebe como estes últimos seis anos a separaram das amigas, daqueles pequenos prazeres a que em outros tempos se dava; uma ida ao cinema, ao teatro, um fim de tarde falando da vida, somente agora se apercebe que tinha, afinal, vivido exclusivamente para ele. De repente, tem de repetir baixinho, como nos tempos em que fazia alguma arte e sua mãe a castigava:
- Eu não volto, eu juro que não volto!

Respira fundo e tenta coordenar as idéias, fazer planos, prometendo a si mesma seguir outros caminhos na vida.
Mas não consegue. Talvez, como a amiga dissera ao telefone, o primeiro dia fosse o mais difícil, e ela depois conseguisse se acostumar aos dias que viriam, por enquanto ainda é cedo.

Ele bateu a porta há poucas horas, tudo está vivo demais!
Vagueia pela casa que nunca lhe pareceu tão grande, tão vazia, tão fria, os olhos sempre pregados naquela porta, naquela janela, nas vozes que ouvia lá fora, e que nunca eram a voz dele. Se não fosse a mãe ter entrado em casa por volta do meio-dia, com certeza nem teria almoçado!
- Credo, mulher! Que cara de enterro, parece que é o fim do mundo!

Não respondeu. Desde que era criança a voz da mãe tem o dom de emudecê-la. Encolheu os ombros, e pôs água para esquentar e fazer um chá; de repente estava muito frio e nem se deu conta que a mãe continuava a falar, falar, falar...
- Eu bem que avisei, agora não se queixe.

A mãe sentou-se numa das cadeiras da cozinha, e já se embrenhava por uma complicada teia de abertos e fechados de um de seus inúmeros guardanapos de crochê que trazia sempre consigo dentro da bolsa, "porque nunca consigo ficar sem fazer nada" - se ao menos ela soubesse crochê.
- Obsessiva. Obsessiva é o que você é, julga que é assim que se gosta de uma pessoa? Agora é o que se vê, ele sai porta afora e você parece uma morta viva.

Contou os abertos daquela carreira e depois, olhando por cima das lentes dos óculos de perto, disse:
- Sabe o que você devia ter feito? Devia ter arrumado outro! Ao menos agora não estaria com esse jeito tão desamparado.
- Mãe, não diga uma coisa dessas! - exclama admirada de sua própria voz.
- Digo e torno a dizer. Teria sido um santo remédio!

Não quer mais ouvir. Começa a preparar o almoço, pois a mãe não fez menção de sair de lá tão cedo. Irá mexer uns ovos, fazer uma salada, sem disposição para pensar em comida. A mãe a vê colocar os ovos na frigideira e resmunga que aquilo é um veneno para seu fígado, e não sei quê do colesterol, não sei quê das gorduras, mas ela faz que não percebe e murmura:
- Não sei o que almoçar sem ele ao meu lado.
Mas logo a mãe responde em voz dura:
- Pois é bom que vá se acostumando, por que os almoços com ele acabaram, minha filha.

Tem uma grande vontade de chorar, e não consegue engolir mais do que duas garfadas, enquanto a mãe se encarrega de terminar o resto, apesar do fígado, do colesterol e das gorduras.
Quando, por fim a mãe voltou para casa, soltou um suspiro de alívio, e de repente percebeu-se murmurando "é o martírio, é o martírio", lavou a pouca louça do almoço, ligou a TV e ficou olhando a tela, sem nada ouvir ou ver.
De repente, o toque repetido e insistente de uma buzina acordou-a, teria adormecido em frente à tevê?

Olhou para o relógio da sala que, naquele preciso momento, marcava cinco horas, a buzina voltou a fazer-se ouvir, insistentemente.
Era ele! Tinha de ser ele!
Era ele que voltava!

Levantou-se do sofá, esquecida do silêncio da casa, esquecida das setas entrando em seu coração, esquecida das palavras da mãe, do telefonema da amiga.
Correu para abrir a janela, e logo o viu, corado e feliz, o uniforme sujo de terra, a pasta nova carregada junto ao corpo, gritando-lhe da rua:
- Mãe, mãe! Já sei escrever meu nome!

 

 

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Mára Pezzolo
Tenho grande amor e com ele gerei um casal de filhos, cuida e amo duas gatas.
Estou empresária, sou escritora. Membro da Comissão de Literatura de Santo André, registrada como escritora internauta. Texto publicado na Antologia "Novos Autores do Estado de São Paulo" - Editora Casa do Novo Autor e algumas crônicas publicadas em jornais.
Completamente carente de objetividade.
Isso, e melhor não sei.
Email: iblismp@hotmail.com

 

 

 

 

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