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Mão Branca

"Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se neste andar"
Lei/DF Nº 3212 de 30.10.03

Li o aviso na porta do elevador e ri-me dele, como sempre faço. Uma menina de oito anos despencou no fosso de seu prédio, após abrir a porta do elevador e correr inadvertidamente para dentro. Foi o suficiente para a corrupta Câmara Distrital promulgar a óbvia lei: veja se tem elevador antes de pular no fosso.
- É uma ótima lei! - explicou-me um empresário que confecciona placas publicitárias. - Vendi uma placa para cada elevador da cidade. Ele só deixou de me contar que era primo do deputado que propôs a lei.
Entrei no elevador ainda sorrindo.
- Tá rindo de quê? - perguntou o vizinho do andar de cima. Barulhento e peidorrento, tem mania de andar com os sapatos de salto da mulher quando ela está fora.
- Do mesmo - respondi.
- Do mesmo o quê? - Insistiu.
- Do mesmo de que ri ontem, - provoquei sua curiosidade - quando entrei no elevador.
- Você tá me sacaneando?
- Não. - Ele não entenderia a brincadeira. Um homem que se banha após trepar com a própria mulher não merece muita consideração. - Eu estava rindo do aviso nas portas dos elevadores.
- Ah, o criminoso.
- Criminoso? - Não entendi.
- Você não acha que criaram a lei apenas por causa da menina que caiu no fosso, não é?
Assenti.
- Não seja tão simplório, meu caro. - O vizinho passou o braço pelo meu ombro. Ele é bem mais baixo e seu sovaco suado lambuzou minha espátula. - Há mais mistérios ao nosso redor do que sonha nossa limitada imaginação.
- Do que você tá falando?
- Não posso contar aqui. - Ele protegeu a boca para falar. Olhou para os lados, desconfiado. Apontou a câmara filmadora sobre a porta. - O Mesmo tem ouvidos por todos os lados?
- O mesmo?
- Shhhh. - O vizinho tapou minha boca com sua mão úmida e com dedos pequenos e gordos. - Não fale esse nome aqui dentro. Procure mais informação.
Desceu no térreo sem me olhar novamente. Sua figura lembrava Alfred Hictcook de camiseta e chinelo após cometer um assassinato cinematográfico.
Por mais idiota que a história me parecesse, fiquei com aquilo na cabeça.
Na repartição, esperando o elevador chegar, cercado de anônimos servidores públicos como eu, avistei um conhecido.
- Pêra, o que você sabe sobre essa lei distrital que obriga todos os elevadores a terem um aviso na porta? - Perguntei.
- Uma menina caiu num fosso de elevador, então...
- Não, - interrompi - quero saber a história do tal O Mesmo.
- O Mesmo? Que mesmo?
Notei que algumas pessoas nos olharam assustadas, outras levantaram os olhos apreensivamente, a maioria se afastou deixando-nos numa clareira na multidão.
O dia correu tranqüilo e chato, como todos os dias, porém ao fim da tarde a secretária entrou esbaforida na sala.
- O doutor Pêra foi atacado aqui no prédio! - Disse num espasmo. - Ele foi levado de ambulância para o hospital.
- O que aconteceu?
- Ninguém sabe ao certo. - Ela fez uma pausa para centralizar minha atenção na próxima parte da fofoca. Secretárias são muito eficientes na comunicação sobre a vida alheia. - Ele ficou gritando "tá apertado, tira daí" até os enfermeiros o sedarem.
- Está muito machucado?
- Parece que não. - A secretária então assumiu um ar misterioso e estendeu-me um pedaço de papel. - Ele deixou isso para o senhor.
No papel havia um endereço da internet: www.omesmo.cjb.net. Acessei a página. Uma denúncia alertava sobre O Mesmo. Era um criminoso que atacava as pessoas que invocavam seu nome durante as viagens de elevador. Havia até algumas fotos borradas do meliante, provavelmente feitas através de um olho mágico. "O Mesmo age como um fantasma", dizia a página. Não haviam relatos dos ataques pois suas vítimas se recusavam a contar o acontecido.
- Que loucura é essa?
Continuei a leitura; ninguém havia visto seu rosto, nem era sabido se era apenas um bandido ou haveriam cúmplices. Desconfiava-se que se tratasse de um grupo terrorista que pretendia criar uma figura lendária, um mito, para depois usá-lo como mártir de sua causa.
Alguns deputados distritais haviam sido atacados, dizia a página. Temendo pela população e sem querem alardear os verdadeiros fatos, os deputados decidiram implantar o aviso na porta dos elevadores. A justificativa era que ainda que não explicassem a verdadeira intenção da placa, a simples preocupação com a presença do delinqüente já era suficiente para dificultar suas ações ilegais.
- Mas, afinal, o que esse O Mesmo faz com suas vítimas?
Procurei meu conhecido, o Pêra, mas ele preferiu guardar silêncio.
- Não quero falar sobre o assunto - disse, ríspido.
- Ajude-me, Pêra - pedi humildemente. Ele soltou o ar dos pulmões em consentimento.
- Ele usa uma camisa branca escrito "O Mesmo".
Durante semanas tentei encontrar mais informações. Senti um certo temor entre as pessoas ao tratar do assunto. Suas vítimas não se revelavam abertamente, eu percebia que tentavam me dissuadir de minha busca.
Um dia, com a história meio esquecida nos meus arquivos cerebrais, julguei ver alguém me encarando em frente ao elevador do shooping em que eu estava. Procurei entre as pessoas o sujeito que me olhava mas não o avistei novamente. Ele me pareceu estar de camiseta branca porém não tive certeza.
O elevador chegou e logo ficou lotado. Gentilmente me ofereci para esperar o próximo. Acabei ficando sozinho no andar.
- Quase entrei no elevador sem verificar se O Mesmo estava aqui - comentei em voz baixa. Desde que meu vizinho falou do meliante nunca mais entrei num elevador sem olhar para os lados.
Subitamente senti uma presença atrás de mim. Olhei de soslaio e vi um sujeito da minha altura, usando uma camiseta branca. O calafrio atingiu minha coluna e subiu até o pescoço, travando-o. Tentei olhar novamente a camisa. Não consegui; fui atacado antes de ver o que estava escrito, mas posso jurar que era "O Mesmo".
Senti as hábeis mãos do criminoso penetrando o cós da minha calça, pelas minhas costas, e encontrando a borda da minha cueca. O primeiro puxão esmagou minhas bolas, separando-as em hemisférios e tendo a cueca como a linha do Equador. O segundo puxão fez o Equador, ou melhor, a cueca escorrer pelo ânus e separar as nádegas de maneira, talvez, definitiva. O terceiro e último puxão foi seguido de um "click" e uma risada. Ainda consegui ver o bandido descendo as escadas às gargalhadas antes d'eu desmaiar de dor.
Quando fui acordado pelos transeuntes, dolorido, vi que O Mesmo quase havia arrancado minha cueca pela cabeça, levantando-a ao máximo e a prendendo com um alfinete de pressão, o "click" antes do desmaio. Meus testículos estavam inchados e minhas nádegas não seriam mais tão estreitas. Recompus-me do jeito que deu e fui embora para casa.
Encontrei o vizinho de cima.
- Como andam as coisas? - Fez cara de suspense. - Achou o que procurava?
Pensei em contar-lhe que o criminoso não passava de um levantador de roupas íntimas, um puxador de cuecas, um tarado que se especializou em içar as cuecas e calcinhas pelas costas de suas vítimas, atordoando-as com a dor, o susto e principalmente a humilhação. Lembrei da lenda que dizia que O Mesmo tem ouvidos por todos os lados.
- Não.
O vizinho me olhou de baixo para cima. Incomodou-me aquele olhar. O homem limpa a bunda com o chuveirinho da privada e geme de prazer quando a água escorre pelo seu rego. Que moral ele possuía para me avaliar?
- Sei. - Abraçou-me novamente e encostou o sovaco molhado no meu ombro. - Uma dica: não se meta com "aquele que não devemos falar o nome".
Cheguei ao meu apartamento, procurei uma camiseta velha e branca, risquei umas palavras na frente e esperei em silêncio no apartamento. Alguns minutos depois escutei o vizinho caminhando pela sua sala e girando a chave da porta da frente. Vesti rapidamente a camiseta e corri para as escadas. Subi vagarosamente os degraus até ver por uma pequena fresta o vizinho esperando o elevador.
O botão iluminado acendeu, mostrando que o elevador havia chegado ao andar. De sopetão, pulei os degraus que faltavam e cheguei às costas do vizinho antes que ele notasse minha presença. Enfiei as duas mãos por dentro da sua bermuda, segurei a cueca e a puxei para cima com toda minha força.
- Ugh! - Gemeu o vizinho. Puxei pela segunda vez e percebi que ele parou de respirar. No terceiro puxão senti que seu corpo amolecia. Ele havia desmaiado. Acomodei-o no chão e fugi às gargalhadas.
Voltei ao meu apartamento certo de não ter sido seguido. Sorri satisfeito por me vingar do meu chato vizinho.
Foi assim que acabei por me tornar mais um O Mesmo!

 

Entrei de fininho em casa. Notei que alguém tomava banho. Enchi um copo com água gelada e me pendurei na alta janela do banheiro. De surpresa, joguei a água para dentro do boxe do chuveiro. Escutei um gemido abafado quando o líquido atingiu a pessoa que se banhava. Sai rindo às pampas; era uma brincadeira comum naquela época.
- Se fedeu, se fedeu.
Na sala vi meus pais recepcionando um monte de pessoas. Eram parentes distantes. Uma velharada enrugada e estranha.
- Esse é o tio Beto, o tio Humberto, o primo Roberto... - Meu pai começou as apresentações.
- Quem é que está tomando banho? - Perguntei.
- A sua prima-tia Vera, - respondeu minha mãe. - Ela é bem velhinha.
Meu coração tropeçou. Joguei água gelada numa vovó e ainda trocei com ela. Esperei-a sair do banheiro e me preparei para a bronca. Como ela não falou nada, mantive-me calado.
Durante o jantar, com toda a trupe à mesa, puxei conversa com a prima-tia.
- Acho legal você ser minha prima e ter o nome Vera. - Sorri com todos os dentes. - Posso chamá-la de Primavera.
A velha me olhou com cara de tédio. Meu pai interviu.
- Tono.
- Como é? - Perguntei.
- Pode chamá-la também de Tono.
- Tono?
- Sim. - Vi os olhos de meu pai brilhando. Ele iria soltar algum trocadilho. - Chame-a de Primavera ou Tono.
Fiz uma careta divertida. Os trocadilhos eram sempre horríveis.
- Parem de bobagens. - Anunciou minha mãe. - Se continuarem com essa besteira de Primavera e Outono, vocês verão.
Todos olharam surpresos para ela. Caímos na gargalhada.
Minha mãe acomodou os parentes nos quartos e deslocou as crianças para a sala. Ganhei um edredom e um travesseiro para dormir no sofá.
No meio da noite, incomodado com os altos roncos da parentada ancestral, resolvi agir. Coloquei uma fita virgem no gravador portátil e me esgueirei para baixo da cama do tio Zeca, o mais roncador. Gravei uns quinze minutos do arrepiante rosnado que ele emitia entre soluços e ásperas tosses. Ainda me arrastando, escondi-me debaixo da cama da Primavera. Na escuridão do quarto tentei apertar os botões play e record para iniciar nova gravação. Enganei-me e apertei apenas o play.
Do gravador saiu o assustador ronco do tio Zeca.
- Ai meu deus. - Gemeu a prima, acordando num pulo.
Tive medo de desligar o gravador. O barulho da tecla me delataria. A gravação durou alguns minutos. A prima continuava gemendo dentro das cobertas.
- Ai meu deus, ai meu deus. - A gravação terminou. A prima esperou alguns segundos. - Onde foi? Cadê o ronco? Será que vai me atacar? Ai meu deus.
A velha se contorceu na cama. Achei que fosse se levantar e chamar alguém. Apavorei-me com a idéia de ser flagrado. De impulso, imitei o ronco do tio Zeca.
- Roar.
- Ai meu deus. - Chorou a senhora. - Tá debaixo da cama.
Rosnei novamente. A prima Vera ficou imóvel. Continuei roncando em intervalos regulares. Queria mantê-la deitada. Subitamente um cheiro forte de urina empestou o ar. A velha se mijou, pensei. Até achei engraçado, mas logo lembrei que eu estava debaixo da cama.
No outro dia minha mãe me encontrou logo cedo saindo do banho.
- O que houve? Caiu da cama?
- Não. - Resmunguei. - Eu estava debaixo da cama.


 

Mão Branca
É o pseudônimo do escritor Giovani Iemini ou será o contrário? Morador de Brasília, tem mais de 30 anos, conhece profundamente a perversidade humana e tenta de todas as maneiras ver-se livre das amarras da própria limitação. Mão Branca vive tomando umas nos bares da cidade mas está sempre à paisana, o que não quer dizer que seja o Giovani. Gosta de coisas simples mas limpinhas. Detesta politicagem e vive mandando tudo à merda. Gosta de futebol, mulheres, roquenrou e cerveja. Acha a cachaça a bebida dos deuses. Cactólogo, historiador, gibizeiro, roqueiro, marido, enxadrista, pintor e músico (frustrado).

 

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