Lívia
Santana e Conrad Rose
Amantes
e celulares não combinam lá muito bem. Esses aparelhos
exercem um estranho efeito sobre os apaixonados, transformando-os.
Normais e pacatos companheiros podem conduzir-se ao delírio
extremo, algo como bolero com cuba libre na solidão às
quatro da manhã; ou mesmo uma das partes rasgar-se em prantos
- até em público! - e desejar a morte. Sua, do amor
da sua vida ou de terceiros. Tudo por uma simples ausência
de notícias.
Se
o barulho ao fundo não condiz com o esperado: maldito seja!
Começa logo o interrogatório que quase sempre conduz
à briga. Caso o outro lado ofegue ou sussurre: ou é
descaso, ou - bem pior - assunto escuso a ser investigado. Três
mais no questionário. E se porventura não atender(?),
aí vira censo em avalanche...
-
Amô-or.. Amo muito você, tá? Liga pra mim,
meu bem. Um milhão de beijos. Tchau! - gravou Débora,
dengosa em piscadelas, na secretária do infeliz.
Duas
horas e nada... Ela insiste da mesa de massagem, com máscara
de pepino no rosto...
-
Humberto. Amor, onde você está?... Tô com saudade...
E quero contar uma coisa... Sabe, no verão eu queria ir...
- um bipe rompe - Ai, beijo, tchau! - despediu-se aos ares.
Mais
uma hora... Da sauna seca...
-
Amor, ainda quero falar com você. Não esquece de
me ligar, tá? Um beijo! - gravou Débora, alimentando
estranhezas.
Quarenta
minutos... Do cabeleireiro...
-
Humberto, tô ficando preocupada. Tá tudo bem? Por
favor, me liga, tá? Beijo. - nos solavancos de quem lacrimeja.
Meia-hora...
Do chinês no shopping...
-
Amor, você não tá querendo falar comigo? Tá
me evitando? O que aconteceu? O que eu fiz? Liga, tá? -
um pé na histeria.
Vinte
minutos... Sapato novo...
-
Beto! - suspiro - Se tem algo errado entre a gente, vamos conversar,
meu amor... A gente pode resolver tudo, não é? -
fez ela trepidando o calçado inédito, o maior salto
que havia na loja.
Dez
minutos... Samba-canção embrulhada pra presente...
Numa mão sorvete de casquinha, noutra o aparelho... Débora
a cantarolar:
-
Adivinha o que eu comprei pra você-ê... Tem presente
pro Bé-tô... adivi-nha... - e na gangorra do distúrbio
bipolar: - Seu cachorro nojento, bandido, miserável! -
brado: - Eu mato você!
Cinco
minutos... milk-shake...
-
Amorzão?!... Desculpa, tá? Quero atrapalhar, não.
Beijo. - aos soluços.
Desliga
e liga novamente...
-
Quem é a vadia que está com você, Humberto?
Eu sei que tem uma vadia! Aposto que estão rindo de mim
agora. Ela é melhor que eu? - psicótica. - Eu acabo
com vocês dois.
Humberto
largou o celular no painel do carro e foi bater bola com os amigos.
Depois cerveja e recordações. Sentira falta alguma
do aparelho, até retornar ao veículo. Quinze mensagens:
treze da namorada e duas da mãe. Estas tiveram preferência
e alertavam que Débora estava ligando para hospitais e
delegacias à cata do desaparecido, quiçá
defunto. Então, ouviu a última da descontrolada:
-
Tá tudo acabado entre nós! Espero que você
morra! Ou melhor, vou me matar e você vai morrer de culpa,
bem devagar!
Ele
apagou todas as outras sem ouvir. Olhou pro telefone durante segundos
e acabou largando o encosto pra fora do automóvel, pela
janela. Foi ao encontro de Débora.
Blim-blom...
Ela girou a maçaneta trêmula e na pior das aparências.
Pálpebras inchadas e nariz avermelhado.
- Onde é que você tava?
- Jogando futebol e tomando cerveja.
- E por que não me ligou?
- Perdi meu celular. Sumiu. Desapareceu.
- Ai. Eu fiquei tão preocupada, Beto... Que bom que você
tá bem!
Abraços
e beijos.
Humberto dormiu por lá. Empenhou-se em sossegar a namorada,
que saiu cedo pra trabalhar. Sozinho na cama, ele divagou sobre
possíveis enredos que fizessem Débora desejar a
morte. Desta feita foram suas as estranhezas e tanto ruminou que
concluiu: Débora o traía. Sondou gavetas e saiu
dali disposto a botar detetive atrás dela.
| Lívia
Santana
É mineira de Uberlândia, tem 21 anos e bacharela-se
em Direito. Escreve por compulsão e tudo é
motivo, embora seus temas geralmente tenham relação
com a dor, seja física ou psíquica. Prefere
um estilo conciso, dizendo o máximo através
do mínimo. Os textos podem ser encontrados reunidos
na página http://garotaestrela.multiply.com
onde publica regularmente.
Conrad
Rose
33 anos, escritor ficcionista, nasceu em Curitiba mas reside
no Rio de Janeiro.
http://conradrose.multiply.com/

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