Krishnamurti Góes dos Anjos


Ele entrou no carro e acionou a ignição. Nada. Tentou outra vez, e uma vez mais. Ruído de bateria descarregada. Um súbito sentimento de pânico assaltou-o. Que fazer? Olhou o relógio. Sete horas. Às oito da manhã em ponto a reunião de diretoria começaria... Um táxi! Apalpou o bolso em busca do celular. "Ih... também não vai dar. Pego um na rua mesmo. Não, não posso correr esse risco..." Olhou pensativo para a vaga ao lado da sua na garagem, em busca da caminhonete Toyota importada, que recentemente comprara para Inês como presente, no dia em que resolveram morar juntos. Mas o carro estava com ela na academia de ginástica. Quatro quadras de distância. "Bom, vou em direção à academia, se no caminho encontrar um táxi... se não, pego-a na aula, deixo-a em casa, e sigo para a fábrica. O problema é dar essa paletada toda com este terno, esta gravata apertando-me o pescoço."
Caminhou pelas ruas quase desertas do bairro, sem que encontrasse o urgentíssimo táxi, e absorto em complicações sobre a linha de produção, estoques, cotações cambiais e cifras de faturamentos estratosféricos, só voltou a reentrar na atmosfera da realidade daquele dia, pelo efeito da cadencia veloz da música que marcava o passo dos exercícios físicos na academia.
...
Sua mulher estava em um grupo de umas dez ou doze alunas, todas vestidas em malhas coloridas coladas ao corpo. Seguiam as orientações para a execução dos exercícios que lhes iam sendo passadas por um musculoso instrutor, também este em calça e camiseta apertadas.
O instrutor gritava e batia palmas de estimulo:
- E um, e dois, e três e vai! Joga os braços na linha do ombro, para a direita três vezes. E pára na frente. Os pés juntos, a coluna ereta! E um, e dois, e três e vai! Agora para a esquerda. Dez vezes e vai! Um... dois.... três... quatro...
Da porta da sala de aula, ele via a imagem do grupo refletida no espelho que forrava toda a parede em frente. Através do espelho podia visualizar o rosto de Inês na primeira fila, próxima ao instrutor. Da porta, enxergava a nuca recoberta com os cabelos castanhos encaracolados, os ombros, as curvas que iam dar na cintura... a bundinha de Inês... Apesar dos quarenta anos, era bonita. A típica mulher brasileira. Morena, baixinha, redondinha... "gostosa ainda" pensou enquanto lançava um rápido olhar ao relógio. O instrutor agora determinava outra série de exercícios:
- E pára! Inspira fundo... agora... expira com calma... de novo... mais uma vez... relaxa. E agora ó. De pé ainda, separa bem as pernas, abre. Abre mais. Braços erguidos acima da cabeça, paralelos... e vai, devagar até tocar as palmas das mãos no chão. Depois volta, põe as mãos nos quadris e recomeça tudo novamente. E vai! Dez vezes, depois vamos relaxar dois minutos e passaremos às bicicletas ergométricas. E um... e dois...
Com os corpos fletidos para a frente, a visão do espelho ficou para o observador, mais livre, mais direta, de forma que agora, também ele se via refletido sob o caixilho da porta. O rosto emoldurado por uma cabeleira grisalha, ainda que barbeado, mostrava generosas rugas a descerem-lhe do nariz aos cantos dos lábios. Do pescoço para baixo o terno azul marinho escuro, ia alargando-se para os lados até a cintura. E esta imagem de si, refletida em meio a tantos corpos esbeltos e rígidos, o fez olhar para a própria barriga que se avolumava para a frente como a de uma grávida.
Impaciente, voltou a consultar o relógio e a fixar a imagem de Inês através do espelho. Buscava-lhe os olhos, e percebeu, não só no rosto afogueado, mas em todo o corpo dela, uma vitalidade e uma saúde, que contrastava imensamente com a obesidade que ele trazia em si. Num átimo, exasperou-se com aquela confrontação física, e desejou com ardor que aquela série terminasse. Ora, ele, diretor de uma grande fábrica, sem transporte, pingando de suor, e Inês ali, a poucos passos, exercitando-se tranqüilamente, sem sequer notar-lhe a presença... A pressa, o nunca acabar daquilo, o foi irritando mais e mais até que avaliou a sua situação aflitiva, em oposição à felicidade que ela deixava transparecer. Contraiu o rosto com raiva, e começou a pensar que ela já não era mais nenhuma adolescente para todo o dia estar naquela academia a esticar-se... Procurou comparar os corpos das outras mulheres (a maioria adolescentes), com o de Inês e nisto, nesta cegueira de rancor, começaram a se agitar dentro dele, como ratos, sentimentos mesquinhos de inveja, despeito e amor-próprio espicaçado.
"Ora, a verdade verdadeira é que ela também já não passa mesmo de uma coroa alegre!" - pensou.
Agora seu ódio transformara-se em escárnio. Queria zombar daquela revigoração forçada, queria mesmo fazê-la sentir que passava da conta, que a vida não lhe poderia ser assim tão bela, tão descontraída como ela queria naquele seu entusiasmo de ex-comerciária.
Enfim, concluíram a série e ela terminou por aperceber-se de sua presença. Foi ao encontro dele com um sorriso apreensivo.
- Oh, querido, você por aqui?... Já não devia estar na fábrica?
- Devia. Mas o carro não pegou, acho que deve estar com a bateria arriada. Então pensei em vir pegar você, deixá-la em casa e seguir com a Toyota - respondeu com irritação mal dissimulada.
- Mas, meu bem, a aula ainda não terminou... Por que você não ligou para a fábrica ou chamou um táxi?
- Inês, eu já estava em cima da hora e o celular também descarregou... Vamos, tenho que estar na fábrica às oito para uma reunião muito importante.
- Ah... mas eu queria tanto concluir a aula... Olhe, tome. Aqui está a chave do carro.
- E você, como vai retornar?
- Como você veio, a pé.
- Com essa roupa? Andando por aí? Ora, não lhe vai cair bem - ele retrucou num tom áspero e desdenhoso.
Então a expressão de alegria que ela procurou dar ao rosto quando o encontrou, desapareceu. Aquela última frase dita por ele, a fez sentir vergonha diante das colegas de "malhação", que começaram a prestar atenção ao diálogo.
- Olhe, meu filho, - recomeçou ela brandamente, quase cochichando e sorrindo para que as pessoas não percebessem que eles estavam tendo uma desavença - você vai para a fábrica e, quando a aula terminar, eu posso pegar uma carona com uma das meninas e...
- Inês, vamos logo. Agora, Inês. - apelou ele, com o rosto inflamado de irritação.
Os dois ficaram frente a frente alguns instantes, olhos nos olhos, esforçando-se cada um por ir até o impenetrável segredo do coração do outro, a sondarem reciprocamente o fundo de seus pensamentos, numa luta íntima de dois seres que, apesar de viverem lado a lado durante dois anos, se desconheciam, desconfiavam um do outro. Entretanto, o olhar dela começou a recuar da intenção de continuar na academia... Ela deu a entender isso pelo último olhar rápido e doce, que fez passar na retina dele uma evocação sensual que ela sabia; escravizava-a. Ele sentiu-se mais leve; experimentou mesmo um sentimento de vitória que massageou-lhe o ego dominador.
- Vamos, que você está mesmo muito atrasado. - Ela disse secamente.
No percurso de volta, não trocaram palavra. Ao ouvir o cantar de rodas se afastando da portaria do prédio, ela subiu ao apartamento mal conseguindo mover as pernas. Os músculos estavam um tanto doloridos pelo esforço de há pouco, e bastante trêmulos pela revolta contida. Procurava encontrar a mais ofensiva, corrosiva e venenosa palavra para atirar bem no meio da cara dele quando retornasse à noite. Mas, como?
Entrou em casa, vermelha, arfante, sufocada. Jogou-se na cama e começou a chorar. Sentia-se ultrajada, inconformada por não ter concluído a sessão de malhação daquele dia. Reviu a expressão de zombaria e sarcasmo de algumas colegas quando ela saiu da academia. E, quando recordou-se, então, daqueles lindos olhos verdes do instrutor, cheios de menosprezo para com ela, teve ímpetos de urrar de ódio
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Krishnamurti Góes dos Anjos (1960) - Atualmente residente em Angola, autor de O crime do caminho novo (romance), Gato de telhado (contos), Um novo Século (contos) e Embriagado intelecto (contos), que foi lançado no último dia 22 de Setembro em Salvador, do qual foi extraído o conto acima. Contatos com o autor: góes@capanda.com ou góes.anjos@bol.com.br