Um conto de Jango Rodrigues

 

Vestiram saínhas listradas e saíram por aí. Sem dar a mínima às papadas e bochechas, das quais tentavam desviar a atenção com as bocas vermelhíssimas e as pálpebras fortemente azuladas. Nem aos ventres já proeminentes, mal equilibrados por volumosas batatas da perna que finalizavam em pés enormes, verdadeiras patas espremidas em sapatos altíssimos de bico fino. Nas roupas, um verdadeiro vale-tudo.


Estávamos em Madureira, sábado de Carnaval. As ruas pululavam. Samba, suor e ouriço. Pessoas lindíssimas, misturadas a famílias do subúrbio, se acotovelavam para ver o desfile do Bloco das Piranhas: marmanjos acima de qualquer suspeita (entre eles famosos jogadores de futebol), todos respeitáveis pais de família, a desfilar ao som de uma batucada, vestidos de mulher. Caricaturas voluntárias. Pernas cabeludas, braços musculosos, barbas, bigodes e costeletas fingiam se disfarçar sob a pesada maquilagem, os seios de enchimento, as vestimentas improvisadas, bolsas e chapéus estapafúrdios, leques agilíssimos e aflitos. E as vozes, meu Deus!... Pareciam arapongas ensandecidas numa chanchada da Atlântida.


- Como você está pa-vo-ro-sa hoje, Matilde! - grasnou um segurança de banco, com bigode à la Stalin - enroscando um boá fúcsia de plástico barato em volta dos seios feitos de camisinhas-de-Vênus - para o ex-boxeador negão fantasiado de Xuxa, peruca de piaçava platinada ao estilo Maria Chiquinha, de braço com a ilustríssima senhora sua mãe.
- Despeitada!


Houve um rápido duelo de caras e bocas. A multidão, encantada, adorou. Gargalhadas intercaladas com gritos de incentivo. Uma dona-de-casa chegou a aplaudir, embasbacada. A mãe da Xuxa não podia esconder o orgulho do filhote, tão macho que se dava ao luxo de fingir de mulher em praça pública. Perto dali, uma muvuca. Esposa desbocada surpreendeu maridão dando pinta, enrolado no seu robe de chambre favorito de seda chinesa, bêbado que nem gambá.
- Volta pra casa, Edgar! Você me mata de vergonha!


Engraçadinhos ensaiaram um coro de "Pega ela, peru!". Mas não houve adesões significativas. Nesse momento, chegavam Dama Antiga (Artur de Tal, 40 anos, motorista de táxi), Mulher da Vida (Josimar Vanderley, 48, gerente de padaria) e Noivinha (Luís de Pina, 35 anos, farmacêutico) - noviços na floresta. Deixaram em casa mulher e filhos, e era a primeira vez que se atreviam. Três mocinhas elegantes: Cobra, Jacaré e Elefante. Pareciam umas palhaças. Já tinham tomado todas, estavam pela bola sete, e eram apenas duas e meia. O dia prometia.


- Com sua licença, madame, mas estou grávida do seu marido! - exclamou Noivinha, revirando os olhos, pendurada no braço de um velho setentão meio sem graça, que ria amarelo sob o olhar constrangido da esposa.
- No meu tempo não tinha disso, não! - suspirou Dama Antiga, atrás do leque.
Mulher da Vida dava gritos de Pomba-Gira, com as mãos na cintura, batendo pé. Súbito, escolheu o mais tímido entre os sorridentes em volta.
- Tá sozinho, simpático?
Mandou-lhe um beijo estalado. O rapaz sorriu constrangido. Mulher da Vida armou uma boca de flor e avançou. Tumulto. A vítima tentou escapar, foi seguro pelos amigos e terminou com uma enorme bocona de batom vermelho impressa na testa.
- Liga não, qu'ela é maluca... - aconselhava Mulher da Vida aos mais próximos.


Passaram toda a tarde nessa brincadeira. Quando veio o pôr-do-sol, resolveram chegar até o Centro e continuar a farra. Despencaram no primeiro trem. O vagão vinha cheio de foliões, a maioria para o desfile das Escolas de Samba. Assim, passaram meio desapercebidos. Depois de muito sacolejo, chegaram na Central. Já estava meio escuro, e nas proximidades, previa-se o inenarrável. Resolveram urinar. No banheiro da estação, uma verdadeira loucura. A catinga era como um soco na cara. Homens de todas as raças e idades, olhos injetados, balançavam as picas para os recém-chegados. Alguns afoitos tomaram intimidades.


- Chegou a alegria da rapaziada! - saudou um paraíba todo tatuado.
- Dá uma mamadinha aqui no vovô, vai... pedia um preto velho, de membro em riste.
- Grrrrrr, vou te comer todinha, piranha véia.
Artur, Josimar e Luis de Pina passaram maus pedaços e só foram salvos pela chegada de dois guardas ferroviários, que impuseram uma certa ordem. Escafederam-se espavoridos. Preferiram se aliviar num canto da rua imunda.


Nesse exato momento foram detectados por uma dúzia (ou mais) de olhos ameaçadores. Pivetes de um bloco de bate-bola, seguros atrás das máscaras e fantasias, cercaram os mijões no clássico arrastão, a fim de fazer um ganho. Empurrões, socos, rasteiras. Berros de baleia ferida. Na tentativa de escapar, Dama Antiga acabou abalroada por um ônibus que fazia uma manobra em marcha a ré, e atirada a dois metros de distância, ralada e de braço quebrado. Pessoas surgiram, e a turma do deixa-disso impediu o massacre. Recalcitrantes, os assaltantes recuaram e desapareceram no turbilhão da galeria da estação.
Restava socorrer o ferido. Dama Antiga, amparada pela Mulher da Vida e pela Noivinha, atravessou as quatro pistas da avenida, tomando a lateral do Campo de Santana rumo ao hospital Souza Aguiar. Não foi fácil. Não só a sua perna estava toda roxa e arranhada, como ela tinha um terrível galo na testa e sangrava pelo nariz. Para completar, havia muita gente na rua pra curtir com a cara delas. Na altura do Museu do Exército, um sentinela fez lingüinha de cobra e gestos obscenos. Um automóvel parou fora do sinal e o motorista gracejou pela janela:
- Tá machucadinha, querida?


Emergência de hospital público, sábado da carnaval, vocês podem imaginar. Um velho segurava com o lenço o olho quase pulando da órbita, cabeça manchada de sangue pisado. Uma prostituta banguela sorriu, convidativa, braço na tipóia. Criancinhas choravam nos braços das mães. Uma maca passou, apressada. A fila era grande e a espera prometia ser longa. Depois de uns 20 minutos, apareceu uma velha enfermeira. Era impossível ignorar um trio tão estapafúrdio. Assim, o ferido teve o privilégio de ser atendido. Ou, melhor, passar pela triagem. Deram-lhe um comprimido, limparam o sangue com um lenço de papel, e foi posto a esperar na fila do Raio-X. Nessa altura, ficara sóbrio e perdera todo espírito carnavalesco.
- Podem ir, que me viro sozinho.
- Vou ficar pelo menos até o médico aparecer.
- Eu também.


Mas os amigos acabaram indo, ao perceber que ia demorar mesmo, prometendo voltar. Passaram pela funerária ao lado, estrategicamente colocada, em busca de um boteco pra tomar um goró. Deram de cara com a fila de entrada do baile dos "entendidos" no Elite Club. Viados fortíssimos com shortinhos de Tarzan conversavam abobrinhas com mariconas feminis de ares professorais. Foram imediatamente cravejados de olhares ansiosos de classificar a dupla numa das diversas categorias homo. Ameaçado, Mulher da Vida resolveu afrontar, pra mostrar a diferença.
- Paraíba masculina/ muié macho sim sinhô - cantarolou desaforado, sacudindo a genitália.
Uma lésbica de casaco de couro de cobra empombou. Iniciou-se um bate boca agressivo.
- Sou mais eu! Pula dentro qu'eu quero ver! - grunhiu ela, caco de garrafa em riste.
- Sou mucho homem! - ele respondeu, abrindo o leque num gesto debochado e abanando as partes.
- Mulhé macho é a vovozinha! - arrematou uma cambona.
- Quem são essas peças? - perguntou outra, toda de preto, magra e branca como uma vampira, vozinha de menina e olhos de ressaca.
Fizeram uma meia-lua em torno do adversário. Pegava mal não encarar, afinal eram apenas três mulheres. Mesmo de porre, tinha de resistir. E assim foi feito. Desviando-se de um golpe, Mulher da Vida acertou um socão na cara da primeira, mas não pode evitar um leve corte no rosto. Sangue. Confusão. Noivinha não sabia o que fazer. Foi quando surgiu, ninguém sabe de onde, piscando a luz vermelha, um camburão silencioso. Desceu um PM, negro do tipo zulu, muito alto, muito escuro e muito bonito. Cabo Claudionor, a seu dispor. Seguia-o um soldado de corpo avantajado. Impondo respeito pelo volume e pelo passo firme, abriram caminho entre a multidão como duas orcas num cardume de sardinhas. Correu gente pra todo lado.
- Qual é a muvuca?
- Foi ela que começou.
- Ela quem?
- Essa maricona aí de vestido lascado - apontou a Draculita.
Na direção do dedo de unhas negras, o cabo e o soldado deram de cara com Mulher da Vida, rosto sangrando.
- Documentos.
Bem que ele quis mostrar, mas a pochete de oncinha estava aberta, toda rasgada. Completamente vazia. ("Quando foi que aconteceu essa porra?" pensou.)
- Perdi. Roubaram. Não sei.
- Então, por gentileza, nos acompanhe até a delegacia - falou melifluamente Claudionor, cujo olho clínico já detectara não estar tratando com nenhum gay de beira de calçada.
Josimar aflorou sob a pele de Mulher da Vida.
- Mas que absurdo! Não fiz nada! Eu é que fui o assaltado!
- Tá me acusando? - berrou a agressora.
O guarda segurou Mulher da Vida com força pelo braço.
- Melhor obedecer.
Noivinha arriscou, no meio da multidão.
- Ele é gente fina.
- É viado, mas é de respeito - debochou a cambona.
- Viado é a mãe!
Claudionor parou. Olhou em torno com o rosto impassível.
- Alguém aqui falou alguma coisa?
Silêncio geral. Noivinha se escondeu atrás de um grupo de mariquinhas.
- Se eu fosse você calava essa boca e ia embora de mansinho - aconselhou um gladiador de longuíssimos cílios postiços.
O cabo segurou a mulher do casaco-de-cobra, e ordenou :
- Vão os dois se explicar na delegacia.
- Ela não fez nada, protestou Draculita.
- Isso quem decide sou eu.
Alcoolizada, Mulher da Vida tentou resistir e o soldado não teve alternativa a não ser mandar-lhe um tapona na cara. Seu mundo caiu. Então os dois prisioneiros foram enfiados na caçapa do camburão, onde já estava um pardinho com cara de camundongo. Quando a viatura se afastou, rompeu uma vaia.
- Vão levar pra 4ª - informou uma bicha bondosa.
Todos correram de volta pra porta do baile. Noivinha ficou completamente sozinha debaixo de uma marquise, abandonada, pensando no que fazer. Cochilou em pé. Depois de um bom tempo, comprou nova lata de cerveja e tomou a direção indicada, ziguezagueando como um barco bêbado.


Bem antes disso, o camburão estacionara no pátio da delegacia. Havia muito movimento essa noite, na maioria chamados sobre desordens entre foliões, algumas com mortes. Um louco esfaqueara cinco pessoas na Tiradentes. Assalto num ônibus para Acari. Turista francês encontrado nu em hotel suspeito, narcotizado e acorrentado, sem uma só peça de roupa ou documento. Vadia corta cara de outra com gilete. Os três detidos foram apresentados ao ocupadíssimo delegado. Cara de Camundongo, na realidade Dedé Dendróbata, ladrãozinho fuleiro da região do Mangue, foi levado pra uma sala ao lado e dispensado após 15 minutos de conversa. Josimar/Mulher da Vida e sua companheira, Jezebel de Tal, alcoólatra, vulgo Mary Maciste, foram esquecidos num banco duro de madeira.
- Não vai dar uma de cagüete, vai?
- Tá me estranhando?
- Tudo bem, então. Já não tá aqui quem falou...
- Tu me machucou, meu - disse Maciste, alisando o queixo dolorido.
- E esse corte aqui na minha cara? Não conta?
Por pura falta do que fazer, os dois entabularam uma conversa e até fizeram confidências. Quase amigos. Foram liberados muitas horas depois, ao raiar do dia, sem ter sido ao menos interrogados.
Enquanto isso, horas antes, ao sair da delegacia, Dedé encontrara na rua Mylene Acordeon, Gigi Bombom e Mona Lisa, travecas na pior, loucas pra depenar um otário. Cheiraram lança perfume num estacionamento e partiram pra finalidade. Voltaram pro Campo de Santana. Ao longo dos muros, ocultos pela sombra das árvores, poderiam observar melhor as vítimas em potencial. A noite já ia alta, passava muita gente, mas ninguém sozinho. Súbito, olhos de lince, detectaram, do outro lado da rua, uma Noivinha desajeitada, cambaleando, tropeçando nos sapatos de salto altíssimo. Entreolharam-se, e, sem uma só palavra, botaram imediatamente em ação um instintivo plano de ataque.


Era preciso interceptar o otário antes que cruzasse a avenida e arrastá-lo para a ruela deserta e escura que fica à esquerda. Ali dominariam a situação. Abordaram o alvo por dois lados ao mesmo tempo. Dedé atravessava a rua quase na altura da vítima, enquanto os travestis vinham por trás, de modo a impedir a fuga. Mas não foi preciso nada disso. Com os pés em pandarecos, Noivinha entrou na tal viela por livre e espontânea vontade, só pra se livrar dos sapatos. Colocou-os debaixo do braço e já ia voltando, quando deu de cara com um mulato claro e franzino, cercado de três mulheres enormes, de shortinho, botas e coletes sem manga sobre os seios enormes. Prevendo uma furada, tentou ser mais rápido, mas, depois de tanta cerveja, não deu. Estava de fato encurralado. Mãos agilíssimas percorreram seu corpo sem piedade.
- Esse puto não tem nada!
- Deix'eu vê...
Dedé abriu a carteira e retirou a merreca. Estava visivelmente irritado. Deu uma cusparada pro lado e cantarolou, com voz sarcástica:
- Que é que faz com ele? Pau na bunda dele...
- Meu amigo, eu sou é homem. Pai de família ...., argumentou Luís de Pina, descartando-se da persona Noivinha...
A fantasia o desmentia completamente. Soprava um ventinho quente. O véu bateu no seu rosto, suado de nervosismo. O luar dava tonalidades estranhas ao platinado de Mylene. Essa deu um sorriso malvado.
- Tô louca pra comer um cu de pai de família.
- Uau! acompanhou Gigi, com olhar antropófago.
Antes que Noivinha abrisse a boca, Mona Lisa enfiou-lhe uma echarpe vagabunda goela baixo, que quase o sufocou. Só então percebeu que tinha exagerado na cerveja. Enquanto as duas travecas o seguravam pelas pernas, a outra levantou-lhe o vestido, abaixou-lhe a calcinha. Tudo aconteceu rapidinho. Sem poder gritar, o farmacêutico perdeu a honra com toda violência. Dedé também abriu a braguilha e se masturbava, excitadíssimo. Esporrou na grinalda da Noivinha profanada. Já Mylene não queria gozar, era só uma prova de poder. Uma espécie de revanche contra a sociedade estabelecida. Tirou o peru de sopetão. A Noivinha resfolegou baixinho.
- Agora é minha vez, reivindicou Mona Lisa.
Mas antes que se posicionasse, uma luz suspeita iluminou o local, assustando os protagonistas, como às hienas e outros predadores da noite. Dedé correu, levando a pouca grana arrecadada na operação. Os travestis também deram nas canelas, e os som dos seus saltos se afastando na calçada pareciam castanholas num diminuendo. Acabou que era alarme falso, apenas um táxi, e a ruela logo voltou à escuridão do seu abandono. Noivinha foi largado lá, caído. Pareceu ouvir um assobio, mas ao tentar descobrir a direção, viu, encima do muro da esquina, a silhueta do sentinela do Museu. Achou mais seguro dar um suspiro e desmaiar.


Acordou naquele exato momento que antecede o nascer do dia, quando a atmosfera fica fria, quase gelada, mesmo nos dias mais quentes do verão. Tentou se agasalhar com o vestido, ou o que restasse dele, mas tinha desaparecido. Estava só de cuecas, véu e grinalda. Sentiu um ardor na bunda, mas a ressaca não o deixava raciocinar, e assim não uniu uma coisa à outra. Enrolado no véu, dirigiu-se para a esquina, rumo à estação de trem. Pessoas semidestruídas, faces entumescidas pela vigília em busca da luxúria enxovalhante, olheiras profundas, fantasias aos trapos, seguiam na mesma direção, como uma procissão de mortos.vivos. No meio delas, os dois amigos. O primeiro de braço quebrado; o segundo com feia cicatriz entre o olho e a bochecha esquerda. Mancavam, apoiando-se um no outro.
Dama Antiga: - Parece que a noite foi animada, hein?
- Até perdeu o vestido..., ironizou Mulher da Vida.
Deram uma gargalhada de deboche. Noivinha desabafou.
- Porra! Sabe que não lembro de nada?
Juntos caminharam de volta ao lar, doce lar, sob o céu vermelho de uma aurora implacável. Tinha sido apenas o primeiro dia do carnaval. Que viessem os outros. E nada importaria, nem Deus, nem Pátria, nem Família. Imperariam apenas a orgia, a pândega e a bagunça. Liberdade à qualquer preço. Libertas quae sera tamen. Pra tudo se acabar na quarta-feira.

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Jango Rodrigues
É o pseudônimo artístico de alguém que prefere manter-se no anonimato. É carioca da Zona Sul, signo de Câncer e seu orixá é Oxóssi. Nasceu nos anos 1960 mas prefere não dizer a data exata. Trabalha como jornalista e pesquisador nas áreas de literatura e cinema. Decidiu agora investir na carreira literária. Só para desafinar o coro dos contentes.