Jairo Faria

Era uma vez...

Roda, roda, rodamoinho
Traz no centro um negrinho
Joga o terço, pega ele
Que ele abre o seu caminho...


Era um dia de domingo. Nós morávamos na zona rural de Paraibuna, uma pequena cidade do interior de São Paulo. Era final do mês de maio.Tínhamos acabado de fazer a colheita de café. Coisa pouca. Praticamente só para o consumo da casa, pois as plantas já estavam mirradas e velhas, como tudo em redor. Meu pai já estava pensando em se mudar dali. Eu tinha quase cinco anos e estava em casa com minha irmã mais velha, pois meus outros irmãos tinham saído. Minha mãe tinha ido á capelinha próxima para a missa de mês e meu pai estava assistindo uma partida de futebol num campinho cheio de estrume de vaca que ficava a uns 800 metros da nossa velha casa, logo após um pomar com laranjeiras retorcidas que pouco produziam.

Lembro-me que uma vez encontramos um filhote de preguiça enroscado num galho de uma velha laranjeira e levâmo-lo para casa. Era novinho ainda e ficou por lá, matando a curiosidade dos fregueses de nosso armazém.
Eu não consigo me lembrar o que foi feito dele. Será que o devolvemos à mata, ou será que morreu? Agora eu fico até pensando porque nunca perguntei aos meus irmãos ou ao meu pai que fim levou o bicho-preguiça .

A gente estava ouvindo o barulho vindo lá do campinho de futebol quando chegou em nossa casa um tio que raras vezes estava sóbrio e de vez em quando exagerava na bebida. Ele era alto, andava meio arcado e falava gritando. Ele era casado com a irmã do meu pai e a criançada tinha medo dele, inclusive eu, pois quando bebia ficava violento e xingava todo o mundo. Mas a gente o respeitava porque, quando "não estava bebido", era uma excelente pessoa. Se bem que naquele tempo criança respeitava todas as pessoas mais velhas. Se respondesse, era surra com vara de marmelo na certa.

A causa de tudo

Como ele aquele dia estava bem "alto" pelas pingas que tomou pelos botecos da beira da estrada, começou a falar mal da nossa " porcada".
A minha mãe tinha uma criação de porcos no fundo de nossa casa que era seu xodó, e ela tinha predileção por uma porca já velha que tinha dado várias crias em casa, e foi justamente desta porca que ele começou a falar mal. Dizia ele que era uma porca desajeitada, feia e que minha mãe deveria fazer sabão dela, que seria bem melhor. Eu estava escutando ele dizer tudo isto. Quanto mais ele falava, mais bravo eu ficava, até que não agüentei e xinguei .

Eu disse que ele era um bêbado e que fosse embora. Minha irmã ficou uma fera comigo e pediu desculpas ao meu tio, que já estava indo embora cambaleando.

Quando ele saiu, ela disse que ia contar tudo pro meu pai e que eu tinha maltratado nosso tio. Eu fiquei apavorado. Já começava a sentir a vara de marmelo me cortando as pernas.

Quanto mais o tempo passava, mais eu ficava apavorado. Eu sabia que daqui a pouco o jogo terminaria e meu pai viria para casa.
Quem sabe se minha mãe chegasse antes e eu contasse tudo pra ela eu escaparia da surra?
E se ela fosse até a casa de minha madrinha e voltasse só à noitinha... aí seria tarde demais. Eu já estaria com a bunda ardendo.
Vou ter que fugir... pensei.

A busca na noite

Já havia passado duas horas que meu pai tinha chegado do jogo e nada de eu aparecer.
Já estava começando a escurecer e nada. Ele sumiu... disse meu pai. Vamos chamar os vizinhos para ajudar !

Um pouco mais tarde todos os vizinhos já estavam ajudando a me procurar. Procuraram em todo o cafezal. Procuraram no pomar. Nos pastos. A esta altura já tinha mais ou menos umas trinta pessoas percorrendo os morros e gritando pelo meu nome com lanternas e lampiões.

Escurecera rapidamente. Um frio cortante começou a percorrer os morros e as espinhas das pessoas que me procuravam. Ele deve ter caído em algum buraco e... falou alguém. Começaram a pensar o pior. No meio destas pessoas estava um preto velho rezador que disse entre os dentes: Eu acho que foi o saci que escondeu ele!

Todo o mundo ficou espantado e uns já fizeram o sinal de cruz em sinal de respeito.
Nesse meio tempo, chegaram mais uns vizinhos dos sítios da parte de baixo do rio trazendo enxadas e pás dizendo que eu poderia ter caído no tanque .

O tanque era uma represa da água de um córrego que na época da chuva transbordava passando por cima do dique, invadindo a estrada. Ele era bem fundo e a água escura punha mais medo ainda. Era noite de lua cheia e esta refletia no espelho d'água formando imagens aterradoras.

Vamos arrebentar o tanque! eles diziam. Ele só pode estar aí!

Preto véio rezadô

O saci carregou o menino! dizia o velho preto, enquanto fumava um pito, indo sentar para rezar na beira barranco logo abaixo do tanque.

A esta altura, o desespero já tinha tomado conta de minha família. Minha mãe só chorava e rezava com o velho terço de semente cinza nas mãos. Meu pai estava apavorado. Aquele homem bruto acostumado com a vida dura da roça já estava pronto para mandar arrebentar o tanque quando alguém gritou: Encontrei ele!

Todos correram, atravessando a estrada e, numa baixada, logo no caminho que iria passar toda a água se acaso o tanque fosse arrebentado, eu estava dormindo dentro de um buraco escavado no barranco.

Como é possível isto... disse um dos homens que estava me procurando. Eu passei por aqui varias vezes e olhei aí dentro. Não tinha ninguém!
Eu disse que o saci tinha escondido ele! Ninguém quis acreditar... falou o preto véio que ainda continuava rezando sentado no barranco.

O que aconteceu...

À noitinha, deitado em minha cama, cercado de toda a atenção de meus pais e irmãos, meu pai muito sério perguntou: O que aconteceu com você?
O saci me levou... respondi bem baixinho
Meu pai não me perguntou mais nada e ninguém nunca mais tocou no assunto.

Eu tinha escapado da surra. Depois que apagaram a lamparina do quarto eu tentava me recordar do que realmente tinha acontecido.
Lembro-me que estava dentro do buraco riscando a parede do barranco com um pedacinho de pau. Parece que tinha alguém comigo... Lembrei também de ver os lampiões de querosene passando perto da onde eu estava. Pessoas gritando o meu nome com enxadas e picaretas nas costas. Eu pensava na confusão que havia provocado. A surra ia ser bem maior. Quis gritar. Avisar que eu estava bem ali. Porque eles não me achavam? Eu estava tão perto! Minha voz não saía. Parece que existia uma parede transparente que me separava de tudo. Eu podia ver tudo e eles não podiam me ver. Lembro-me de um homem de roupa branca passando em frente da entrada do buraco, olhado lá para dentro e gritado o meu nome. Respondi que estava ali, mas ele não me ouviu. Gritei, e nada dele me ouvir. Comecei a chorar. O tempo passou e eu adormeci, choramingando, recostado na parede de terra úmida, ouvindo ao longe uma risadinha malandra.

Desde aquela noite até hoje não consigo descobrir realmente o que aconteceu. Se foi uma mentira para escapar da surra de vara de marmelo ou se era do saci, a risadinha malandra que às vezes ainda ouço quando penso no que aconteceu.

 

Jairo Feliciano de Faria
Natural de Paraibuna, SP, nascido em 12 /12 /1949. Atualmente mora em Jacareí, SP. Trabalha como projetista da construção civil desde 1970.Tem escrito pequenos contos, poesias, enredos de escola de samba. É autor de um auto de Natal que foi encenado em 1975 pelos próprios pacientes do Hospital Vicentina Aranha, em São José dos Campos. Sempre escreveu como hobby, não tendo nada publicado, talvez por falta de incentivo ou conhecimento. Morou dois anos fora do país e isso o fez valorizar mais a sua terra e o seu modo de vida. Tem criado textos sobre a vida difícil de um brasileiro em terra estranha.