| Henriette
Effenberger e Fernando Carlos de Andrade
Ela
tinha 1,57 de altura e pesava 72 quilos. Usava uma camisola branca,
curta, decorada com um rosto feminino, escrito Magic Girl, em
letras vermelhas. Despenteada e com os olhos inchados, olhou-se
no espelho e sorriu para a imagem que viu refletida. Lembrando-se
de que ainda não tinha escovado os dentes, guardou o sorriso,
abriu a torneira do chuveiro e deixou que a água escorresse
por seu corpo.
Olhou
pela pequena janela e viu o céu desperto numa manhã
radiosa que prenunciava o nascimento da nova mulher a que se propunha
ser. Para tanto, teria que vencer aqueles malditos quilos. A cada
aproximação do fim do mês, a promessa de que
no mês seguinte cumpriria metodicamente os exercícios
físicos e a dieta imposta pela nutricionista indicada pelo
seu já desanimado endocrinologista.
Cantarolou
o "que será, que será..." de Chico Buarque
e pensou na alcova sempre vazia. Mas ia dar um jeito em tudo aquilo.
Quilos a menos, caminhadas a mais, e surgiria a nova Elvira, sedutora
e seduzível, como fora alguns anos antes com Alfredo, seu
primeiro marido.
Enfiou-se
no jogging, calçou o tênis e, porta afora, seguiu
célere para o
calçadão, misturando-se às que, como ela,
buscavam o novo padrão ditado por
estilistas homossexuais e politicamente corretos com seus proeminentes
bustos, bundas ajustadas em apertados jeans, multicoloridas camisas
e
sapatos graciosos. Já se via como uma das giseles e naomis
magérrimas. Mas
vômitos estavam fora de sua cogitação, bem
como jamais abdicaria dos gateaux da pâtisserie da esquina
de sua casa, ponto obrigatório na volta do
escritório.
Perdida
em pensamentos, walkman embalando seus passos cadenciados ao som
de "Boom Boom My Hearth", cruza com Mário, o
ex-gato das tardes dançantes do clube.
Finge
que não vê, o que até poderia ser possível
pelas grossas
lentes que a miopia a obrigava a usar, mas impossível pela
barriga ostentada e pelos ralos fios da outrora bela cabeleira
que emolduravam o nariz grego perfeito daquele que fora a paixão
da sua juventude.
Ao
acordar, sentindo os efeitos da bebedeira da noite anterior, com
a cabeça latejando, boca seca e lábios dormentes,
ainda sob o chuveiro, Mário determinou-se a mudar de comportamento.
A água que lhe empapava os poucos fios de cabelos que ainda
lhe restavam, acumulava-se no alto da barriga e quase não
atingia o órgão que, outrora, admirava com orgulho.
Hoje, avistá-lo, só com o auxílio do espelho,
objeto que ultimamente procurava evitar.
Enrolado
na toalha, que praticamente não cobria a circunferência
em que se transformara sua cintura, retirou da gaveta a velha
bermuda cáqui, o par de meias brancas com frisos vermelhos
e pretos e uma camiseta com a estampa de sua marca de cerveja
favorita. Providenciou óculos de sol para esconder as olheiras,
colocou alguns trocados no bolso para a água de coco que
sabia iria necessitar e foi para o calçadão como
quem vai para a guerra. Era sua batalha pessoal que começava
a ser travada: a partir de hoje, nada de noitadas regadas a cervejas
e vinhos baratos, adeus aos torresminhos do "Sujinho"
e: piranhas, chorem, eis que está nascendo um novo Mário!
Após três anos de viuvez, resolveu enterrar de vez
a esposa e partir para a uma nova vida. Isso mesmo, uma mulher
de verdade, com direito a jantar a luz de velas e às cenas
de ciúme; que lhe proibisse de sentar no sofá quando
estivesse suado, que reclamasse da toalha molhada sobre a cama.
Uma mulher que, à noite, o cutucasse com os cotovelos,
quando roncava; que implicasse com o cheiro do cigarro e com o
bafo da bebida. Era disso que sentia falta: da mulher de verdade
- cansara-se dos perfumes franceses, made in Paraguai, comprados
nos camelôs, das marcas de batons vermelhos no colarinho,
de acordar em camas cujos colchões ainda guardavam os cheiros
de outros homens e de corpos que não se ajustavam ao seu.
O
pensamento, voltando ao seu corpo de formas roliças e flácidas,
remeteu-lhe ao calçadão; armado com o diskman, onde
introduziu um CD de Louis Armstrong, iniciou sua caminhada. Mal
dera duzentos passos e cruza com Elvira. Fez que não a
viu! Inacreditável como algumas pessoas têm a capacidade
de se enfear cada dia mais. Lembrou-se das domingueiras, onde
Elvirinha o perseguia. Magricela, míope e carente, ficava
na "xepa", aguardando os rapazes levarem um fora de
suas prediletas e só então recorrerem aos seus favores.
E ela ali, dócil, carente, disponível, consolava
e consolava-se com poucos beijos na boca e amassos escondidos
em algum canto mais escuro do clube. Mário também
se consolara com ela quando fora preterida pela Miss Primavera
e a partir desse dia Elvirinha encarnara nele, o perseguia com
telefonemas, bilhetes e poemas.
Até
que terminaram o colégio, ele fora para a Faculdade de
Engenharia e Elvirinha passou a lecionar no próprio colégio
de freiras, onde estudara. Anos mais tarde, Mário soube
que Elvirinha casara-se com o ex-seminarista Alfredo, que levava
a pecha de homossexual, porque ajudava nas missas do capelão
da escola, o qual era conhecido no meio estudantil por não
resistir aos apelos masculinos.
As
passadas agora eram mais curtas e lentas e ela começa a
desconfiar que a meta de um quilômetro jamais seria atingida.
Conforma-se e busca na observação dos caminhantes
distrair-se das dores que começam a se manifestar na batata
da perna. Esquecera-se do alongamento recomendado por D. Alzirinha,
a vizinha do terceiro andar que tinha no Dr. Cooper um Deus, se
bem que um Deus que não lhe proporcionara o milagre da
elevação dos peitos e desaparecimento do culote.
Mas, enfim, nem todo Deus é perfeito, pensava.
Seus
batimentos cardíacos alterados jogaram-na num banco e por
ali ficou a olhar João Ubaldo, o escritor, a perseguir
um manquinho bem mais ágil, até que ambos desaparecessem
de suas vistas com a vitória do manquinho por alguns metros.
"Arrastão!
Arrastão!". Os gritos vindo da areia coloca-a em sobressalto
e lhe tira a atenção da loura coberta por um minúsculo
biquíni. Já a vira na "Caras" e lhe pareceu
com a mesma maquilagem, exposta agora ao sol. Corpo marombado
em academia, a loura tinha ao seu lado um senhor de seus sessenta
e muitos anos e, certamente, de alguns muitos milhões na
conta bancária.
A
correria generaliza-se. Mas não seria, ela exausta como
estava, que iria fazer parte daquela maratona, entre freadas e
buzinadas. À distância, vem vindo Mário, passo
de cágado, levando-a a certeza de que, como ela, pousara
em algum banco, antes de retornar à casa. E dá-se
o encontro, com o arfante Mário sentando-se ao seu lado
e massageando as pernas finas que lhe pareceram em desequilíbrio
com o volumoso tronco.
-
A violência nesta cidade está de um jeito que não
encontramos um momento sequer para o nosso lazer...
O
comentário não se perdeu no ar, já que justificava
para ambos o abandono de seus projetos. E foi fundamental para
que começassem a falar do passado, matinês no clube,
casamentos, com interrupções de "morreu"
à lembrança de um ou outra dos saudosos tempos da
juventude.
Foi
quando os batimentos cardíacos de Elvira voltaram mais
intensos ao repentino convite que se seguiu à interrogação
do que ela faria naquela noite.
-
Conheço um barzinho super agradável numa transversal
de Botafogo onde poderíamos conversar com tranqüilidade.
Sou amigo do dono e garanto um tratamento vip, com bebida e tira-gostos
honestos. Se não tiver nenhum programa, passo em sua casa
às nove. Está morando onde?
Passou
o endereço, angustiada de que ele viesse a esquecer. Despediu-se
com um beijinho de cada lado. Naquele momento, efetivamente, sentiu-se
uma magic girl. E foi para casa, com outras idéias na cabeça.
Quando
a campainha tocou, Elvira ainda mergulhada em dúvidas mexia
na gaveta de lingerie. Algumas ali estavam na longa espera em
números menores. Num sobressalto, lembrou-se de estar sozinha,
pois dispensara Conceição dos serviços antes
de entrar no banho. A insistência levou-a a enfrentar a
realidade de um peignoir sobre a pele e correr para a porta. Certificada
de tratar-se de Mário pelo olho mágico, girou a
chave, pedindo que lhe desse um minuto, entrasse e aguardasse
no sofá até que acabasse de se arrumar.
A
presença de Mário já na casa apressou a decisão
sobre o conjuntinho preto de rendas que lhe pareceu simpático
caso a noite se prolongasse. Apertou-se num jeans, uma camisetinha
básica, enfiou o pé numa sandália, outra,
mais outra, até certificar-se de ser a de tirinhas a mais
sexy. Blazer creme realçando os adereços, e pronto.
O último olhar no espelho para conferir a maquilagem e
partiu para a sala, deixando no ar o aroma do "Trésor
d'Amour", de Lamcôme, que lhe pareceu perfeito.
Sentiu-se
uma deusa pelo olhar de admiração, dois beijinhos,
um "oi, como vai?" e o "Vamos?", com a segurança
de ser a dona da bola.
A
noite prometia e Mário, com a experiência dos anos
de viuvez, percebia que não precisaria de muito esforço
e dinheiro para ficar com Elvira. Pela maneira com que se arrumara
e se perfumara, a presa já estava no laço, era só
apertar um pouquinho.
Ainda
com o pudor adolescente de reencontrar amigos da velha turma,
não colocou os braços sobre o ombro de Elvira; caminharam,
lado a lado, pelo calçadão, à procura de
um táxi e, quando o encontrou Mário deu o endereço
do restaurante. Dentro do automóvel, colocou as mãos,
amigavelmente, sobre os joelhos da companheira, sendo sutilmente
repelido: Oras... Oras... - pensou. E essa, agora?
Esquecido
do regime e das determinações impostas pela manhã,
Mário pediu um filé à parmegiana, acompanhado
de uma cerveja preta, esquecendo a salada verde no canto da mesa.
Elvira o acompanhou e não resistiu à sobremesa,
nem ao café com creme, oferecido pelo garçom. Conversaram
sobre o passado, evitando a parte constrangedora do relacionamento
anterior, falaram dos falecidos, da rotina que os engordara e
os entristecera, brindaram ao reencontro no calçadão
e às promessas descumpridas.
Mário,
mais por ser um cavalheiro do que por tesão, insinuou que
poderiam esticar a noite em seu apartamento e ela gentilmente
o liberou do encargo.
Despediram-se
com um beijo no rosto e o velho cansaço nos olhos. Ao retirar
a maquiagem e vestir a velha camisola, onde em letras coloridas
lia-se Magic Girl, Elvira sentiu a necessidade de programar o
rádio-relógio para despertar às 7h00 da manhã;
a caminhada no calçadão a esperava.
Se
tivesse olhado pela janela do apartamento, teria percebido que
Mário dispensara o táxi e dirigira-se ao boteco
próximo. Bebia a primeira dose de um uísque enquanto
olhava para as pernas bronzeadas e bem torneadas da mulher de
mini-saia justa e decote pronunciado da mesa ao lado. O olhar
de desprezo da mulher trouxe a Mário a realidade do quanto
necessitava se pôr em forma. Pediu a conta sem mesmo terminar
a dose de uísque e foi para casa. Ao passar na portaria,
uma solicitação ao vigia para que interfonasse às
7h00, pois retornaria à meta dos menos 15 quilos.
Numa
olhada para trás, viu Elvira aproximando-se. Diminuiu as
passadas até que ela emparelhasse e seguiram firmes em
seus propósitos.
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