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Não
existe mentira sem o sangue. Não existe a mentira sem a verdade.
Não existe "arte" sem mentira, nem sem verdade. Não
existimos até que acordamos cedo e pegamos um trem lotado de mentirosos
e calhordas de toda espécie para mentirmos o dia todo. A existência
fica na interrogação para quem anda folgado, para nós
que acordamos cedo, cheios de dores de cabeça, esse "mistério"
é uma idiotice assim como o dia que está por vir, tão
idiota quanto todos no trem. Não existe mistério sem mentira.
Estávamos com nossas senhas. Deveríamos partir pela quarta
às 18:00 hs. Sempre odiei esse dia da semana.
Malditas quartas-feiras.
Quando era um garoto, as quartas representavam "faltam dois dias
para a sexta" e o final de semana tinha acabado há dois dias
também.
Lembro da sexta série, numa classe do convento que tinha aceito
a primeira turma masculina, dez anos atrás. Lembro das tardes de
aula com a irmã Rosa, daquele monte de madeira nas mesas e nas
paredes, lembro da textura, uma coisa com o tato e com o cheiro; lembro
de ver a tarde acabar por uma janela imensa.
Desde a escola, a quarta-feira sempre foi uma bosta.
Depois de crescer, comecei a trabalhar todos os dias, nem a irmã
Rosa ou o tempo livraram-me das malditas quartas-feiras. A segunda e a
terça também tornaram-se uma bosta, junto delas a quinta,
a sexta, o sábado e o domingo.
Nada disso tem a ver com depressão. Tudo isso tem a ver com Margot
e aquele maldito desejo de ovos pela manhã. Aqui não comemos
ovos no café! No Brasil o café é pão com manteiga.
Mas Margot nunca desistiu dos ovos, e por isso meu nome estava na lista.
Ela me acordou fazendo um barulho de papel no dia 25 de junho de 2005.
O papel que ela mexia era um jornal. Como todos sabem, as listas estão
nos jornais ou na estação Paraíso toda quarta cedinho.
Toda maldita quarta e meu nome estava nessa.
Para falar a verdade, Margot não sentiu nenhum remorso em meu nome
aparecer ali, nenhum mesmo. Margot sempre foi difícil, sempre quis
ver tudo ruir. Sempre quis ficar safa.
Bom, depois que ela me avisou, tratei de arrumar minhas malas e dar uma
última trepada com ela. Nossas trepadas já não estavam
mais "aquilo", mas transamos como uma punheta rápida.
Ela sabia que eu iria morrer naquele trem, mas nem se importou. Eu estava
preparado. Sempre soube que mais dia, menos dia, eu morreria.
Cheguei pontualmente às 19 na estação. Apareci de
mala e cuia. Sabia muito bem o meu destino. Quer dizer, sabia que entraria
no trem do excesso, mas não sabia o que aconteceria comigo. Ninguém
queria estar naquele trem. Nem eu nem você.
A plataforma estava lotada dos que, como eu, entrariam naquele trem e
sumiriam para toda a humanidade. Nós sumiríamos por um túnel
escuro e deixaríamos o lugar onde estávamos estorvando.
Todo mundo ali era um problema e, no novo governo, ninguém quer
mais problemas. A Margot, por exemplo, queria os malditos ovos e não
queria pagar por eles além de não querer ter de ir comprá-los.
Qualquer probleminha já é um problema em potencial. Qualquer
pessoa sob pressão é uma bomba que um dia vai explodir,
pode ser quem for... um dia explode.
Quando o trem parou a voz de uma mulher começou a falar pelos amplificadores
da estação:
- Boa noite a todos, cada um de vocês sabe o que fez ou deixou de
fazer. Segundo a lei 1009 do parágrafo 9 da Constituição
romoldada, não precisamos mais dos seus serviços assim como
da presença de cada um nessa cidade. Obrigado pela compreensão.
Garantimos que será melhor a todos dessa maneira. Lembrem-se de
que não é permitido bagagem. Entrem no trem fazendo o menor
tumulto possível. A regra sobre os bancos de cor cinza para idosos
não se aplica mais. Todos os bancos são livres. Não
existem leis que apoiem ou proíbam vocês depois das portas
fechadas dos trens. É impossível abrir as portas em movimento.
Acreditamos, por Deus e pela nação, que não seja
possível mais a presença de vocês em nosso meio. Seus
maridos ou mulheres serão encaminhados para o serviço de
recolocação matrimonial. Cuidaremos para que a partida de
cada um de vocês não seja uma falta. Que deus tenha piedade.
Foi uma merda ouvir aquilo, larguei minha mala na plataforma e entrei
no trem.
Após ser revistado por uma policial feminina, entrei e procurei
um lugar. Todos lá dentro pareciam pessoas normais. Ninguém
sorria ou chorava. Era tudo estranho. Havia mulheres bonitas e feias,
homens gordos e magros, havia todo tipo de gente.
Escolhi, escolhi até que me sentei ao lado de um senhor amarelo.
Olhos puxados mas não tanto como os de um japonês. Tinha
cara de índio com chinês.
- Olá - eu disse.
- Oi! - respondeu sorridente.
- Dessa vez a gente não escapa.
- Dessa vez nos pegaram.
E o trem começou a andar em direção ao túnel.
- Seu nome é?
- Daniel.
- Prazer, Pol Pot.
- Já ouvi falar do senhor, seu Pol.
- Ah é? Sou desconhecido aqui no Brasil. Vejo que você é
informado.
- Verdade, gosto de saber das coisas, apesar de que agora isso não
adianta de nada nem salvaria meu rabo dessa. Alguma idéia?
- Nenhuma. Estamos dentro desse túnel e não sabemos para
onde iremos. Tenho alguns amigos que pegaram esse trem. Não sei
como demorou tanto para meu nome aparecer na lista.
- Devem ter esquecido.
- Devem - concordou com um leve ar de decepção.
- Eu não imaginava pegar esse trem nunca. Foi culpa dos caprichos
da minha mulher.
- Elas fazem isso conosco mesmo.
- É... ela deve estar indo ao escritório da recolocação
agora mesmo.
- Acontece.
- Verdade... E lá no Camboja? Como andam as coisas?
Continuamos com essa coisa de conversinha de elevador até que o
trem começou a sair do túnel e andar por um trilho tão
alto que não dava para ver o chão. Ao olhar para baixo,
só dava para ver nuvens brancas e densas como algodão doce.
Ninguém dizia nada. Todos em choque.
O trem parou em uma estação.
- Estação terminal. Pedimos a todos que desembarquem nesta
estação.
Todos descemos sem fazer tumulto. A estação estava vazia
e gelada. Olhei para os lados e vi uma garota fitando o teto de cimento
cru. Andei em direção a ela, respirei fundo e me apresentei.
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