Maneiro ir de bonde: apanha-o na Central - entre o Largo da Carioca e a Cinelândia, custa sessenta centavos, desembarca-se no Curvelo, caminha uns vinte minutos - em passos cadenciados pois a paisagem obriga, e chega-se ao Museu.

Pagando dois, acessa-se um acervo e tanto: Di Cavalcanti, Dalí, Matisse, Picasso, entre tantos; mas o que faz jus ao nome, é a leitura plástica de Dom Quixote por Cândido Portinari (Sobremaneira! - como grifaria Lívia Santana). Quinze cenas engavetadas.

Literalmente impagável e acessível em absurdo. O marcante romance encontra-se complementado lá, aos olhos mais brasileiros do mundo.
Convém os pais apresentarem aos filhos, os professores aos alunos e os amigos entre si. Melhor após a leitura da obra de Cervantes. Taí a dica dum presente com repique.

Também há relva pra piquenique, na companhia dos micos que chacoalham os galhos das árvores ao redor - e adoram manga e banana(!). Nesta hora, reler alguns trechos do supracitado livro, é uma experiência reveladora.

Na terça não abre; no mais, das doze às dezessete. No primeiro domingo do mês, ainda tem roda de samba no Curvelo ao crepúsculo, com o Pão de Açúcar no fundo.

Se três e vinte é muito por isso, existe a opção de tomar carona no estribo do bonde, doutro lado dos Arcos da Lapa, incrementando aventura ao passeio, porque tem que embarcar no elétrico em movimento.

(Eternamente grato, Dona Brígida.)

 

Chica debruçou-se à janela para vê-lo passar, apertando os peitos contra a madeira de lei pintada de azul na casa branca. Todas as tardes o fazia. Sorria-lhe e expunha seu regaço. Meses a fio dum amor sem palavras. Um flerte cotidiano que não saía disso.

Foi durante a greve dos motorneiros que tudo floresceu. Benedito dispôs suas pernas a enfrentar a ladeira. Certa subida, percebeu Chica a tratar da floreira. Cabelos curtos e alvoroçados - serpentinas negras e diminutas, pele caramelada e seios redondamente iguais - daqueles que não se compra por aí. Um amontoado e tanto. Ela o vigiava com faróis muito além do castanho, alados por cílios e simetrizados com um nariz esguio.
O encontro fez-se rotina. Quatro e meia. Um minuto de sorrisos e admiração mútua. Havia, da parte dele, extremo cuidado em não desencantar o momento. Ao invés de abordar a dona, Benedito se continha; e embora se anunciasse pruma janela fechada logo cedo, aos assovios, na ida pro trabalho, a fim de avisar-lhe que ainda vivia, jamais cogitou romper-lhe o mistério.
´Sonho Meu´, ´Alvorada´ e ´A Flor e o Espinho´ eram suas preferidas. Se de Chica não sabia o nome, conhecia-lhe a preguiça matutina e musicava para reniná-la.
Ingratos os dias de hora-extra e fatal a quinta-feira nublada de agosto profundo, na qual a troca fora rompida por um vulto masculino a contornar Chica e beijar-lhe a nuca. Ela baixou os olhos. Benedito ainda confirmou perplexo para então sumir em si. Espectraram o desenlace. Ele desconsiderou a relação pois julgou o afronte desrespeitoso. Era um minuto apenas que queria dela e Chica haveria de proteger-lho. Retirou o esqueleto e a pele castigada de obras e serenos. Deixou na lembrança dela somente o sóbrio olhar de sorriso franco.
Chica perdera o passarinho, Benedito procuraria outro terreiro.

 

Era amor de urgência máxima. Norma dezessete, Jurandir dezenove. Flor da pele ao pé da letra, planejada pra sempre, enquanto se admiravam aos pormenores.

Vez ou outra, a libido assumia. Percorriam tresloucados as escadas até o terceiro andar. No reservado acesso dos serviçais, consumiam-se felinos e rumorejantes nas madrugadas cariocas. Ferviam tropicais: felação, felação, coito, felação e felação. Frenesi tamanho.

Quando saciados, voltavam-se às vestes e retornavam misturados nas mãos, bocas, narinas. Embebedados de cheiros compilados.

Inevitável foi a gravidez da jovem e o parceiro desapareceu no teste de farmácia. Se houvesse trilha, seria Berlioz.

Restou a Norma socorrer-se à mãe, que de pronto fez chegar ao pai. O volume aumentou além do condomínio pois o tenente-coronel reformado era, segundo ele mesmo, o exemplo. O resto do planeta era composto por revolucionários, pagãos, profanos, desonestos, miscigenados, vagabundos e vagabundas.

Este perambulava pela sala quando deu a sentença:

- Vou dar-te o que te cabe. Vais pegar o dinheiro e irás sem volta. Crias este desafortunado e somes com a mancha que causaste. Se te houvesse Deus, eu a abençoaria, mas não é o caso.

Ela cobrou a mãe com os olhos, que a calou baixando os seus.

Foi-se então, locando um dois quartos no Grajaú e depressa tratou de aproveitar e despender a partilha.

Jurandir soube e tentou reaproximar-se, no qu´ela cortou pela raiz. Com grana, não lhe faltava homem e muito menos colchão d´água. Pagando por prazer, não se aporrinhava. E percebera que sua devoção doida era apenas necessidade.

Sabe-se lá o que pintou primeiro: o bingo ou os antidepressivos. A seguir, a barriga. A tríade tomou progressões geométricas.

Avisos não faltaram: celular, cartão de crédito, cheque especial, CDC, clube recreativo, telefone, luz, carne, terapias, massagens, seguro saúde, profiterolis, perfume francês e pretinho básico italiano. Numa ordenação portenha tudo lhe escorreu dentre os dedos. Parir ficou em último plano, como se não fosse existir; e marcou a miséria propriamente dita. No despejo, conheceu Ronílson.

Teve momentos com ele e fora apresentada ao Morro dos Prazeres. Lá se instalou quase sem nenhum conforto. De imediato, geral se dispôs a ajudá-la, mas seu recente passado cocota a impedia de sentir-se inserida. E não era mesmo. Com a bebida, não houve mais remédio e logo veio o expurgo.

Duas da tarde, dia chuvoso. Norma oferecia pastilhas no trânsito do Humaitá. O filho cansava-lhe os braços.

Ao aproximar-se, percebeu a mãe sentada ao passageiro dum popular noventa e poucos. Um afago no pescoço do motorista deliberou-lhe a história.

A mulher nem sequer a reconheceu; mediu-a dos pés ao pescoço e estendeu-lhe dois reais. A jovem rasgou-se:

- Quero não. Compra chocolate pros cachorros.

Retirou-se e desandou a beber.

 

Quinta Beto jogou no macaco - milhar, centena e grupo. Deu camelo. Sexta repetiu o palpite e duplicou as chances no burro. Camelo de novo.

Sábado quase meio-dia. Calor deveras. Mulheres lindas de poucos trajes permeavam o centro do Rio em busca de mar. Beto bicava uma cerveja e planejava o samba na laje ao poente, no que Resende apareceu:
- Fala tu. - de açoite.
- Qual é, fiel? Senta aí.
Abraço, copo e brinde. Lero:
- Zé da banca tá descarregando tudo que tem dois três grudados. Soprou que depois de dois camelos vem a dupla de três metida no meio.
- Opa. Pera lá! Se geral sabe a letra, já era.
- Nada. Só eu. Foi à miúda. Outra: o lance é levar adiante, mudando prá seis. Três, seis. - rodando polegar e indicador - Entendeu? - agora polegar ereto - E pede boca de siri pro otário. Assim a pilantragem tem assunto e se distrai. Vou carcar cem mangos. E tu?
- Formou. Vou dobrar!
- Mais uma, Jão. E duas mineiras douradas...
Veio então um cearense de pouca altura e extrema lábia. Atendente de botequim e proliferador de boatos. Repôs a cerveja e despejou-lhes dois martelos de cachaça velha. Salinas, Minas Gerais. Beto repassou a barbada ao nordestino.
Brindaram e entornaram. Não antes de inspirado o aroma de carvalho.
- Ah, toda mineira merece uma praia... - declarou Beto.
- Bela definição. - concordou o sócio.

Cinco minutos de silêncio e Beto rompeu - com pancada na mesa e sorriso de todos os dentes. Um clarão na negritude:
- Três, três, dois na pedra! Vão meter camelo de novo. É por aí que eu vou. Metade da grana nessa e cercamos o resto... macaco, burro e cachorro...
- Vamos juntos. Pega também cobra, trinta e três. Mais urso. - dois segundos - Vaca e leão.
- Chega! Tive uma visão. Três, três, dois. Zero, três, três, dois. - e começou a batucar.
- Domingo, eu vou ao Maracanã, vou torcer pro time que eu sou fã... - ambos.

Percorreram a tarde nas bancas. Um pela Lapa, mais Catete e Glória. Outro: Bairro de Fátima, Catumbi e Rio Vermelho. Um pouco em cada ponto. Cerveja entre eles, prá não pingar no verão tórrido.
Seis horas encontraram-se no Zé - que só não comia as unhas porque já as esgotara, então circulava e fumava sem parar. Como vai, tudo bem e sumiram dali. Pernaram até a Cinelândia prá saber ao natural. Lá sentaram prá receber o sereno.
- Duas tulipas e minduim. - ordenou Resende.
- Caraca, mermão. Hoje a laje vai tremer. Vai ter picanha e doze anos com energético. - comentou Beto ao comparsa.
- Deus te ouça. Mas antes vamos marcar dez no Bola Preta. A gafieira é sagrada.
- Perfeito.
Enquanto eram servidos, Resende tornou a abordar o garçom:
- Chega mais, simpatia. Providencia duas cachaças, daquelas amarelinhas, de Minas. E assim que souber, traz o poste prá gente.
Concordância gestual de ambos.
Engoliram as pingas como de costume e discutiram o tira-gosto, definido no torresmo. Já havia ansiedade e nos vinte minutos seguintes só falaram em gastar dinheiro. Beto foi quem iniciou, com reforma no bangalô, cordões, sapato branco, camisas de seda, perfume gringo, vestido prá mãe e pernoite em motel com a loura dele. Resende foi além: viagem pro Recife, carro usado, documento falso e cocaína. Fumaram e falaram coisas sem sentido.
Daí chegou a anunciação. Um moleque que trocava cinzeiros trouxe-lhes a resposta: zero, três, três, dois. Na cabeça. Deu camelo no poste, pela terceira vez.
- Mais pinga! A garrafa. - bradou Resende.
- E charutos! Tem charutos? - Beto.
- Mulheres, mulheres... - às gargalhadas.
- Muitas.
Batucada. Caixa de fósforos.
- Bebeto subiu o morro gritando: ´fiz treze´, mandando a miséria prá casa do chapéu... - dueto.

Na milhar, fizeram mais de cento e cincoenta mil. O resto não durou uma semana, mas rendeu-lhes novos amigos, novas roupagens e muito prazer.
O Morro da Providência agradeceu. Os dois que nada prometiam, estabeleceram uma panificadora e colocaram os seus a trabalhar. Logo outra, ficando uma prá cada mãe.
E dispuseram-se a biscates, jogando no Zé e a beber no Jão.

 


 

Conrad Rose
33 anos, escritor ficcionista, nasceu em Curitiba mas reside no Rio de Janeiro.
clipping eletrônico: http://conradrose.multiply.com

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