|
Belvedere
Maria José perambulava pelos corredores da casa. Não
sabia que rumo tomariam os acontecimentos, que nos últimos
tempos haviam assumido proporções incontornáveis.
Pensava onde acabaria todo aquele desespero. Diversas vezes buscara
nos escaninhos da memória a razão para que tudo
aquilo ocorresse. Onde havia falhado ?
Carlos passava os dias num mutismo exacerbado, e tornava tudo
mais difícil. Após o início do tratamento
psiquiátrico recomendado depois de suas inúmeras
tentativas suicidas, passara a viver mergulhado em seu próprio
mundo. Já não tocava no quarteto que havia formado
com amigos no qual atuava há seis anos, ininterruptamente,
e que sempre fora sua prioridade em termos de lazer. Sua satisfação
era assistir filmes nos quais a tônica fosse conflitos existenciais.
Maria José, como mulher, já não lhe dizia
nada há muitos anos.
Fumava
três maços de cigarros por dia e, rotineiramente,
tomava seus medicamentos de forma errada. Não morria nem
com veneno de rato, dizia a si mesmo, porque decerto seu amor
por Verinha era maior do que a força da própria
morte.
Verinha, nos seus dezoito anos, estava numa encruzilhada. Que
caminho seguir? Deitada em sua cama, folheava uma revista de moda,
pensando no quanto diferia de suas amigas em termos de vivências
afetivas. Nenhuma delas poderia ter vivido ou viveria uma experiência
como a dela. Muitas vezes pensava em colocar algumas coisas na
mala e sair pela estrada. O que poderia ser pior do que o seu
viver? Ou já se acostumara a ele? Uma paixão avassaladora
entre um pai e uma filha, sem que nenhum conseguisse desatar as
amarras... Qual seria o final da história? Verinha rememorou
sua festa de quinze anos, quando tudo começou e foi crescendo,
sem limites, de forma a deixar a família totalmente desestruturada
. Não havia como deter aquela coisa que chegou como lavas
de vulcão.
Eram dias pesados... como se cada um carregasse o mundo nas costas.
Não importavam os métodos utilizados para alívio
de tensões. Um gigante de várias faces estava ali
dilacerando as emoções de cada um.
Maria José já não tinha vivacidade. Suas
roupas eram discretas, seus cabelos mostravam a raiz embranquecida,
pois deixara de pintá-los. O rosto caíra, formando
vincos. Dedicava-se à arte de bonsais, sua única
terapia. Afastou-se dos amigos, dizendo que já não
tinha por quê.
Cada um havia abandonado seu próprio círculo social.
Não tinham mais amigos, e a solidão tornava qualquer
tentativa terapêutica inócua, embora as paixões
naquela casa diariamente atingissem seu ponto máximo na
relação pai e filha.
Verinha dormia, às oito horas da manhã, ao lado
da cadelinha Britney, companheira assídua, quando foi despertada
pelos gritos de Carlos. Correndo, chegou ao quarto de hóspede,
e viu Maria José caída, entre várias garrafas
de bebidas, copos quebrados, e caixas de comprimidos vazias. Dizia,
de modo desarticulado: - Verinha... Carlos... Carlos... Verinha.
Naquele
momento, numa rapidez impressionante, revia flashes de sua vida:
o nascimento de Verinha, o batizado, a primeira comunhão,
o baile de debutante. Ela era sempre um corpo sem rosto, e impassível
como uma estátua. Apenas a figura de Carlos junto à
Verinha tinha consistência .
Atendida pelos profissionais, foi colocada na maca e encaminhada
com urgência ao hospital mais próximo. Agonia. Desesperança.
Na sala de estar, silenciosos, Carlos e Verinha se olharam fixamente.
Um tremor percorreu seus corpos. Abraçaram-se e finalmente
deixaram fluir suas tensões. Choros convulsivos, seguidos
de quietude. Corpos em calmaria.
Saíram pelas ruas. A chuva que caía parecia lavar
a alma de ambos, que simultaneamente abriram os braços
como se quisessem agarrar o mundo, e continuaram caminhando, rumo
a seu destino. |
|
Rio
de Janeiro, 2 de setembro de 2005.
Caro amigo,
Os dias têm sido tão curtos, o tempo parece voar...
Pergunto a mim mesma se ainda terei tempo para te rever. Tudo
muda tão bruscamente, que confesso ficar incomodada em
saber que daqui a alguns anos ficarei impedida de andar pelas
ruas e viajar sozinha, devido à natural fragilidade. Afinal
de contas, agora, aos oitenta e três anos, já não
sinto a leveza de outrora. Não é fácil a
maratona de aeroportos e aviões, com a disposição
dos velhos e loucos tempos! Nunca acreditaram que entre nós
o que havia era simples amizade. Pensar que até hoje perdura
tal preconceito... Em pleno século 21, ainda dizem que
onde existe uma mulher e um homem juntos tem que, necessariamente,
haver um quê de sensualidade. Ora, que atraso!
Amigo,
ando tendo lapsos de memória, sim. Muitas vezes quero lembrar
teu nome, como agora, e não consigo, embora rememore todos
os nossos instantes; alegrias e dissabores...
Senti
demais saber que, nessa altura da vida, Henriqueta te abandonou,
julgando-se apaixonada por um escritor que, todos sabem, troca
de mulher a cada ano para provar que, aos oitenta, ainda é
macho. Que seja! Henriqueta só não podia dar asas
a essa impressão causada por um acesso de amor senil.
Sei
que não passarão seis meses juntos. Ela não
suportará o vazio que vai se sobrepor à excitação
que tomou conta dela desde aquele chá beneficente, na véspera
do Natal do ano passado, lembra? Ela se encantou quando Pablo
Miguel, com aquele bigode caricatural, declamou seus melhores
poemas. Cá pra nós, plagiou feio García Lorca!
Quando chegou ao ponto culminante da apresentação,
gritou: se minhas mãos pudessem desfolhar.... aí
não resisti e dei um grito! Todos me olharam e tive que
dizer que estava com um nervo pinçado. É, o cara
é canastrão mesmo. Incrível como consegue
enganar.
Queria
passsar o Natal contigo. Que tal em Barcelona, na casa de Maria
Dolores? Desde que enviuvou, anda cabisbaixa, e nossa presença
levará um pouco de alegria a ela. Pense sobre isso, e quem
sabe, até lá já esteja com Henriqueta de
volta? As paisagens de Madrid já me cansaram demais. Creio
que será a minha última viagem, e talvez nunca mais
nos vejamos. Uma Cerimônia de Adeus, pra ser realista, não
fatalista.
Lembro-me
agora, mencionando a viuvez de Maria Dolores, de teu carinho e
constante presença quando tão precocemente Emílio
foi levado para Deus. Não me conformava com o fato, e se
não fosse por tua presença e a ajuda de Henriqueta,
não teria sobrevivido. Peço que se comunique com
ela, independente da situação por que passas. Creio
que vai precisar ajudá-la num momento que não tardará
a chegar, quando enfraquecida e sozinha, começar a procurar
os teus olhos e as tuas mãos. Estejas atento. Meu caro
amigo, aguardo tua resposta. Ainda me dou por feliz e realizada
por escrever com facilidade nessa máquina, que a maioria
das pessoas de nossa idade vê como coisa sobrenatural.
O
Brasil vive dias extremamente difíceis. Não tenho
a mínima idéia de onde tudo isso irá parar.
Confesso-te que foi uma grande decepção para mim.
Já não quero ler jornais nem assistir a televisão,
porque preciso de alegrias, não de tristezas. Não
permito que me falem sobre CPIs! E como se não bastasse,
aquela tragédia em New Orleans, um dos locais mais aprazíveis
que já tive oportunidade de visitar... Não consigo
acompanhar os noticiários também. Preciso deletar
de minha mente essas ocorrências. Confundem-me, entristecem-me,
não tenho estrutura emocional para mais infortúnios.
Se necessário, ficarei alienada, me entregando aos devaneios
de meus filmes prediletos. Gene Kelly em Cantando na chuva, Ingrid
Bergman e Humphrey Bogart em Casablanca, Rita Hayworth em Gilda,
Ava Gardner em A condessa descalça, entre muitos que tenho
arquivados. Ando também relendo meus autores prediletos.
Saio às tardes com minhas amigas para lanchar, jogar dama,
xadrez, e é um bálsamo para minha vida.
Envio-te
as fotos que tirei em Lisboa, quando, no ano passado, fui conhecer
meus lindos bisnetos gêmeos. Vivi momentos deliciosos! Pude
constatar como a família faz jus à fama da beleza!
Como
te amo, meu amigo! Sempre estiveste ao meu lado e, embora fisicamente
distante, podia sentir-te em espírito. Lembrei teu nome!
Raul! Graças a Deus!
Receba
todo meu carinho e admiração.
Ana Aurora |