Aluisio
Rodrigues Aderaldo Martins
Fingiu sono, bocejos, cara meio cínica, de olhos fechados,
oscilando, concentração difícil, deve ser
fácil, sou um ator que encena estar morto, mortinho da
silva. Luísa pareceu desconfiada, mas pareceu gostar também,
gostou, sim, seus sentidos nunca falharam. A ansiedade, enorme,
coração aos pulos, o bíceps deu para tremer,
a camiseta branca do mais puro algodão, suava, ligada.
Luísa percebeu a palpitação.
Atento a qualquer nuance, embora no breu casuístico, adivinhava
cada movimento, também pudera ouvir a respiração
irregular, arfante, e as tosses, pigarreando, bem sabia, já
de muito treino que quando se tossia seguido de leves pigarros
era batata, queria, tá no papo. Em mantra reproduzia a
sonoridade do seu nome baixinho, poderes de bruxo, Luiiiiíssaaaaaa,
Luiiiiiiiiiiiiísaaaaaaaaaa, vem cá, Luísa,
bem dizia o poeta, tom inaudível, um pecado desejar assim,
mas não poder sucumbir.
Ela levanta-se do sofá, pisa manso, imperceptível,
como gata, mas o seu cheiro tomava distância, dava para
ver de olhos fechados. Imaginou-a engatinhando, engalfinhando-se
consigo, delírio, de trinta e cinco para doze anos em segundos,
passe de mágica? Desejo cego. Concentração,
ela vai voltar, quer ver? Voltaaaaaa, quero você, eu te
amo, não me deixe assim. Latejando.
Não, Luísa não voltou, foi tomar banho, de
porta entreaberta, proposital, só podia ser, um chamado
ou armadilha ou atiçar mesmo, pois sabia de si, da pele
morena, das curvas, do corpo de dezoito, quase imberbe. Impulso,
tomá-la por trás, a nuca, morder vampirescamente,
e possuí-la, o dia inteiro, noite adentro, ele dentro e
fora, fora e dentro, normal que fosse assim. Sou humano, isso
é maldade, ser linda assim. Ai, esse chuverinho, água
e mulher combinam muito bem. Luísa e água, sereia.
Encantadora. Seria minha?
A campainha, o chato do noivo, odeio esse cara, quem ele pensa
que é? Chegar assim, sem mais nem menos e, ainda por cima,
beijá-la!? Saiba que sou primo e a conheço desde
quando andava só de calcinha pela casa. Ainda anda, safada,
sempre foi. Deliciosa agora. Tchau, vamos pro cinema, quer ir
junto? Vão para puta-que-o-pariu. Não entendo esse
meu primo, vive assim, esquisitão. Duas voltas na fechadura.
Mais um dia sem Luísa.
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