(A fábula no Pantanal)
Agnaldo Rodrigues

 

Ela desceu, numa canoa, pelo Rio Paraguai. Viu, ao longe, um tuiuiu sobrevoando as matas. Ergueu os olhos para além e lá estava o reflexo das águas, em forma de um azul profundo e penetrante. Um céu sem limites, como a ilimitada dor interior. Não se sentia feliz há muito tempo. O coração era um grande oceano, cuja fartura nunca poderia ser exteriorizada através das lágrimas. Um nó na garganta ela sentiu. Depois, uma única e solitária gota minou dos amendoados olhos que de tão doces mais lembravam o mel das abelhas.


Sozinha no barco observou uma imensidão de vazio. Vazia também estava ela toda, pela saudade da avó, devorada num tempo de outrora pelo lobo mau: um lobo cruel. Ele sempre chegava sorrateiro, engolindo a vida dos outros de uma forma brutal que em todos despertava o pavor, um medo oculto guardado no íntimo. O pior é que ninguém nunca via o lobo chegar, só sabia que um dia, inevitavelmente, chegaria. Uns eram devorados mais cedo, outros mais tarde. Ninguém escapava.


Nas alturas do Pantanal, a Menina do Chapéu de Crochê, encheu-se de grande espanto (encanto e receio) ao perceber o barco encontrando, suavemente, com os jacarés que deslizavam no nado; era, também, contornado por longas jibóias que mais pareciam as verdadeiras donas daquelas águas. Não teve medo nenhum. Mas, de repente foi tomada pelo pavor ao pensar que o lobo poderia estar por ali escondido, esperando o momento propício para dar o bote: então, ela seria devorada de surpresa. De momento, Chapéu de Crochê pensou que não deveria ter mais tanto medo do lobo, porque já não era mais uma boba garotinha, era uma jovem que até aprovada no vestibular já havia sido. Se todos tinham medo do lobo, porque ela não haveria de ter? - imaginou.


- Não gosto do lobo! Não gosto! Não gos-to! Disse num sussurro revoltado, impaciente e sentido.


Quis chorar, mas segurou. Demasiada saudade sentia da avó pelo que tinha acontecido, uma culpa atormentava seus pensamentos. Se pelo menos tivesse chegado a tempo de impedir a morte dela, porém só conseguiu guardar o último gemido antes do arroxear dos lábios. Todas essas lembranças assaltavam-na enquanto atravessa as águas pantaneiras. Por vezes, respingos de felicidade gotejavam nos seus pensamentos ao contemplar a vasta riqueza que compõe a fauna e a flora do lugar.
- Como seria bom se a vovó conhecesse este lugar... - imaginou.
Mas, a avó não poderia nunca mais.


Colocou a cabeça para fora do barco e viu o próprio reflexo nas águas. Não se reconheceu. Virou o rosto de um lado, do outro, buscando um ângulo que pudesse fazer identificar a figura que via refletida com a imagem que fazia de si mesma. Tudo em vão. Sobre a cabeça, adornada pelos longos cabelos cacheados, estava o chapéu vermelho que um dia a avó havia tecido em linhas de crochê. Lentamente, retirou o chapéu da cabeça e o atirou na água, como se atirasse a si própria. O Chapéu de crochê foi afundando... afundando... afogando... e não mais podendo respirar, o lobo mau chegou e a devorou. No exato espaço onde o Chapéu afundou, dias depois flutuou uma linda vitória-régia, com uma flor vermelha enfeitando a sua parte superior.

 


 

Agnaldo Rodrigues da Silva é professor na Universidade do Estado de Mato Grosso. Crítico, ensaísta e contista, Agnaldo tem como principais publicações: O futurismo e o teatro (2002), Ensaios de Literatura Comparada - org. (2003) e A Penumbra - Contos de introspecção (2004), "A dama do Vestido de Seda" e "A Fotografia na Parede" In: Brainstorm (2005); "O Jantar", "O Batom Escarlate", "A Cigana", "Assassino na Torre da Catedral" e "Uma Dose de Cicuta" In: Terra Latina - Antologia Internacional (2005). Preside o Conselho Editorial da Unemat Editora, coordena a editoração da Revista Ecos (Língua e Literatura), do Instituto de Linguagem e integra o Conselho Temático Consultivo do Caderno Científico Fênix, da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação - UNEMAT. Agnaldo é natural de Cáceres, Mato Grosso, e tem se dedicado aos estudos literários e teatrais nos últimos anos.