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Paulo Bonança


A Aids, "Síndrome de Imunodeficiência Adquirida" do inglês Acquired Immuno Deficiency Syndrome, é considerada pela Organização Mundial da Saúde uma enfermidade de caráter epidêmico, e até o momento não foi encontrada uma vacina eficaz para o seu tratamento. A Aids é o resultado da infecções do organismo pelo vírus HIV; ele afeta o sistema imunológico, que perde sua eficiência progressivamente, abrindo caminho para infecções oportunistas e certos tipos de câncer. Em síntese, a Aids é um conjunto de signos e sintomas que advertem a etapa mais avançada da infecção pelo HIV.

A origem do vírus HIV, "Vírus da Imunodeficiência Humana", ainda é incerta, mas sua propagação teve início anos antes do surgimento dos primeiros casos devidamente registrados como tal. Como os sintomas da AIDS podem demorar anos a aparecer, neste espaço de tempo ele pode ser transmitido a outras pessoas, sem que o soropositivo, pessoa que vive com o vírus HIV, esteja consciente de seu estado de saúde.

O primeiro diagnóstico de infecções oportunistas decorrentes do HIV foi publicado em junho de 1981 no boletim do Centro de Controle de Doenças na cidade de Atlanta, nos Estados Unidos. Em 1983, o Instituto Pasteur da França e o Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos isolaram o vírus, dando início a pesquisas que permitiram em 1996 o surgimento da terapias anti-retrovirais, mais conhecidas como "coquetel". A eficácia destes novos medicamentos resultou em uma diminuição de 80% dos casos de internação hospitalar e diminuiu significativamente o número de óbitos.

Os medicamentos à disposição das pessoas portadoras do vírus HIV, se por um lado tem conseguido diminuir a incidência das infecções oportunistas, por outro, ainda não são capazes de eliminá-lo do organismo. A AIDS ainda não tem cura. A informação e a prevenção ainda são as melhores armas contra o vírus, mas a informação não é tudo, é necessário fazer uso dela e encarar o HIV de maneira responsável. Existe um mundo de diferença entre o que eu sei, e o que eu faço.


Família e HIV-AIDS, derrubando a discriminação

Desde a sua identificação em 1984, o vírus causador da AIDS "Síndrome de Imunodeficiência Adquirida" vem sendo estudado e combatido com firmeza pela ciência. Na atualidade, o portador do vírus HIV, "Vírus da Imunodeficiência Humana", encontra na terapia anti-retroviral um aliado que, se por um lado não consegue eliminar o vírus do organismo, coloca o soropositivo "pessoa que vive com o vírus HIV" na situação de portador de uma enfermidade crônica tratável.

Infelizmente, mesmo com os avanços obtidos no tratamento e com os meios de contágios identificados, a sociedade continua a evitar o soropositivo como se o mero contato social fosse capaz de transmitir o vírus, o que infelizmente coloca a pessoa portadora do HIV frente a dois desafios: um seria manter o seu estado de saúde e por outro lado lutar contra o preconceito e a discriminação da sociedade que ainda confunde a evitação do vírus com a evitação do portador do vírus, como se pessoa e vírus fossem a mesma coisa, fundidos em um só estado de existência e identidade.

Devido ao choque que pode causar o diagnóstico positivo para o HIV, dentro da família, algumas pessoas escondem seu estado de saúde, na maioria dos casos por medo de uma reação negativa por parte dos familiares. Por outro lado o apoio da família afeta de maneira positiva a auto-estima, a autoconfiança e a auto-imagem do soropositivo e traz benefícios ao tratamento, fortalecendo o sujeito e preparando-o para dar continuidade a sua vida, já que ser portador do HIV não é motivo para aposentadorias, trancamento de matrículas de estudo, abandono de atividades sociais, entre outros.

A aceitação do sujeito e a troca de informações dentro da família geram um apoio emocional que fomenta a adesão ao tratamento e diminui o nível de estresse, que tem influência direta na ação do sistema nervoso central, que é responsável pela ativação das defesas do organismo e, sobretudo, possibilitam a expressão de emoções e sentimentos que são comuns às pessoas de diagnóstico positivo para o HIV, tais como a depressão, a culpa, a raiva, a negação. A família surge então como um espaço de proteção e contenção, tanto físico como emocional.

A família bem informada sabe que o vírus HIV não se transmite no contato social, ou seja, através de ações comuns do dia-a-dia. Se você convive com uma pessoa soropositiva, saiba que o vírus não se transmite através do uso de copos, talhares, pratos ou outros objetos que se utilizam para a alimentação. A utilização do mesmo vaso sanitário, chuveiros, bancos, cadeiras não coloca os familiares em contato com o vírus. Beijo, abraço, suor, lágrimas, tosse, espirro, intercâmbio de roupa não são meios de contágio. Ademais, é fundamental que os familiares se informem sobre as características do HIV, do aceso gratuito aos exames e tratamento no sistema público de saúde, assim como de efeitos colaterais dos medicamentos.

Se você tem um portador do HIV na sua família, ame-o, respeite-o; o que mudou nele foi a sorologia, um aspecto do seu sistema imunológico, não seu caráter, sua identidade ou sua forma de amar os familiares. Não deixe que o preconceito e a discriminação falem mais alto que o amor e a amizade. As doenças são parte da vida, assim como a alegria e a saúde, e lembre-se: existe tanta dignidade na saúde como na doença. A doença não é a representante do lado escuro da vida, é um aspecto dela, nem mais nem menos que isto.

Poder, anormalidade e homossexualidade
Aportes de Kinsey e Foucault

Este artigo, é uma homenagem a dois grandes guerreiros modernos,
que a seu tempo e de seu modo contribuíram para a visão que temos,
hoje, sobre a sexualidade humana e a seus atuais seguidores.

 

Um dos primeiros estudos modernos sobre a homossexualidade como fenômeno socialmente significativo, que recebeu destaque nos meios acadêmicos, foi o realizado pelo biólogo e sociólogo americano Kinsey, nos Estados Unidos entre 1948 e 1953. Em 1948, Kinsey publicou o primeiro relatório sobre o comportamento sexual dos homens, seguido pelo de mulheres em 1953. Os resultados das pesquisas descritos nos "Informes Kinsey", trouxeram à luz pública dados considerados inimagináveis à sociedade americana puritana da época. Um deles foi a descoberta de que 92% dos homens e 68% das mulheres que participaram da investigação afirmaram que se masturbavam ou que já tinham se masturbado. Esta informação surpreendeu o mundo e os americanos.

Com relação ao objeto erótico afetivo da população masculina incluída no estudo, 50% relataram manter relações sexuais exclusivamente heterossexuais , 46% afirmaram ter tanto relações heterossexuais como homossexuais, 4% dos participantes afirmaram manter relações exclusivamente homossexuais. Este último grupo foi definido por Kinsey como "homossexuais absolutamente homossexuais". Obs: com relação à porcentagem de homossexuais, estudos atuais estimam que entre 5 a 10 % da população mundial seria composta por homossexuais.

As conclusões de Kinsey apontaram que a homossexualidade seria uma variação natural da expressão sexual normal do ser humano, e que não estaria relacionada a aspectos psicopatológicos, além de que todas as pessoas seriam capazes de responder eroticamente a estímulos sexuais provenientes de pessoas do sexo oposto ou do seu mesmo sexo. Para alguns, Kinsey é considerado um sábio que demonstrou a hipocrisia reinante na época, e colocou os holofotes sobre o tema da repressão sexual. Para outros, ou seja, seus detratores (e eles ainda existem), ele seria um dos responsáveis pelo decaimento da moral e bons costumes reinantes na atualidade.

Sobre a discussão científica e social acerca da normalidade ou anormalidade da sexualidade humana, outro detrator da repressão sexual, o filósofo Francês Michael Foucault afirma que a sexualidade humana, através da história, esteve sob a suposta ameaça de ser dominada por processos patológicos, o que teria levado as ciências e a religião a intervir, atuando tanto ao nível de prevenção como de cura e normalização. Dentro deste processo, a igreja católica, as ciências médicas e a sexologia definiram a homossexualidade como uma patologia, um desvio da conduta sexual normal, buscando deste modo mudá-la para a heterossexualidade dominante.

Foucault afirma que o poder social estabeleceu e ainda estabelece os limites entre o normal e o patológico, o racional e o irracional, assim como do são e do insano. Seria um poder normalizador, que exclui o que não se enquadra dentro dos parâmetros formais de normalidade. Este poder social/normalizador teria suas bases no complexo saber/poder, ou seja, um vínculo direto entre o saber e o poder, em uma relação que potencializa o saber na sua busca da normalidade, e que esta normalidade seria uma ferramenta de dominação. Segundo Foucault, devido a este poder normalizador/dominador, podemos observar através do tempo como as pessoas foram (e continuam sendo) julgadas, classificadas, condenadas, obrigadas a viver de um certo modo e até a morrer por não desistir de suas convicções.

 

Normalidade sexual

 

Não é fácil definir onde está localizado o limite entre a sexualidade humana normal e a anormal, já que estes conceitos estão mais relacionados a atitudes sociais do que a dados científicos. Alguns autores afirmam que os conhecimentos científicos que temos a respeito do tema ainda são inconcretos, e seria um erro tentar definir rigidamente a normalidade sexual. Com relação à saúde mental dos homossexuais, eles podem não ter nenhuma dificuldade psíquica e estar perfeitamente adaptados ao trabalho e à sociedade ou, por outro lado, apresentar uma ampla variedade de transtornos psíquicos exatamente igual aos heterossexuais. A perseguição e repressão da sociedade aos homossexuais fariam uma parte da população deste grupo sofrer de distintos graus de neurose, mas estas não teriam relação com a orientação sexual, mas sim com a dificuldade que representa ser homossexual em nossa sociedade.


Indicações para a busca de um psicoterapeuta sintonizado com a causa GLS


Como uma reação frente ao preconceito social, no meio GLS está se tornando comum a prática de buscar um terapeuta sintonizado com as necessidades dos seus membros, sejam elas individuais ou grupais.

 

A busca de um profissional que aceite e acolha a orientação, a prática sexual e o objeto erótico-afetivo do cidadão(ã) GLS como uma expressão da capacidade afetiva dos seres humanos, ou uma expressão natural dos desejos, é fundamental para que ele não se encontre na difícil situação de ser discriminado por este profissional, ou seja, que reedite em seu trabalho o discurso homofóbico social.

Quando trago o tema da "psicoterapia" ou "terapia para gays", não estou colocando em discussão a homossexualidade ou bissexualidade como causa de transtornos psicopatológicos, já que independente do objeto de desejo, qualquer pessoa poderá apresentar em um determinado momento de sua vida dificuldades em seus relacionamentos, com sua auto-estima, auto-imagem ou outros problemas emocionais e afetivos.

Nos Estados Unidos, a APA (Associação Americana de Psicologia), divulgou uma lista com alguns critérios que devem ser observados pelo público GLS no momento de buscar apoio psicológico. Devido às diferenças culturais, não sou a favor de nenhum tipo de tradução, por mais bem intencionadas que sejam mas, enfim, abaixo seguem alguns itens; use seu próprio critério e assertividade.

Com respeito à figura do terapeuta, a associação americana recomenda:

> Que o psicólogo respeite e valorize como positivos os relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo.

> Que o psicólogo seja consciente das dificuldades que os membros do grupo GLS enfrentam devido ao estigma social, à violência física e à homofobia, e que estas dificuldades podem colocar em risco o bem-estar e a saúde mental deles.

> Que, para o psicólogo, a orientação sexual de tipo homossexual ou bissexual não configura indicadores de enfermidade mental.

> Que o psicólogo seja consciente de suas próprias dificuldades, limitações e preconceitos, e que esteja sempre alerta frente à possibilidade de atuar frente ao paciente.

> Que a homofobia social é um fator relevante na auto-estima e na autopercepção do paciente, e podem afetar a forma com que ele chega à terapia, assim como o processo terapêutico

> Que o conceito de casal e família do psicólogo seja amplo, e não restrito a duas pessoas de sexo oposto.

> Que a revelação da orientação sexual pode vir a ter um impacto negativo na relação do individuo com sua família, compreendendo as possíveis dificuldades que podem surgir, tanto para o indivíduo que informa quanto para os familiares.


Como saber se o psicólogo tem as características mencionadas anteriormente?

 

Em caso de necessitar apoio psicológico e não conhecer um profissional que trabalhe o homoerotismo de modo afirmativo, as ONGs, revistas e jornais gays podem ser uma valiosa fonte de informação, assim como amigos que estão/estiveram em processo terapêutico também pode ser de boa valia.

Caso não tenha a quem perguntar, utilize os itens mencionados anteriormente, transforme-os em perguntas. Não tenha medo de perguntar, seja franco e honesto com você mesmo e com as suas necessidades e não aceite menos por parte do psicólogo.


Sexualidade e Tabu na terceira idade


A sexualidade humana sempre tem sido e sempre será um vasto campo de possibilidades, dentro dele podemos definir a satisfação sexual em três aspectos: o biológico o psicológico e o social, que se unem e se nutrem, em uma incansável busca de sensações, percepções, desejos, atos, idealizações, formalizações e controles. Em seu conjunto, o comportamento sexual é uma das expressões mais variadas e complexas do ser humano.

O desejo como parte intrínseca do homem como gênero humano, não explicita suas motivações, nem filosofa sobre a configuração e eleição do seu objeto de prazer, é atemporal, vincula-se entre o passado e o futuro, se atualiza no presente, como motor e aditivo dos mecanismos da busca da satisfação.

Nascemos como sujeitos sexuados e desfrutamos do sexo/sexualidade de maneira diferente, de acordo com a etapa de nossa vida, mas infelizmente a sociedade, como um todo, e as pessoas, de modo individual, tendem a pensar que o sexo/sexualidade pertencem ao mundo dos jovens, relegando os indivíduos da terceira idade ao amor platônico ou à abstinência sexual. Este tipo de preconceito cumpre a função de freio à sexualidade, estabelece um tabu e ignora o fato de que podemos ser sexualmente ativos, dando e recebendo prazer durante toda nossa vida, de maneira diferenciada, sim, mas não menos prazerosa. É fato que a maioria das pessoas apresenta uma diminuição das atividades sexuais, o que não significa um decaimento da capacidade de amar, de ter, dar e receber prazer.

Os atuais avanços da medicina, da qualidade e longevidade de vida, assim como a convicção acertada de que a sexualidade não está vinculada ao número de primaveras vividas, colocam hoje os cidadãos da terceira idade (ou da melhor idade), na situação de sujeitos que desejam, que se permitem desejar e que são desejados. Pesquisas atuais indicam que qualquer indivíduo saudável pode ser sexualmente ativo, independente da idade, e que a atividade sexual faz bem à saúde, tanto física como mental, além de ter um impacto positivo na qualidade de vida.

 

 

  Paulo Bonança C.R.P 05-30190

Psicólogo e Sexólogo
Diplomado em Sexualidade Humana pela Universidade Diego Portales - Chile -
Autor da Tese "A AIDS entre os homossexuais; A confissão da soropositividade ao interior da família".
Membro da ABRAP (Associação Brasileira de Psicoterapia)
Membro da SBRASH (Sociedade Brasileira de Estudos da Sexualidade Humana)
Rio de Janeiro, Copacabana Telefone: (21) 2236-3899, 9783-9766
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